Dez anos de ARCOlisboa: um momento de balanço
Em 2026 celebram-se dez anos desde a chegada de ARCOlisboa à capital. Isso permite fazer um balanço sobre aquilo que ARCOlisboa representou para as galerias portuguesas, para o ecossistema artístico nacional e para a própria cidade de Lisboa.
Recentemente, a EXHIBITIO — Associação Portuguesa de Galerias de Arte Contemporânea — promoveu um inquérito junto das galerias associadas precisamente com esse objetivo. Os resultados revelam uma realidade simultaneamente muito positiva e bastante complexa.
ARCOlisboa coincidiu com uma década de profunda transformação internacional da cidade. Entre 2016 e 2026, Lisboa consolidou-se como um dos polos europeus de turismo, tecnologia, criatividade e eventos globais. A chegada do Web Summit, o crescimento das conferências internacionais, a expansão da comunidade internacional residente e a afirmação da cidade enquanto destino cultural criaram um contexto particularmente favorável para o desenvolvimento de uma feira internacional de arte contemporânea.
Naturalmente, ARCOlisboa não foi a causa dessa transformação. Mas também seria difícil negar que a feira se tornou parte integrante dessa nova projeção internacional da cidade.
Talvez aqui resida um dos seus maiores méritos: a capacidade de funcionar simultaneamente como plataforma de entrada para galerias emergentes e como espaço de consolidação para galerias mais estabelecidas.
Além de ARCOlisboa, Portugal continua a ter relativamente poucas plataformas capazes de proporcionar, em tão poucos dias, um contacto tão intenso entre galerias, artistas, colecionadores, curadores, instituições e públicos internacionais.
ARCOlisboa também não pode ser analisada isoladamente das instituições culturais que ajudaram a consolidar Lisboa como um centro artístico internacional cada vez mais relevante. Instituições como o CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian, o MAC/CCB – Museu de Arte Contemporânea Centro Cultural de Belém, o MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, a Fundação EDP ou o recente MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins têm desempenhado um papel importante na visibilidade de artistas portugueses emergentes e de meia-carreira. Muitos desses artistas são representados por galerias associadas da EXHIBITIO e estiveram presentes em várias edições de ARCOlisboa.
O inquérito mostra também uma realidade mais exigente: o atual modelo internacional de feiras tornou-se economicamente muito pesado para as galerias. Custos de stand, transporte, logística, produção de obra, hotéis e viagens criam hoje uma pressão financeira muito superior àquela que existia há dez anos.
Mas, para além dos custos, é consensual que as feiras impõem hoje uma forte pressão operacional sobre equipas cada vez mais reduzidas.
Ainda assim, as galerias associadas da EXHIBITIO continuam a acreditar profundamente na relevância estratégica de ARCOlisboa. O verdadeiro desafio parece estar menos na existência das feiras e mais na sustentabilidade económica do modelo.
Talvez por isso as prioridades identificadas pelo inquérito sejam tão claras: reforçar o programa internacional de colecionadores, aumentar a capacidade internacional de comunicação da feira e encontrar formas de aliviar parte da pressão financeira associada à participação.
Dez anos depois, ARCOlisboa deixou de ser apenas uma feira. Tornou-se parte integrante da forma como Lisboa e Portugal passaram a posicionar-se internacionalmente enquanto território cultural contemporâneo.
E isso é um ativo que importa consolidar e fazer evoluir.
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