AFIA debate a agenda do setor: reindustrialização, IA e descarbonização competitiva
A Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA) considera que o futuro da indústria passa pela reindustrialização europeia, pelos desafios da introdução da Inteligência Artificial e pela descarbonização competitiva – ‘uma mensagem’ dirigida particularmente para os legisladores acantonados em Bruxelas.
Ao completar 60 anos de existência, a AFIA levou associados e representantes do Governo até Ílhavo num momento que considera marcado “pela pressão competitiva global, pela transição energética e pela aceleração tecnológica”. A servir de contexto, estava o futuro da indústria automóvel e ao papel do setor na nova agenda de competitividade europeia.
Um ponto prévio, na ótima da AFIA: Portugal tem capacidade industrial, talento e empresas exportadoras, mas precisa de condições de enquadramento que permitam transformar inovação em competitividade, investimento e presença reforçada nas cadeias de valor globais. José Couto, presidente da AFIA, enquadrou o momento atual como uma fase decisiva para a indústria europeia e para os fornecedores da indústria automóvel. “A Comissão Europeia percebeu que é tempo de deixar de ser reativa e de assumir o seu destino produtivo. O novo enquadramento europeu para a indústria representa uma oportunidade para reforçar a competitividade dos países europeus e criar condições para que a Europa concorra de forma mais eficaz à escala global”, afirmou na sessão comemorativa.
O presidente da AFIA sublinhou ainda que a resposta europeia deve passar por uma estratégia industrial mais robusta, capaz de valorizar o produto europeu e reforçar a autonomia produtiva. “O ‘Made in Europe’ significa reindustrialização e recuperação competitiva; para os fabricantes de componentes automóveis, pressupõe repensar estrategicamente as empresas e o chão de fábrica”, acrescentou.
A inteligência artificial foi um dos temas centrais da sessão, com a intervenção de Benjamim Vieira, Senior Partner da McKinsey & Company a destacar o impacto potencial da tecnologia na eficiência da cadeia produtiva. Segundo a consultora, a IA pode representar uma oportunidade relevante para acelerar ganhos de produtividade, em áreas como engenharia, programação de robôs, supply chain, manutenção e pós-venda. “Se as melhorias associadas à inteligência artificial forem adotadas, poderemos estar perante uma redução de custo de cerca de 3.000 a 3.500 euros por veículo, aproximadamente 25% do custo de um automóvel”, foi referido na sessão.
A dimensão energética e climática foi abordada por Joaquim Reis, Diretor da Fundação Repsol em Portugal, que defendeu uma transição descarbonizada, mas compatível com a segurança de abastecimento e com a competitividade industrial. “Não podemos falar de descarbonização isolada da competitividade; a descarbonização exige inclusão e não exclusão tecnológica”, foi sublinhado na intervenção.
Fernando Alexandre, ministro da Educação, Ciência e Inovação cumpria ‘a quota’ da Governo, tendo tido oportunidade de reforçar a necessidade de políticas públicas alinhadas com a realidade industrial. “Se queremos manter a competitividade precisamos de três coisas: políticas realistas, estáveis e coerentes; energia segura e acessível; e reindustrialização, atraindo investimento, mantendo cadeias de valor e apostando na produção local e nas diferentes tecnologias”, afirmou.
O ministro destacou ainda a importância de aproximar ciência, inovação e empresas, valorizando a qualificação e a participação da indústria nos instrumentos nacionais e europeus de financiamento. “Temos aqui uma enorme oportunidade para tornar Portugal mais competitivo e, na estratégia de reindustrialização da Europa, Portugal ter um papel importante. Portugal só será relevante se for relevante na Europa”, sublinhou.
Para a AFIA, o contexto atual exige uma abordagem construtiva e integrada, capaz de conciliar ambição climática, competitividade industrial, energia acessível, financiamento, estabilidade regulatória, qualificação e acesso a tecnologia. A AFIA continuará a promover a articulação entre empresas, instituições, centros de conhecimento e decisores, contribuindo para reforçar a capacidade industrial portuguesa e a integração do país nas cadeias de valor europeias e globais.
A sessão dos 60 anos da AFIA confirmou a relevância estratégica dos fabricantes de componentes da indústria automóvel para a economia portuguesa. O setor representa cerca de 5,1% do PIB, aproximadamente 15 mil milhões de euros de volume de negócios e cerca de 64 mil empregos diretos. As exportações do setor correspondem a cerca de 15,3% das exportações nacionais de bens transacionáveis. A AFIA congrega e representa um setor constituído por cerca de 360 empresas, que empregam diretamente 61.700 pessoas, aproximadamente 8,8% do emprego da indústria transformadora, 12,1% do valor acrescentado bruto da indústria transformadora e 14,8% do investimento total.
Share this content:



Publicar comentário