Ormuz: um estreito, duas forças em confronto, nenhum navio a navegar
Dois navios na segunda-feira e nenhum esta terça-feira. É este o saldo de dois dias do Estreito de Ormuz navegável no quadro de um cessar-fogo que o seu autor, o governo dos Estados Unidos, diz estar em vigor. Durante os dois dias, os inúmeros episódios de troca de tiros entre os militares norte-americanos e iranianos aconselhavam vivamente a que os capitães dos navios se abstivessem de se lançar na travessia do estreito. Ou seja, a via continua a não ser navegável e o resultado é que o petróleo continua a caminhar para a escassez, ao mesmo tempo que o seu preço se mantém quase proibitivo. Num dia normal, o estreito é atravessado por uma média de 130 navios.
Para além da guerra pelas armas, há uma outra guerra a decorrer: de palavras e de tomadas de posição, com as duas partes – as mesmas que se guerreiam – a reivindicarem a posse do Estreito, ou, pelo menos, a possibilidade de oferecer uma passagem ‘limpa’ aos navios. Os Estados Unidos propõem servir de segurança, os iranianos incentivam o pagamento da permissão de passagem – os capitães optam por nenhuma das propostas e preferem ancorar os navios.
É claro para todos que essa passagem limpa pura e simplesmente não existe – e a troca de tiros pode levar rapidamente ao regresso do conflito armado à mesma escala (no mínimo) em que estava quando o presidente Donald Trump decretou o cessar-fogo. De forma algo paradoxal, os Estados Unidos insistem que o cessar-fogo se mantém. O secretário norte-americano da Defesa, Pete Hegseth, afirmou que o esforço dos EUA para libertar as embarcações retidas continua. “Estamos a garantir que temos o controlo do estreito, o que de facto temos”. Citado pela agência Reuters, Hegseth afirmou que os Estados Unidos conseguiram garantir a passagem pelo estreito e que centenas de navios comerciais estão na fila para o atravessar!
Do seu lado, o regime iraniano classificou a operação norte-americana como um fracasso e disse que o controlo sobre o estreito é iraniano e “intensificou-se” – segundo uma declaração oficial. O número de navios que passou o estrangulamento do estreito em frente ao território iraniano dá-lhes inevitavelmente razão.
Emirados bombardeados
Entretanto, pelo segundo dia consecutivo, os Emirados Árabes Unidos afirmaram esta terça-feira terem sido atacados por mísseis e drones iranianos, algo que não sucedia desde que o cessar-fogo entrou em vigor, no início de abril. Os Emirados disseram que os seus sistemas de defesa aérea intercetaram os disparos, mas não ficou claro se algum deles conseguiu atingir alvos no território. Do seu lado, o Irão não confirmou, mas também não negou, ser o responsável pelos ataques.
Para a Casa Branca, estes ataques ao país – que acaba de abandonar a OPEP – são uma clara violação do cessar-fogo, mas o presidente Trump não foi explícito sobre a forma como irá responder a essa violação. De qualquer modo, explicou que vai avisar os iranianos de que estão a violar esse cessar-fogo. O Ministério dos Negócios Estrangeiros dos Emirados emitiu entretanto um comunicado em que diz reservar-se o direito de ripostar ao fogo iraniano.
Por seu turno, as forças armadas dos Estados Unidos disseram ter destruído seis pequenas embarcações iranianas, além de mísseis de cruzeiro e drones. Pete Hegseth, afirmou que a operação para proteger navios comerciais é temporária e que a trégua de quatro semanas não havia terminado: “não estamos à procura de um conflito”. “Neste momento, o cessar-fogo certamente que se mantém, mas vamos monitorizar a situação com muita atenção.”
Para Donald Trump, as forças armadas do Irão foram muito afetadas pela intervenção norte-americana, limitando-se por isso a disparar “armas de brincar” e que Teerão deseja a paz, apesar da retórica belicista que ostente em público. “Eles estão a jogar sujo, mas deixem-me dizer uma coisa: eles querem fazer um acordo”, disse em declarações na Sala Oval.
Quanto ao acordo de paz, a troca de missivas está do lado dos iranianos: Teerão recebeu uma resposta de Washington à sua proposta de 14 pontos no passado domingo, mas ainda não forneceu qualquer resposta – para além da repetição do enredo que costumeiramente acompanha o assunto.
Entretanto, o ministro das Relações Exteriores do Irão, Abbas Araqchi, viajou para Pequim esta terça-feira para conversas com seu homólogo chinês, informou o seu ministério. Araqchi encontrar-se-á com o ministro das Relações Exteriores chinês para conversas sobre as relações bilaterais entre os dois países e os desdobramentos regionais e internacionais do conflito.
Os dois diplomatas já conversaram depois do início da guerra. No final de março o chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, apelou ao regresso ao diálogo para colocar um fim à guerra e iniciar negociações de paz “o mais rapidamente possível”, numa conversa telefónica com Abbas Araghchi. Wang defendeu que todas as questões devem ser resolvidas através do diálogo e da negociação, e não pelo uso da força.
“Isso serve os interesses do Irão e do seu povo e reflete a aspiração comum da comunidade internacional“, afirmou, acrescentando que a China continuará a adotar uma posição “objetiva e imparcial”, promovendo a paz e um cessar-fogo, e opondo-se à “violação da soberania” de outros países.
Entretanto, no Líbano
Os Estados Unidos reiteraram o seu apoio a um encontro entre o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e o presidente libanês Joseph Aoun, após este último ter declarado esta segunda-feira que esse encontro reunião não seria apropriado até que haja um cessar-fogo real dos ataques das Forças de Defesa de Israel (IDF) ao Líbano.
“O presidente Trump deixou claro que o diálogo direto entre os dois países é a melhor forma de avançar rapidamente para um acordo de paz e segurança duradouro”, disse o Departamento de Estado norte-americano em comunicado enviado à imprensa hebraica.
“A diplomacia está em andamento e não comentaremos as discussões em curso com os dois países”, não confirmando, por isso, a possibilidade do agendamento de uma terceira ronda de conversas ao nível de embaixadores entre Israel e Líbano, em Washington, na próxima semana. A Casa Branca acompanha o governo israelita e considera que “o Hezbollah continua a tentar sabotar as negociações com ataques contra Israel e ameaças dentro do Líbano”. Recorde-se que o grupo radical xiita foi contra as negociações desde a primeira hora.
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