Ataques dos EUA ao sul do Irão voltam a colocar o acordo de paz em risco
Num contexto em que a incerteza é a única certeza e ao cabo de três dias em que as posições do Irão e dos Estados Unidos em torno de um possível acordo de paz pareciam ir coincidindo nos pontos gerais, eis que tudo voltou para trás, depois de os norte-americanos terem atacado o sul do Irão – o que sucede pela primeira vez desde que a Casa Branca decretou um cessar-fogo, a 8 de abril. O mundo recordou assim que o presidente Donald Trump tinha dito que o cessar-fogo acabaria quando ele próprio o decidisse – o que aconteceu esta terça-feira. Os iranianos queixaram de imediato disso mesmo – de quebra unilateral do cessar-fogo, e os preços do petróleo voltaram a aproximar-se barreira ‘psicológica’ dos 100 dólares (mais cerca de 4%) para o barril Brent. Pior ainda, Teerão usou a palavra ‘definitiva’ para caraterizar a quebra do cessar-fogo, o que apontam para ^novas dificuldades em termo de negociação do acordo, qualquer que ele seja.
Mesmo assim, a imprensa internacional afirma que o acordo de parecia, ainda esta terça-feira, continuar a ser alvo do já costumeiro ‘ping-pong’ entre os dois países, com os negociadores paquistaneses – e agora também os qataris – a servirem de ‘rede’.
O Ministério das Relações Exteriores do Irão denunciou o ataque – que visou lançadores de mísseis e tentativas de instalar novas minas no Estreito de Ormuz – como “um ato de má-fé” e “uma violação definitiva do cessar-fogo”, afirmando que não deixaria a agressão sem resposta. Do seu lado, os Estados Unidos disseram que a ação militar era puramente defensiva, na tentativa de impedir ataques às embarcações da Marinha que tentam manter o embargo à saída e entrada dos portos iranianos.
O exército iraniano não anunciou represálias específicas, sugerindo que não desejava que o ataque – que matou quatro soldados iranianos – interrompesse os delicados passos finais rumo a um acordo que pretende saudar como um dos grandes marcos na história de resistência do Irão. Num sinal de que Donald Trump reconhece que o conflito chegou a um ponto decisivo, o presidente convocou uma rara reunião de gabinete em Camp David, o retiro presidencial de Maryland, que o presidente usa muito raramente.
Entretanto, o presidente do parlamento iraniano e principal negociador, Mohammad Bagher Ghalibaf, permaneceu em Doha esta terça-feira, tentando chegar a um acordo sobre como retomar a posse de ativos de12 mil milhões de dólares que estão congelados no Qatar – dando mostras, segundo alguns observadores, de que o regime de Teerão está desesperado para encontrar fontes de financiamento da guerra.
Tanto em Washington como em Teerão, as pressões dos mais extremistas continuam a manifestar-se – no sentido de impedir que as partes em negociação cedam qualquer coisa acima do que o mínimo para parar a guerra. No caso de Teerão, a linha dura insiste em que o país não deve perder a oportunidade de se assenhorar do Estreito de Ormuz e ali montar uma portagem. Os falcões dos Estados Unidos não querem nenhuma concessão em termos do projeto nuclear iraniano. Já a linha dura de Israel quer, pura e simplesmente, acabar com aquilo que começou a 28 de fevereiro – levando os estados Unidos atrás: acabar com o regime, com o plano nuclear e com todo o complexo industrial que o acompanha e destruir todos os mísseis iranianos.
O líder supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, que sucedeu ao seu pai após este ter sido morto no primeiro dia da guerra, afirmou que a maré da história estava a favor do país e apelou à união entre os países muçulmanos, numa declaração que marcou o início do hajj, a peregrinação anual muçulmana a Meca. Khamenei, que não é visto em público desde a sua ascensão ao poder (em março), previu a eliminação do Estado de Israel até 2040. Não colocou uma data para os Estados Unidos, mas também disse que o país está próximo do fim.
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