Rali de Portugal e o que disseram os adeptos: paixão, exigência e inquietação…
No rescaldo de uma edição intensa dentro e fora dos troços, o Rali de Portugal voltou a confirmar a força mobilizadora que tem junto dos adeptos, mas também expôs fraturas cada vez mais visíveis na forma como a prova é vivida e avaliada.
Entre críticas às zonas-espetáculo, aos acessos e ao civismo, polémicas em torno do ambiente nos troços e da falha de segurança em Arganil, sem esquecer o dramatismo desportivo do duelo entre Ogier e Neuville, o retrato deixado pelo público é simultaneamente de paixão, exigência e inquietação.
Zonas-espetáculo, acessos e civismo
Entre os adeptos, uma das críticas mais fortes centrou-se nas zonas-espetáculo e no modelo de acesso ao público. Vários veteranos da prova consideram que o rali foi sendo empurrado para um formato demasiado controlado, com menos liberdade de circulação, menos proximidade à estrada e uma experiência cada vez mais distante da identidade tradicional da modalidade.
Um adepto, com décadas de presença no evento, descreveu essa evolução como um processo em que o público foi “tratado como gado” e em que o rali se transformou num “enlatado inócuo, sem incidentes, sem surpresas, longe da emoção e longe do perigo”.
As queixas sobre as acessibilidades repetem-se. Há relatos de espectadores obrigados a deixar o carro a muitos quilómetros dos troços, sem perceberem a razão dessa imposição, apesar de considerarem que existia espaço suficiente para estacionamento e circulação.
Outros contestam a concentração do público em poucos pontos, sublinhando que as transmissões mostram “quilómetros de especiais sem vivalma”, sobretudo quando comparados com outras provas do Mundial, onde se vê gente muito mais distribuída ao longo do percurso.
A crítica estendeu-se também ao civismo entre espectadores. Multiplicaram-se os relatos sobre fitas colocadas para reservar lugares dias antes da prova, quer em zonas pedonais, quer em áreas de estacionamento, deixando muitos adeptos sem espaço apesar de terem chegado cedo. Para vários comentadores, trata-se de uma “falta de respeito e civismo”; para outros, a resposta é simples: “No espaço público não existe reserva de espaço” e “arrancar tudo” tornou-se quase um refrão entre os mais indignados.
Ainda assim, houve quem defendesse o modelo atual. Alguns adeptos sustentam que as zonas-espetáculo são hoje indispensáveis para evitar comportamentos de risco e impedir o regresso aos excessos de décadas passadas. Um comentário resume essa visão: “Se não fosse o controlo do público, o Rali de Portugal já tinha acabado há muito”.
Motosserras, álcool e o ambiente à volta da prova
A polémica das motosserras foi outro dos temas mais divisivos. Para um grande número de adeptos, o fenómeno tornou-se um símbolo da degradação do ambiente nos troços, associado a ruído excessivo, álcool, exibicionismo e a um público mais interessado na festa do que na competição. Comentários como “o Rali está a tornar-se um circo”, “já não se suporta esta gente” ou “o lixo do rali” espelham esse mal-estar.
As críticas não se limitaram ao barulho. Houve referências insistentes a petardos, lixo deixado na serra, tendas montadas em locais impróprios, fogareiros e grupos que, segundo vários adeptos, pouco ou nada sabem sobre ralis, as suas classificações, pilotos, ou mesmo a própria prova. Um dos testemunhos mais incisivos resume esse sentimento: “Grande parte desse pessoal não sabe nada sobre ralis. É mesmo só para beberem até cair…”.
Mas nem todos rejeitam esse lado mais popular. Alguns comentários defendem que o rali sempre foi também convívio, noite passada no monte, improviso e festa. Nessa perspetiva, as motosserras e o ruído fazem parte do ambiente, desde que exista respeito no momento da passagem dos carros. Um adepto sintetizou essa posição assim: “Desde que haja respeito, quando os carros passam, todos apreciamos. Mas nos tempos vazios haja barulho e umas pingas”.
O reboque em Arganil e a falha de segurança
O momento mais grave e mais comentado da edição de 2026 foi, sem surpresa, o incidente do reboque em Arganil. A entrada de um veículo no troço durante a especial, obrigando um dos pilotos a abrandar, foi recebida com espanto e indignação. Em muitos comentários, o episódio é descrito como “surreal”, “vergonhoso” e “uma falha gravíssima”.
A partir daí, os adeptos dividiram-se quanto às responsabilidades. Uma parte substancial apontou o dedo à organização, defendendo que a responsabilidade última é de quem gere a prova, os prestadores de serviço e o dispositivo de segurança. O argumento repete-se de várias formas: se o reboque entrou, foi porque alguém o deixou entrar; se estava contratado pelo organizador, então a cadeia de responsabilidade não pode ser ignorada. A multa de 15 mil euros com pena suspensa até 2027 foi lida por muitos como confirmação dessa falha.
Outros, porém, pediram prudência. Houve quem defendesse que o diretor de prova não pode estar em todo o lado e que o erro pode ter resultado de uma decisão errada do condutor, eventualmente guiado por instruções incorretas ou até pelo GPS. Alguns adeptos preferiram sublinhar que não houve feridos e alertaram contra o excesso de dramatização pública, por temerem que a amplificação do caso prejudique a imagem internacional da prova.
Mesmo entre os mais contidos, surgiu uma conclusão comum: é necessário reforçar procedimentos, clarificar competências no terreno e melhorar a formação de todos os envolvidos, das autoridades aos marshals. Vários comentários insistem que um troço fechado tem de ser um espaço absolutamente vedado a qualquer veículo externo durante a competição.
Ogier, Neuville e o lado emocional da prova
No plano desportivo, o furo que afastou Sébastien Ogier da vitória foi encarado como um dos momentos mais marcantes do rali. Entre os adeptos, a leitura dominante foi a de um golpe cruel na luta pelo triunfo, mas também de um episódio que faz parte da essência imprevisível dos ralis. “Os furos acontecem, faz parte dos ralis”, resumiu um comentário, refletindo uma resignação típica de quem acompanha a modalidade há muitos anos.
A reviravolta abriu caminho ao triunfo de Thierry Neuville, visto por alguns como um resultado importante para a Hyundai e para o equilíbrio competitivo do campeonato. Ao mesmo tempo, houve quem salientasse que a prova teve interesse do princípio ao fim, com mudanças no percurso, meteorologia adversa, muita competitividade e forte adesão do público, apesar de todas as polémicas.
Entre a crítica e a paixão
Apesar do ruído, das queixas e da crispação, o retrato final deixado pelos adeptos está longe de ser apenas negativo. Muitos continuam a falar do Rally de Portugal como uma experiência única, feita de memória, tradição, amizade e pertença. Há descrições de noites míticas em Fafe, Candosa, Lousã ou Bussaco, de infância vivida no monte e de uma atmosfera que continua, para muitos, sem equivalente.
Entre os elogios, destacou-se ainda a organização local em alguns pontos da prova, nomeadamente soluções de estacionamento e transporte criadas para facilitar o acesso do público. No fundo, o sentimento dominante parece ser este: os adeptos continuam profundamente ligados ao Rally de Portugal, mas exigem que a festa não se faça à custa da segurança, do civismo e da qualidade da experiência no terreno.
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