De Nova Iorque para Lisboa à boleia da improvisação
Invocar Miles Davis para lembrar que as notas a tocar são aquelas que não estão na partitura é dizer uma lapalissada aos amantes de jazz. Mas não é uma invocação descabida quando se trata de lembrar que o Jazz em Agosto está de volta, entre 31 de julho e 9 de agosto, na Gulbenkian, em Lisboa. Um festival que continua na demanda do que está fora da partitura, que não se esconde atrás do óbvio. Antes celebra a criatividade e a diversidade deste género musical.
Em 2026, o festival mantém a estrutura da edição anterior, com catorze concertos que se dividem entre o Grande Auditório, o Anfiteatro ao Ar Livre e o Auditório 2. A natureza de cada espaço define o tipo de proposta: os concertos no Auditório 2 assumem um caráter mais experimental, os do Anfiteatro Ar Livre dirigem-se a um público mais alargado e o Grande Auditório acolhe apenas um concerto, que abre o Jazz em Agosto. Falamos do pianista alemão Joachim Kühn que, aos 82 anos, se apresenta num solo. Momento muito aguardado nesta 42ª edição. Pelo seu estilo, muito pessoal, e pelo facto de raramente dar concertos a solo, por sua própria imposição.
Já de janela aberta para o primeiro fim de semana do festival, apresentam-se o duo lisboeta de David Maranha e Rodrigo Amado, o quarteto nova-iorquino Canyon, com Sylvie Courvoisier, Lester St. Louis, Joe Morris e Jerome Deupree, a performance de voz e contrabaixo de Fred Moten e Brandon Lopez, e o quarteto Shardik, da constelação de John Zorn.
Entre segunda e sexta-feira, a diversidade estética continua a marcar presença. Destaque para o Lisbon Underground Music Ensemble (LUME), que interpreta novo repertório. Para o grupo pan-europeu The Sleep Of Reason Produces Monsters (TSORPM), onde brilham o trompetista italiano Gabriele Mitelli, a saxofonista dinamarquesa Mette Rasmussen, a turntablist britânica Mariam Rezaei e o baterista austríaco Lucas König, mestres da livre improvisação habitada pela manipulação eletrónica. E ainda a canadiana Anna Webber, uma das mais reconhecidas saxofonistas da atualidade, baseada em Nova Iorque. A também compositora apresenta-se em Lisboa com o projeto Shimmer Wince, em quinteto – Adam O’Farrill, trompete, Mariel Roberts, violoncelo, Elias Stemeseder, sintetizador, e Lesley Mo, bateria.
O segundo fim de semana traz o pianista britânico Pat Thomas em solo, o novo projeto percussivo de Tomas Fujiwara, Dream Up, o Chicago Underground Duo de Rob Mazurek e Chad Taylor, e, a encerrar o festival, o grupo SML da baixista elétrica australiana Anna Butterss, radicada em Los Angeles, numa proposta de eletrojazz que a organização situa na continuidade estética aberta por Miles Davis há mais de 50 anos.
A 42ª edição do Jazz em Agosto acontece nos 70 anos da Fundação Calouste Gulbenkian. Um número redondo que importa celebrar e que traz histórias dentro. Pretexto para falar nos primórdios do festival, que começou por ser uma série de concertos nas noites de quarta-feira.
Estávamos em 1984 e a programação era feita essencialmente de artistas locais. A cabeça de cartaz? Maria João. No ano seguinte, a fasquia dos organizadores subiu e arriscaram dar espaço a músicas mais arrojadas. Por lá passaram músicos como Sun Ra e a sua Arkestra, Dave Holland Quintet e Art Ensemble of Chicago e todo um rol de referências. As datas do festival foram sendo ajustadas até se fixar em agosto.
Com uma programação umas vezes mais audaz, outras mais contida, certo é que o Jazz em Agosto toma o pulso ao estado do mundo através do(s) estado(s) do jazz. Aqui, a música nunca é um acessório.
Jazz em Agosto | 31 julho a 9 agosto Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
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