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Bairro Alto: onde param as multidões?

Bairro Alto: onde param as multidões?

Na Travessa dos Inglesinhos, no Bairro Alto, o pequeno restaurante Rosa no Rio enfrenta margens de lucro mais apertadas. À frente do negócio está Rosa da Bica (nasceu no bairro com o mesmo nome) que serve pasteis de bacalhau, bifanas no pão e o inevitável bife com ovo a cavalo, num espaço onde cada detalhe conta uma história: panos de lã, um rádio antigo, saquinhos de pão em renda, como se o tempo ali tivesse decidido abrandar.
A clientela mantém-se mista, entre turistas e portugueses, atraída pelos preços acessíveis, como a imperial a um euro, e pelos menus pensados para estudantes universitários. Mas o ambiente à porta mudou. As recentes alterações na regulamentação da noite vieram alterar o funcionamento do bairro. A Câmara Municipal de Lisboa aprovou a proibição da venda de bebidas alcoólicas para consumo na rua entre as 23h00 e as 08h00 de domingo a quinta-feira, e entre as 24h00 e as 08h00 à sexta, sábado e vésperas de feriado. Fora destes períodos, é permitido consumir no interior dos estabelecimentos comerciais ou nos lugares sentados das suas esplanadas, “desde que devidamente licenciados para o efeito e no estrito cumprimento do horário do estabelecimento respetivo.”
A diferença no ambiente do restaurante Rosa no Rio tornou-se evidente. Às 23h45, a esplanada é levantada sem exceção. “Vai matar o comércio a muita gente”, diz a gerente ao Jornal Económico. Os números confirmam. Em apenas três meses já registou uma quebra de 30% na venda de bebidas alcoólicas, principalmente de cerveja – uma redução que representa cerca de três mil euros mensais. “São menos 12 barris de 50 litros por mês”, acrescenta. Para equilibrar as contas, Rosa mantém o restaurante aberto todos os dias e dá folgas rotativas aos empregados. Mas a apreensão é clara. “As multas são muito altas e nós respeitamos a lei.”
A medida aplica-se a restaurantes, cafés, casas de chá, pastelarias, bares, discotecas, casas de fado, salas de espetáculos, teatros, cinemas, casinos, hotelaria, postos de abastecimento de combustível e lojas de conveniência. Quem não cumprir arrisca uma multa entre os mil (particulares) e os três mil euros (estabelecimentos). “Nas primeiras semanas de aplicação desta medida, houve uma preocupação de pedagogia e sensibilização juntos dos comerciantes para a necessidade do cumprimento das novas regras relacionadas com a venda de bebidas alcoólicas para o exterior. De qualquer forma, foram levantados até ao momento um total de 22 autos de notícia por contraordenação, no âmbito da medida de proibição de venda de bebidas alcoólicas para o exterior dos estabelecimentos após as 23h00 ou as 24h00, consoante o dia da semana. A freguesia com maior número de ocorrências foi a da Misericórdia. O Município de Lisboa está em contacto permanente com os comerciantes e com as associações representativas do setor, e encontra-se a acompanhar os impactos desta medida que, recorde-se, abrange toda a cidade e visa garantir o direito ao descanso dos moradores”, revelou fonte da autarquia ao Jornal Económico.
No restaurante Cantinho da Rosa, também no Bairro Alto, a rotina noturna passou a ter um horário mais rígido. Todas as sextas-feiras, a polícia passa pelo estabelecimento para relembrar as regras. O gerente Manuel Carrapiço, de 70 anos, recorda que “as pessoas que vinham jantar, principalmente os mais novos, acabavam por levar a cerveja para fora”. Esse fluxo, antes constante, foi um dos primeiros a ressentir-se com as novas restrições. A quebra nas vendas fez-se sentir, embora de forma menos abrupta do que noutros espaços da zona. Ainda assim, nota a diferença no movimento e no consumo associado ao fim da noite. Mesmo com o decréscimo, o estabelecimento mantém a encomenda habitual de cerveja. “Vamos adaptando o negócio”, diz.
