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Da dependência energética à transição verde

Da dependência energética à transição verde

Dada a sua posição geográfica, Portugal é um país rico em energias renováveis. Graças às características endógenas, o país consegue ter energia hídrica, solar, eólica, de biomassa, das ondas, geotérmica e até hidrogénio verde. Nos últimos 10 anos, as energias renováveis têm ganhado terreno em Portugal, levando o país a demonstrar uma liderança pertinente na transição para as energias limpas, através da integração da eletricidade proveniente de fontes de energias renováveis. “Em 2022, a quota combinada de todas as fontes de energia renováveis no cabaz de produção de eletricidade atingiu 61% (enquanto na União Europeia era de apenas 38%, em 2021), e espera-se que continue a crescer, graças aos projetos em curso”, lê-se no site da Agência para o Investimento e o Comércio Externo de Portugal (AICEP). Pode este tipo de energia nos tornar menos dependentes de terceiros?
Nos últimos 10 anos, Portugal cresceu em termos energias renováveis?
A resposta é simples: sim. Recuemos um pouco mais: desde 2013 que metade da produção de eletricidade no país é assegurada por energias renováveis. Mas o marco dá-se em 2016, quando Portugal fez o feito de estar 107 horas (cerca de 4 dias) com o consumo interno de eletricidade do país a ser fornecido apenas por energias renováveis (mais concretamente, eólica, solar e hídrica). Este acontecimento demonstra bem a forma como o país tem avançado no que às energias renováveis diz respeito. O que traz benefícios para Portugal não só do ponto de vista ambiental, mas também económico, dada a redução da necessidade de importar carvão e petróleo. Em 2021, a Central de Sines, a maior poluidora do país, encerrou definitivamente, antecipando, assim, o compromisso de encerrar as centrais de carvão. Por outro lado, a energia eólica foi ganhando terreno, dada a posição geográfica atlântica do país. Dois anos depois, em 2023, o contributo das Fontes de Energia Renovável (FER) no consumo final bruto de energia foi de 35,2%, e na produção de eletricidade, de 63%, segundo dados do Portal do Estado do Ambiente. Esta incorporação permitiu que Portugal se mantivesse como o 4.º Estado-Membro da União Europeia (UE) com maior incorporação de FER na produção de eletricidade. Era o quinto ano consecutivo do país nesta posição. Até que em janeiro deste ano (2026), Portugal subiu ao 2.º lugar na Europa, com 80,7% de incorporação renovável na geração de eletricidade. O país destacou-se de entre os mercados europeus analisados no arranque do ano, ultrapassando a Dinamarca e ficando apenas atrás da Noruega.
O crescimento das renováveis é suficiente para Portugal garantir a autonomia energética?
A diminuição da dependência energética do exterior é um dos principais objetivos da política energética nacional. Para 2030, o Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) espera atingir a meta de 65% de autonomia energética. E segundo dados da publicação anual da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), “Energia em Números”, da edição de 2025, esta dependência tem vindo a diminuir: em 2023, a dependência energética situou-se em 66,7% (menos 4,5 pontos percentuais do que em 2022 — 71,2%), sendo que em 2013 se situava nos 73,6%; além disso, desde 2019 que não se regista a importação de carvão de origem fóssil para a produção de eletricidade, o que tem contribuído de forma positiva para a redução da dependência energética.
Que impactos teve a Guerra na Europa na transição verde em Portugal?
Em 2022, a Ucrânia sofreu a invasão pela Rússia, país do qual a Europa dependia fortemente do gás natural. Com as sanções ao país invasor, a Europa percebeu que a dependência de combustíveis fósseis importados não era apenas um problema ecológico, mas também uma vulnerabilidade estratégica. Portugal e Espanha reagiram prontamente à crise através da negociação de medidas de política energética a nível da UE, ao mesmo tempo que aceleraram a implementação das energias renováveis, com o intuito de aumentar a sua autonomia estratégica.
E para 2036, o que se pode esperar?
O hidrogénio verde é já uma realidade em Portugal. Contudo, ainda num estado embrionário, com poucas pessoas a terem acesso a este tipo de energia — que além de ser renovável, é, também, ambientalmente mais sustentável (quando queimado, o hidrogénio verde não produz gases de efeito de estufa, libertando apenas vapor de água para a atmosfera). Talvez por isso, o hidrogénio verde venha a ser a aposta dos próximos 10 anos. Na Península Ibérica, o hidrogénio está envolto num dilema: “Optar por exportá-lo ou utilizá-lo para promover a modernização industrial e a descarbonização da própria Península. A resposta a este dilema tem de ser bem ponderada, porque as interligações de eletricidade e hidrogénio necessárias para a exportação não estão ainda feitas e levarão anos a desenvolver”, lê-se no 4.º policy paper desenvolvido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos em parceria com a Brookings Institution. Em 2022, Portugal, Espanha e França concordaram em desenvolver novas interligações para o hidrogénio, sobretudo através do gasoduto H2Med. Com este projeto, pretende-se integrar o mercado de hidrogénio na Península Ibérica na rede europeia.
Mas os desafios para a próxima década (e além desta) não se ficam por aqui: para cumprirem os seus objetivos em termos de energias renovávei e eletrificação, Portugal e Espanha têm de “acelerar o desenvolvimento da rede, expandir as interligações transfronteiriças, aumentar a capacidade de armazenamento, melhorar a flexibilidade da procura, desenvolver mercados e mecanismo de capacidade e simplificar os licenciamentos”, refere o mesmo policy paper.
Também na próxima década, poderemos assistir a uma alteração na geopolítica energética: com a entrada das energias renováveis, percebemos que os poços de petróleo começam a perder força.
Será que na próxima década, Portugal pode tornar-se o país rico em energias renováveis, com quem grande parte da Europa quer negociar?
 

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