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Sentir o pulsar do mundo em Veneza através de ondas sísmicas

Sentir o pulsar do mundo em Veneza através de ondas sísmicas

Na manhã do dia 1 de novembro de 1755 a terra tremeu durante vários minutos, derrubando edifícios e espalhando os seus destroços por toda a parte. Minutos depois o rio cresceu pelas ruas da cidade, invadindo a baixa de Lisboa. Muitas pessoas que tinham fugido para as margens do Tejo para escapar aos edifícios que ruíam, foram apanhadas pelas águas. Quando as ondas se retiraram ficaram os incêndios que queimaram o que restava. Falou-se em punição, castigo de Deus. E enquanto a Inquisição zelava pelos seus negócios, as grandes mentes da época mergulhavam na reflexão. Kant foi um dos primeiros pensadores a tentar explicar os terremotos por causas naturais, e não sobrenaturais. Voltaire e Rousseau envolveram-se numa troca de ideias que ficou para a história. Leibniz tremeu perante a catástrofe que desafiou o otimismo que o Iluminismo cultivava. E o Marquês de Pombal, então ainda sem título, pôs em marcha a reconstrução da cidade.
É por entre as fissuras, fendas que permanecem por ler, que se espraia “RedSkyFalls”, de Alexandre Estrela, com curadoria de Ana Baliza e Ricardo Nicolau. O projeto que representa Portugal na Bienal de Veneza, que acontece entre 9 de maio e 22 de novembro, suscita de imediato uma questão. O que é um ‘céu vermelho que cai’? Em duas pinceladas, e simplificando algo que é complexo, trata-se de um ecossistema artificial que responde em tempo real à atividade sísmica global, próxima e distante, com sensibilidade animal. A energia sísmica liga uma rede de “Réplicas” entre São Francisco, Los Angeles, Lima, Cidade do México e Lisboa. Ou seja, na Sereníssima, “RedSkyFalls” irá estender-se a geografias sismicamente ativas, onde as tais bio-sentinelas (as Réplicas) respondem à atividade sísmica global e de uma forma síncrona a eventos próximos.
Como surgiu a ideia? Alexandre Estrela explica ao JE que esta remonta ao final do primeiro mandato de Donald Trump, quando a sua administração decidiu “cortar financiamento à USGS, uma agência de geologia de referência mundial”, e a entidade através da qual o artista acedia aos dados sísmicos. O impacto foi enorme e imediato. “A peça ficou descontinuada, como um eletrodoméstico antigo”, diz Alexandre Estrela. “Foi deste apagão que partiu a ideia para Veneza. Reativada com dados de agências europeias, foi transformada num sistema operativo para uma série de peças. No fundo, “passámos a ter um diorama alimentado pela energia terráquea, tal como os hologramas da «Invenção de Morel», de Bioy Casares, produzidos pela força das marés.” A literatura imiscuiu-se no processo criativo, tal como a pintura já o havia feito. E aqui pensamos em dois titãs da pintura paisagística britânica, Turner e Constable. O Manifesto de “RedSkyFalls” fala deles, claro, mas, entretanto, já a conversa se agita perante o medo. Porquê? Porque sempre que, em qualquer parte do mundo, há registo de atividade sísmica acima de 4,5 na escala de Richter, a paisagem de “RedSkyFalls” muda aceleradamente de estação do ano, as plantas agitam-se e as Réplicas congelam de medo.
A importância dos pequenos sinais
“É uma reação adaptativa. Ou foges, ou lutas, ou congelas. Podes congelar numa guerra, podes congelar num terramoto. O pânico bloqueia”, sublinha Alexandre Estrela. “Ficas petrificado”, prossegue. O que artista e curadores procuram, em Veneza, é precisamente “trabalhar na atenção aos pequenos sinais para contornar essa petrificação”, esse bloqueio em relação à proatividade. Na prática, “RedSkyFalls” procura responder ao repto lançado por Koyo Kouoh, a curadora da 61ª edição da Bienal de Veneza, de pensar o mundo “In Minor Keys”. Ou seja, prestando atenção aos pequenos, ínfimos sinais. “O tema proposto por Koyo Kouoh é incómodo porque presciente num momento em que há uma globalização da guerra.” Não imaginamos, diz, “a quantidade de ecossistemas conhecidos e desconhecidos que são levados à extinção com a detonação de bombas. A rutura não é apenas política ou social, mas também ecológica e possivelmente irreversível.” E não se pense que este projeto é voyeurista e se transforma num sismógrafo da desgraça alheia. Nada disso. Antes remete para a ideia de um chão comum. Sem esquecer que a sua prática artística “parte do legado plástico da história da arte, mas também incorpora a tecnologia e a ciência.”
Durante os sete meses de exposição na Bienal de Arte de Veneza – naquele que é o mais importante acontecimento do mundo da arte contemporânea –,­ a instalação terá um programa paralelo pensado por Marco Bene, intitulado “Survey on an S Wave”. Um conjunto de conversas, concertos, happenings e projeções inspirados no inquérito pombalino após o Terramoto de Lisboa de 1755, e que Bene dividiu em cinco momentos temáticos. Em cada um deles, levará consigo um Arquivo Sísmico Portátil, i.e., uma pequena exposição “para abrir fluxos subterrâneos” através de peças de outros artistas, para usarmos as palavras de Alexandre Estrela. Enquanto o inquérito enviado pelo Marquês de Pombal no rescaldo do terremoto de 1755 procurava terreno firme, o programa paralelo de “RedSkyFalls”, cuja primeira parte (10 e 11 de maio) tem o sugestivo título de Presságios & Tremores, convida artistas e pensadores a “funambular”. Ou seja, a fazer equilibrismo para habitar a instabilidade. Estremecemos e agimos? Ou petrificamos?
Pavilhão de Portugal na 61ª Biennale di Venezia
Local: Fondaco Marcello, Calle del Traghetto/Ca’ Garzoni, San Marco 3415
Programa de atividades: 5 momentos entre maio e novembro de 2026

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