Eugénio Fidalgo, proprietário do restaurante Fidalgo e do bar Matilde, também se queixa da quebra na faturação das bebidas alcoólicas. “As perdas rondam os 80%”, afirma ao Jornal Económico. O empresário aponta ainda outro fator para as dificuldades sentidas. “O bar, à noite, também não funciona bem porque temos produtos de qualidade, que são mais caros, e estamos minados com bares, à volta, a vender em copos de sete decilitros e meio por cinco euros.” Apesar das dificuldades, Eugénio defende que a revitalização do Bairro Alto depende do contributo de todos os comerciantes. “Eu procuro fazer a minha parte, preservando a autenticidade dos pratos que sirvo, apostando numa boa seleção de vinhos e garantindo um serviço de qualidade”, sublinha. Essa aposta reflete-se na carta do espaço, onde pratos como o polvo à lagareiro e o bacalhau à Brás são frequentemente elogiados pelos clientes pela qualidade e sabor genuíno. “Antigamente havia uma oferta diversificada de uma série de restaurantes; hoje em dia há menos e com menos qualidade”, acrescenta.
Nos bares Spot, na rua da Atalaia, e na Tasca dos Canários Amarelos, na rua do Norte, a resposta foi unânime: a perda de receitas situa-se entre os 30% e os 40%.
Para Hilário Castro, presidente da Associação de Comerciantes do Bairro Alto (ACBA), o “único penalizado é o comerciante e isso, de facto, acaba por interferir seriamente no negócio, porque as multas são elevadas”. Ainda assim, sublinha, é necessário analisar a questão no seu todo e não apenas da forma que interessa a cada um, lembrando que os estabelecimentos são concebidos para funcionar no seu interior e, quando aplicável, nas esplanadas devidamente autorizadas. “Criar negócios para vender exclusivamente para a via pública não está propriamente consignado”, acrescenta.
Requalificação
Segundo o responsável, a situação do Bairro Alto deve ser encarada de forma global, conciliando o cumprimento das regras com os desafios estruturais da zona: “Temos verificado que, apesar de ainda se registar algum incumprimento, os comerciantes têm sido responsáveis e acabam por dar o exemplo no cumprimento das regras”. O Bairro Alto tem, no entanto, um problema antigo relacionado com o ruído e a animação noturna que, provavelmente, “nunca será totalmente resolvido”. “Mas pode ser minimizado se forem permitidas outras atividades, como a instalação de gabinetes de arquitetura e outros serviços de natureza semelhante”, acrescenta Hilário Castro.
Quanto ao projeto de requalificação do Bairro Alto, a primeira etapa teve início na primeira semana de maio, com o arranque da obra na Travessa da Queimada, a primeira rua a ser intervencionada. “Nesta fase, a intervenção está a ser desenvolvida de forma interdisciplinar e concertada, implementando soluções que serão posteriormente replicadas nas restantes ruas. Para além da revisão das infraestruturas de saneamento e de telecomunicações (uma componente menos visível, mas absolutamente essencial), a obra permitirá nivelar os pavimentos, melhorando a circulação pedonal, e reforçar e modernizar a iluminação pública, aumentando o conforto e a segurança de todas as pessoas que vivem, trabalham ou frequentam o Bairro Alto. Serão ainda introduzidos espaços verdes adaptados às condicionantes urbanas (como trepadeiras) e, de forma complementar, serão reforçados os equipamentos de higiene urbana”, acrescenta fonte da autarquia.
A proibição da venda de bebidas alcoólicas tem gerado reações distintas entre comerciantes e moradores, num bairro onde o equilíbrio entre habitação, turismo e diversão continua a ser um desafio. Para quem vive na zona há décadas, os efeitos das mudanças fazem-se sentir no dia a dia. Mário Silva, de 76 anos, antigo trabalhador de uma tipografia, vive num prédio de três andares na Rua Diário de Notícias, onde paga 224 euros de renda. Apesar de reconhecer algumas mudanças no bairro, diz que as madrugadas continuam agitadas. “Por volta das cinco ou seis da manhã ainda ouço gritos na Rua da Rosa e na Rua da Atalaia”, conta. Também Vera Rachid, de 83 anos, natural de Minas Gerais, no Brasil, acompanha a transformação do Bairro Alto há duas décadas. Vive com a filha, Andresa, de 46 anos, num T2 pelo qual pagam 800 euros de renda. Mãe e filha reconhecem, no entanto, algumas melhorias recentes. Na Rua dos Mouros, dizem, “o barulho e o lixo diminuíram”. Entre o ruído e o silêncio, o bairro mantém-se em transformação constante.

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