Aumentos da produtividade?
Há décadas atrás, todas as bombas de gasolina tinham funcionários a encher os depósitos dos veículos. Posteriormente, passou a haver (mais no resto da Europa, não me lembro disso em Portugal) dois tipos de abastecimento de combustível: com e sem empregado, sendo os primeiros um pouco mais caros.
Do ponto de vista empresarial, isto representa um aumento da produtividade, com o aumento de vendas por trabalhador. Para o consumidor, há uma redução do preço da margem de distribuição (não confundir com baixa do preço total), sobretudo nas situações de elevada concorrência, mas um aumento do esforço. Esta mudança é boa para os consumidores? Se houver concorrência (condição essencial!), a redução de custo traduz-se em diminuição de preço e os clientes preferirão a nova versão.
Do ponto de vista económico, estamos em presença de um verdadeiro aumento da produtividade? Não propriamente, o que ocorre aqui é mais uma externalização de um custo, da empresa para o consumidor. O problema é a forma como este fenómeno se tem vindo a generalizar, com as empresas muito orgulhosas de aumentar a produtividade, quando o que estão a fazer, em demasiados casos, é a passar custos para o cliente (o inferno das horas perdidas a falar com máquinas, a dificuldade em falar com funcionários). Em mercados concorrenciais, a situação é menos grave, porque a competição deverá levar as empresas a diminuir os preços, pelo menos parcialmente, em linha com a redução de custos.
Muito mais grave é o que ocorre em monopólios, e o Estado é o pior deles. Há por aí ideias muito pouco esclarecidas, de achar que a “modernização” do Estado passa por imitar as empresas, em particular nos casos em que elas não estão a aumentar a produtividade, mas apenas a externalizar custos.
A (muito mal pensada) digitalização da administração pública é o cúmulo da externalização de custos, em que é pedido ao cidadão que escolha qual a rubrica específica em que o seu requerimento se insere, uma tarefa que caberia ao funcionário público, como se o comum dos mortais estivesse por dentro das mais do que bizantinas normas portuguesas.
Uma verdadeira modernização do Estado passa pela eliminação de processos e não pela sua digitalização. Aliás, neste momento, uma das tarefas mais urgentes é uma auditoria à digitalização, que, em demasiados casos não resolveu nenhum problema e criou novos.
Há também outro tipo de aumentos da produtividade, muito visível em certos gigantes mundiais das novas tecnologias, que não vou nomear por prudência, que se baseiam em pressionar os trabalhadores a produzir cada vez mais, chegando a cronometrar o tempo gasto em idas à casa de banho. Estas melhorias da produtividade são visíveis nos lucros das empresas e no PIB, mas são conseguidas levando muitos funcionários à beira do esgotamento. As estatísticas melhoram, mas à custa do bem-estar das pessoas. Isto não faz qualquer sentido, é óbvio que o bem-estar é o verdadeiro objectivo e o PIB é apenas uma medida imperfeita daquele, e neste caso é evidente que os dados do PIB são enganadores.
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