A fotografia entre a consciência e as máscaras
“A exposição PERSONAE, aberta ao público desde 14 de maio, no âmbito da ARCOLisboa e da Lisbon Design Week, inscreve-se nesta linha de privilegiar temas como a identidade e a construção do ‘eu’ para questionar estereótipos sociais”, diz ao JE Paulo Tomé, Diretor de Comunicação e Marca do Novobanco. Alexandra Conde, curadora e conservadora da Coleção corrobora. “Interessa-me explorar a identidade como construção – algo que se encena, se apropria e se transforma. Tal como os artistas assumem outras personas para questionar o real, também a curadoria pode recorrer a novas ferramentas para expandir o seu campo de criação.” E aqui entra em cena a inteligência artificial (IA). Provocação? Nada disso. Como explica Alexandra Conde, “a utilização de inteligência artificial neste contexto não substitui a autoria, mas torna visível esse processo.”
Na mente da curadora desenha-se o conceito da exposição. Selecionam-se os artistas que melhor o ilustram, como Cindy Sherman, ORLAN, Marina Abramović, Erwin Olaf, Jane and Louise Wilson, Hannah Starkey, Helena Almeida e Nikki S. Lee, entre muitos outros, e solicita-se à IA (ChatGPT) que escreva o texto da folha de sala.
“Em arte plástica, PERSONAE refere-se ao processo em que o artista assume deliberadamente o papel de outra identidade – real, ficcional ou construída – transformando essa apropriação num personagem artístico. Essa persona funciona como um dispositivo criativo: ao encarná-la, o artista desloca o seu “eu” habitual, experimenta outras vozes, gestos ou narrativas, e materializa essa transformação em formas visuais (fotografia escultura, pintura, performance, instalação, etc.). Não é apenas representação: é uma encarnação temporária que serve como meio para explorar temas como identidade, alteridade, género poder ou memória.”
“O termo dialoga com a noção de persona desenvolvida por Carl Jung – a máscara social que usamos – mas, no contexto artístico, vai mais longe: a máscara deixa de ser apenas psicológica e torna-se matéria estética, método de criação e personagem autónomo.”
Alexandra Conde assume na própria folha de sala que este texto foi gerado inteiramente pela IA e validado pela sua “curadoria e consciência humana.” Porquê? Porque o resultado se revelou surpreendente e “fiel à proposta de curadoria idealizada.” Como tal, não poderia ocultar a sua origem, pois estaria “a criar uma máscara redundante.” Sendo a apropriação o cerne de PERSONAE, a curadora decidiu apropriar-se deste conteúdo para materializar a sua visão. “O texto não existiria sem a minha curadoria, em ambos os casos, a apropriação não é uma cópia, mas uma criação.” Em suma, estamos perante um exercício assumido que amplia a reflexão sobre autoria, mediação e criação no contexto contemporâneo. “A questão não é substituir o autor, mas repensar o que significa criar, hoje.”
A exposição agora inaugurada visa ainda reforçar o papel da Coleção de Fotografia do Novobanco como plataforma ativa de pensamento visual contemporâneo, com especial foco “nas práticas visuais do século XXI”, como sublinha Paulo Tomé. “Com mais de mil obras de 300 de artistas de referência, a coleção oferece uma visão panorâmica do melhor da arte contemporânea, após o ano 2000”, sublinha, integrando também “os principais momentos do circuito artístico nacional, nomeadamente a ARCOLisboa e a Lisbon Design Week.” Na prática, a instituição assume-se como “agente cultural”, que entende “a preservação e a partilha pública do seu acervo como parte integrante do seu papel na sociedade”, diz o responsável. Repensamos o ato de criar?
PERSONAE pode ser visitada até 30 de novembro no espaço da Coleção de Fotografia do Novobanco, no Marquês de Pombal 3-A, Lisboa
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