A proposta que o petróleo ditou
Há um padrão que se repete nas crises de regimes submetidos a pressão económica extrema. A diplomacia surge não como instrumento de estratégia, mas como produto da urgência. O que escrevi neste espaço do Jornal Económico nas últimas semanas, que o objectivo americano era o estrangulamento económico do regime e que a pressão naval era a sua consequência lógica e não o seu ponto de chegada, encontra hoje confirmação nos factos.
A nova proposta iraniana, transmitida pelo Paquistão a Washington, propõe reabrir o estreito de Ormuz e estender o cessar-fogo, remetendo as negociações nucleares para uma fase posterior. A leitura imediata pode parecer razoável. A leitura analítica é outra. O que Teerão propõe é abdicar da única alavanca que Washington detém antes de qualquer concessão nuclear estar garantida. É uma jogada de quem não tem margem, não de quem tem iniciativa.
Trump dificilmente aceitará. Levantar a pressão sem resolver o dossier nuclear eliminaria o instrumento central de contenção. Rubio disse que o plano era melhor do que o esperado, mas questionou se o negociador iraniano tinha autoridade para o submeter.
Provavelmente não tem. Mojtaba Khamenei continua ausente da esfera pública desde a sua ascensão, e essa ausência tem sido preenchida por mensagens e imagens cuja autenticidade foi contestada. O poder real parece ter-se deslocado para os comandantes da Guarda Revolucionária, que continuam a sabotar as posições do negociador Araghchi. Quando este anunciou a reabertura do estreito a 17 de Abril, a IRGC voltou a bloqueá-lo dias depois. Não é negociação. É paralisia com uniforme diplomático.
E é aqui que o petróleo entra com toda a brutalidade dos factos físicos. O terminal de Kharg Island, responsável por 90 por cento das exportações de crude iranianas, está a encher os seus tanques sem conseguir escoar. Com o bloqueio em vigor desde 13 de Abril, o Irão acumula cerca de 1,1 milhões de barris por dia sem destino. A capacidade disponível esgota-se em menos de duas semanas. Para ganhar tempo, Teerão reactivou o NASHA, um VLCC de 30 anos retirado do serviço em Kharg, para funcionar como armazenamento flutuante. Compra apenas 48 horas. A frota-sombra está a ser sistematicamente interceptada, e o Tesouro americano sancionou 19 navios e uma refinaria chinesa no âmbito da campanha “Economic Fury”.
A proposta iraniana não é um gesto diplomático. É a confissão de que o estrangulamento está a funcionar. Quem propõe abrir o estreito para que o bloqueio seja levantado está a dizer, sem o dizer, que já não aguenta mais. As tréguas não são paz. São o intervalo entre duas fases da mesma guerra.
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