TAP entre público e privado
A reprivatização parcial da TAP acaba de entrar na reta final. O momento geopolítico conturbado poderia ter feito borregar as negociações, mas o ministro Pinto Luz mostrou mão firme. Quando tudo ardia no Médio Oriente e a inefável Comissão Europeia sugeria que os aviões ficassem em terra para a UE poupar combustível – num absurdo ataque de pânico –, o ministro manteve a rota e nem pestanejou quando a IAG, o candidato com maior liquidez, desistiu com o argumento de que só estaria interessado em ficar com a maioria do capital e não apenas com uma posição minoritária. Esteve bem o ministro: está naquele lugar para fazer e concretizar, não para arranjar justificações inconsequentes. TAP, novo aeroporto, travessias do Tejo, ferrovia e TGV, o bouquet de projetos que Pinto Luz lidera tem o perfume das oportunidades que enfeitiçam o dinheiro global. O crescimento da economia também acontece assim: antes de os projetos ganharem forma começam logo a produzir dinâmica e alguma riqueza – e dão protagonismo ao país.
Também é justo sublinhar que o momento da verdade está ainda para vir, será apenas no final de julho, quando a Lufthansa e a Air France/KLM entrarem na fase final das negociações. E, então, quem merece ganhar? Num negócio desta dimensão seria limitado olhar apenas para o encaixe financeiro, onde provavelmente as diferenças serão pouco significativas. É vital perceber: 1) como serão integradas as operações da TAP com o novo acionista e 2) como pode a companhia portuguesa ganhar escala e músculo em vez de ser diluída e depois deglutida uns anos mais à frente? Ora bem, de toda a informação que é pública, há uma que salta logo à vista. A Lufthansa é 100% privada desde 2022. Já a Air France/KLM pertence ao pantagruélico estado francês (27,98%) e holandês (9,13%), o que significa que a companhia tem, na verdade, controlo público – é estatal. O problema é, portanto, evidente: reprivatizar deve significar passar para operadores privados, caso contrário mais vale ficar nas mãos do Estado português.
Simplificando, um acionista público traz com ele um condimento perigoso: a sua primeira responsabilidade é com os seus cidadãos, não com os outros acionistas, não com os trabalhadores ou até clientes. Em última análise, o Estado responde perante quem vota nele – no caso, franceses e holandeses. Isto significa que os incentivos de gestão da Air France/KLM estão à partida enviesados. Se, um dia, a corda partir, ela partirá sempre para o lado da TAP. Vale a pena pensar e discutir o assunto.
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