Portugal tem menos crianças e uma infância cada vez mais dentro da escola
A Europa tem hoje menos crianças, Portugal está entre os países com maior quebra e, ao mesmo tempo, onde as crianças passam mais horas na escola e na creche. O retrato é feito pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, através da Pordata, com dados que comparam a realidade nacional com a União Europeia e ajudam a desenhar um país mais envelhecido, mas com uma infância cada vez mais institucionalizada.
Na União Europeia existem 50,6 milhões de crianças. Em Portugal são 1 milhão e 58 mil. Mas o peso relativo da infância caiu de forma acentuada nas últimas décadas. Em 1975, Portugal tinha 22% da população com menos de 12 anos e era o segundo país da UE com mais crianças. Cinquenta anos depois, em 2025, essa proporção desceu para 9,8%, colocando o país como o quarto com menos crianças no espaço europeu.
A descida portuguesa de 12,1 pontos percentuais é a segunda maior entre os 22 países com dados históricos comparáveis, apenas atrás de Espanha, que registou uma quebra de 12,4 pp e passou de 22,2% para 9,8%. No extremo oposto, a Itália apresenta hoje a menor proporção de crianças (9,1%), posição que ocupa desde 2018, enquanto a Irlanda (14,2%), a Suécia (13,2%) e a França (12,8%) lideram em termos de juventude populacional.
Mais tempo na escola do que em casa?
Apesar de menos crianças, as que existem passam mais tempo em contexto educativo do que a média europeia. Em Portugal, os alunos dos 6 aos 11 anos passam 38 horas semanais em creches ou escolas — o valor mais elevado da União Europeia, acima da média de 31,5 horas.
Entre os 3 anos e a entrada na escolaridade obrigatória, a média é de 38,3 horas semanais, o que coloca o país na 4.ª posição europeia, também acima da média de 30,8 horas. Já as crianças com menos de 3 anos passam 36,7 horas por semana em creche, ocupando o 5.º lugar e superando a média europeia de 30,5 horas. Em termos globais, apenas a Hungria ultrapassa Portugal na carga horária total, enquanto Alemanha, Irlanda e Países Baixos são os únicos países onde nenhuma destas faixas ultrapassa as 30 horas semanais.
Esta realidade acompanha o crescimento da cobertura de creches. Em 2025, quase 58% das crianças até aos 3 anos estavam abrangidas por educação formal ou amas certificadas, acima da média da UE de 40,5%. A evolução desde 2013 é significativa: mais 22,1 pontos percentuais em Portugal, contra 13,5 pp na média europeia. A Dinamarca lidera com 67,2%, enquanto a Eslováquia não chega aos 2%.
No pré-escolar, Portugal aproxima-se da cobertura quase universal. Em 2024, 94,5% das crianças entre os 3 anos e a entrada na escola frequentavam educação pré-escolar, mais 5,8 pp do que em 2013, embora ainda ligeiramente abaixo da média europeia de 95%. França já atingiu os 100% e a Roménia apresenta o valor mais baixo, com 76,5%. Portugal já garante cobertura total aos 5 anos, mas ainda não chegou à universalidade aos 4 anos (98,5%) e aos 3 anos (88,9%).
No plano familiar, cerca de 793 mil agregados em Portugal têm pelo menos uma criança com menos de 12 anos, o equivalente a 17% do total. A maioria das crianças (69%) vive com um casal, 20% em famílias com mais de dois adultos e quase 11% em famílias monoparentais. Na UE, a estrutura é semelhante, embora com mais famílias monoparentais (12%) e menos crianças a viver com casal (73%).
Como são as famílias?
A dimensão da monoparentalidade varia bastante entre países. A Estónia destaca-se com apenas 51% das crianças a viver com casal, enquanto a Suécia chega aos 85%. Já Grécia e Eslováquia apresentam os valores mais baixos de monoparentalidade, com apenas 3%.
Outro dado relevante prende-se com a pobreza infantil. Em 2025, 157 mil crianças menores de 12 anos viviam em risco de pobreza em Portugal. Trata-se de uma redução expressiva face a 2015, com menos 103 mil crianças nessa situação. Na UE, são 9,4 milhões de crianças, menos 1,5 milhões do que há uma década.
O nível de escolaridade dos pais continua a ser determinante: em todos os países europeus, o risco de pobreza ou exclusão social varia sempre mais de 20 pontos percentuais entre famílias com baixa e alta escolaridade. A Hungria regista a maior disparidade, com mais de 77 pp. Em Portugal, essa diferença é menor do que na maioria dos países: 37,5 pp nas crianças com menos de 6 anos (41,1% quando os pais têm apenas ensino básico contra 5,4% quando têm ensino superior) e 30,5 pp nas crianças dos 6 aos 11 anos (37,2% contra 6,7%). Portugal está, aliás, entre os sete países com menores taxas de pobreza infantil em todos os níveis de escolaridade dos pais.
Quais os municípios em Portugal com mais crianças?
A nível territorial, a presença de crianças também encolheu. Nos 308 municípios portugueses, a proporção de crianças com menos de 10 anos varia entre 3,6% em Almeida e 11,1% na Ribeira Grande. Desde 1991, apenas quatro municípios registaram aumento desta proporção: Aljezur, Lisboa, Montijo e Vila Velha de Ródão. No extremo oposto, Câmara de Lobos, Ribeira Grande e Porto Moniz foram os que mais perderam crianças, com quebras entre 10 e 11 pontos percentuais.
Num país com menos crianças, mas onde elas passam mais tempo em instituições educativas e estão cada vez mais cobertas por redes formais de cuidado e ensino, o retrato aponta para uma transformação profunda: menos infância no total da população, mas mais infância dentro do sistema educativo e social.
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