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Subida das yields soberanas trava ações. Treasury a 30 anos em máximos desde 2007

Subida das yields soberanas trava ações. Treasury a 30 anos em máximos desde 2007

A semana foi marcada pela subida das taxas de juro de longo prazo, com os juros soberanos a intensificarem a tendência de alta, penalizando os mercados acionistas e afastando os principais índices, sobretudo os americanos, dos máximos históricos das semanas anteriores. O mercado obrigacionista voltou assim a impor-se como principal fator de risco para os ativos financeiros. O prémio de risco exigido para deter ações, o chamado equity risk premium, tende inevitavelmente a aumentar quando as yields das obrigações do tesouro sobem significativamente e esta semana regressaram a níveis anteriores à crise financeira de 2008/09, com o rendimento do tesouro dos EUA a 30 anos a atingir os 5,20%, um máximo desde julho de 2007.
Perante juros mais altos, as ações têm de oferecer rentabilidades substancialmente mais altas para continuarem atrativas para os investidores. Afinal, quando os títulos do Tesouro dos EUA oferecem retornos acima de 5% em maturidades longas, ativos tradicionalmente considerados “livres de risco”, ainda que, na prática, tudo tenha risco, o custo de oportunidade de investir em ações sobe significativamente. E a questão já não é apenas inflação ou política monetária. Há um crescente receio relativamente à deterioração estrutural das contas públicas norte-americanas. Os EUA continuam a apresentar défices orçamentais à volta dos 6% do PIB, enquanto a dívida pública já representa cerca de 120% do PIB nominal. E não é por acaso que as três grandes agências de rating — S&P Global, Moody’s e Fitch Ratings — retiraram a classificação de AAA à dívida soberana norte-americana.
A curva de rendimentos mostra precisamente essa preocupação. A yield a 10 anos nos EUA está nos 4,61%, tendo já estado próxima dos 5% em outubro de 2023. Já a yield a 2 anos está a 4,11%, depois de ter ultrapassado os 5,10% em setembro de 2023. Isto sugere que, além do tradicional risco de taxa de juro, associado às expectativas para inflação e para a política monetária da Reserva Federal, existe também um prémio de risco crescente associado ao crédito soberano norte-americano, sobretudo nos prazos mais longos. Ou seja, quanto maior o prazo da obrigação, maior é a desconfiança dos investidores relativamente à sustentabilidade futura das finanças públicas dos EUA. A subida da yield a 30 anos para máximos desde 2007 reflete precisamente esse receio de deterioração estrutural das contas públicas americanas. A pressão sobre as yields continua também a ser alimentada pela subida do preço do petróleo, impulsionada pelas tensões geopolíticas no Médio Oriente, reacendendo receios inflacionistas globais, aumentando a probabilidade de uma Fed mais agressiva.
Entretanto, a economia americana mantém-se ainda relativamente resiliente. O PMI industrial de maio surpreendeu positivamente, com o índice a subir para 55,3 pontos, um máximo de quatro anos, enquanto os serviços recuaram para 50,9. Ao mesmo tempo, o modelo GDPNow da Fed de Atlanta continua a apontar para um crescimento relativamente sólido da economia americana no segundo trimestre, estimando atualmente uma expansão do PIB de 3,7%. Também o mercado de trabalho continua, para já, relativamente resiliente. Os pedidos semanais de subsídio de desemprego (jobless claims) permanecem ligeiramente acima dos 200 mil, e os últimos dois relatórios mensais do emprego corroboraram alguma estabilização do mercado de trabalho, depois dos sinais de crescente fragilidade ao longo de 2024, 2025 e início de 2026.
Em suma, os mercados estão presos entre duas forças contraditórias. Por um lado, uma economia americana ainda resiliente, mas, por outro, taxas de juro cada vez mais elevadas, alimentadas não apenas pela inflação e pelo petróleo, mas também pelo receio crescente sobre a dívida pública dos EUA, explicando a crescente volatilidade dos mercados nas últimas sessões e levantando dúvidas sobre o “The bears make sense, the bulls make money”.

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