Descarbonização do transporte marítimo entra na “fase das regras” e da execução prática
O debate sobre a descarbonização do transporte marítimo realizado no evento Portugal China Green Maritime Fuels & Descarbonisation 2026 que está a acontecer hoje no Templo da Poesia, em Oeiras deixou de ser uma questão de princípio para se tornar um problema de execução concreta, marcado por regulamentação, financiamento e construção de cadeias industriais globais.
A ideia foi sublinhada por Qian Zhimin, chairman, international Forum for Clean Energy (IFCE), onde defendeu que o foco atual já não é “se” a navegação deve descarbonizar, mas “como” o fazer em escala global dentro de limitações reais.
Segundo Zhimin o setor marítimo internacional — responsável por cerca de 3% das emissões globais de gases com efeito de estufa — entrou numa nova fase, em que metas climáticas já estão a ser convertidas em mecanismos vinculativos e regras de mercado.
Da ambição climática à regulação obrigatória
Qian Zhimin recordou que a Organização Marítima Internacional definiu metas de redução de emissões para o transporte marítimo, incluindo uma descida de pelo menos 20% até 2030 face aos níveis de 2008, com ambições progressivas de maior redução. Paralelamente, a União Europeia avançou com instrumentos como o FuelEU Maritime e o alargamento do Sistema de Comércio de Licenças de Emissão ao setor, transformando objetivos ambientais em obrigações económicas e regulatórias.
Na prática, isto significa que a descarbonização já não é apenas uma agenda política ou tecnológica, mas um fator direto de competitividade. “Os combustíveis verdes deixaram de ser uma questão técnica e passaram a ser uma variável de custo e de acesso ao mercado”, resumiu o responsável.
O desafio: uma cadeia global ainda desalinhada
Apesar do avanço regulatório, o setor enfrenta um problema estrutural: o desfasamento entre oferta, procura e infraestruturas. A expansão de combustíveis de baixo carbono — como hidrogénio verde, amoníaco verde e metanol verde — não está a ser acompanhada pela capacidade de distribuição portuária, certificação e integração logística.
Qian Zhimin alertou para o facto de a transição estar a entrar numa fase crítica entre experimentação e escala industrial. Estão a surgir corredores marítimos verdes e projetos-piloto em várias regiões do mundo, mas a falta de sistemas harmonizados de certificação e de mecanismos de financiamento continua a limitar a expansão.
O resultado, afirmou, é uma transição ainda fragmentada, em que a tecnologia existe, mas o sistema global não está preparado para a sua adoção em massa.
China aposta na cadeia completa dos combustíveis verdes
No centro da intervenção esteve também o papel da China na nova economia dos combustíveis verdes. O responsável destacou que o país está a combinar política industrial, expansão energética e projetos-piloto para construir uma cadeia integrada — da produção de eletricidade renovável à síntese de combustíveis marítimos.
Entre os exemplos referidos, destaca-se o projeto integrado de amoníaco e metanol a partir de energia eólica e solar em Dian Tou, que entrou em produção em 2025 e que, segundo os dados apresentados, permite reduzir centenas de milhares de toneladas de emissões de carbono por ano.
Foram igualmente mencionadas operações recentes de abastecimento de metanol verde em portos chineses, incluindo Dalian e Hong Kong, sinalizando, segundo Qian, a passagem de uma fase de demonstração para uma fase de operação comercial inicial.
“A China está a construir capacidade industrial de cadeia completa, desde a eletricidade renovável até aos combustíveis verdes”, afirmou.
Portugal como plataforma europeia de ligação
No plano europeu, Portugal foi destacado como um ator relevante na arquitetura emergente da transição energética marítima. O país, segundo Qian Zhimin, combina uma elevada penetração de energias renováveis com uma posição estratégica no Atlântico e uma forte integração no quadro regulatório da União Europeia.
Em 2025, Portugal terá atingido cerca de 68% de produção elétrica renovável, reforçando o seu papel como potencial plataforma para produção e exportação de combustíveis verdes, em especial hidrogénio e derivados.
Mais do que recursos energéticos, o país foi descrito como um “nó de ligação” entre sistemas regulatórios e cadeias logísticas, com capacidade para integrar produção, certificação e distribuição.
Cooperação China–Portugal como modelo replicável
A intervenção de Qian Zhimin sublinhou ainda a importância da cooperação sino-portuguesa como exemplo de um modelo de colaboração transregional. A lógica, explicou, passa por combinar as vantagens industriais e de engenharia da China com a força regulatória e de mercado da Europa.
Entre as propostas discutidas, destacam-se mecanismos de reconhecimento mútuo de certificações, harmonização de normas e criação de corredores marítimos verdes entre portos estratégicos, incluindo Lisboa e Macau, no quadro de iniciativas multilocais do fórum.
O objetivo, segundo o responsável, é reduzir custos institucionais e acelerar a viabilidade comercial dos combustíveis verdes, através de sistemas de verificação e contabilização de emissões mais consistentes.
Financiamento e regras como próximos obstáculos
Apesar do avanço tecnológico, Qian Zhimin alertou que o principal entrave à escala continua a ser financeiro e institucional. A ausência de sinais de preço estáveis, a incerteza regulatória e a falta de contratos de longo prazo dificultam o investimento privado.
Defendeu, por isso, a criação de mecanismos de partilha de risco, contratos de compra de longo prazo e instrumentos financeiros capazes de estabilizar a procura.
Uma transição que vai além do setor marítimo
Na parte final da intervenção, o responsável do IFCE deixou claro que a transição dos combustíveis verdes no transporte marítimo ultrapassa largamente o próprio setor. Está em causa, disse, uma reconfiguração mais ampla dos sistemas energéticos globais, das cadeias de abastecimento e das regras do comércio internacional.
“Nenhum país pode fazer esta transição sozinho. A cooperação é o único caminho viável”, afirmou.
Num momento em que a indústria marítima passa do compromisso à execução, a mensagem central de Qian Zhimin é clara: a corrida pela navegação verde já não é tecnológica — é institucional, financeira e geopolítica.
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