Turbinar a defesa
A indústria portuguesa começa a posicionar-se no setor da defesa, mas ainda a um ritmo demasiado lento. Se o país não quer perder este novo ciclo de investimento e inovação, tem de acelerar e turbinar rapidamente este motor.
Um dos exemplos mais evidentes é a Tekever, que tem vindo a afirmar se através do desenvolvimento de drones, hoje utilizados não apenas para fins recreativos ou de vigilância, mas também em cenários de guerra, como no conflito na Ucrânia. Este caso demonstra que Portugal consegue estar na linha da frente em áreas críticas. Ainda assim, o contexto geopolítico atual exige mais exemplos como este, ou seja, casos que reforcem não só a capacidade industrial do país, mas também a sua soberania na defesa e, cada vez mais, a sua soberania digital.
É precisamente aqui que entra a inteligência artificial, alargando significativamente o leque de oportunidades. A combinação entre defesa, dados e algoritmos está a redefinir os equilíbrios globais. No entanto, não basta reconhecer o potencial: é essencial garantir o controlo desses mesmos dados. Ter centros de dados no território não é suficiente; é necessária uma arquitetura robusta de governance que assegure que esse valor estratégico não escapa. Caso contrário, corremos o risco de, mais uma vez, perder o comboio.
Entretanto, a Europa está a reagir. Um pouco por todo o continente, os países estão a rever em alta os seus investimentos em defesa, apoiando-se em três pilares fundamentais: autonomia estratégica, modernização e parcerias de inovação. França, Alemanha, Itália e Turquia afirmam se como os principais polos de produção. Portugal está ainda longe desse patamar, mas isso não significa irrelevância. Pelo contrário, existe margem para assumir um papel sólido na cadeia de valor da defesa, desde que haja uma aposta consistente numa indústria inovadora e competitiva.
Neste contexto, para que a defesa possa vir a afirmar se como um verdadeiro “campeão nacional”, é necessário dar um passo adicional. O cluster já existe e envolve mais de 400 empresas, o que revela massa crítica. Falta, porém, acelerar a sua dinamização com medidas concretas e ambição estratégica.
O enquadramento político é hoje favorável e deve ser aproveitado sem hesitação. Mas há também uma condição essencial: esta aposta tem de ser explicada e justificada. O contribuinte português vai querer saber qual o retorno económico, tecnológico e estratégico resulta deste investimento.
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