Reino Unido: líderes europeus agradecem a Starmer e Farage exige eleições
Ursula von der Leyen , presidente da Comissão Europeia, agradeceu a Keir Starmer pelo seu trabalho com a União Europeia no fortalecimento da segurança comum e da frente de guerra na Ucrânia. Nas redes sociais, a líder da Comissão ‘despediu-se’ de Starmer, que se demitiu de primeiro-ministro britânico, dizendo que “muitos líderes levam anos para se tornarem o estadista em que você se tornou em apenas dois anos. A segurança europeia e ucraniana está mais forte graças a si. Obrigado, caro Keir”.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, elogiou o governante britânico e agradeceu o trabalho conjunto. Sob a liderança de Keir Starmer, a União Europeia e o Reino Unido conseguiram “virar uma nova página” nas suas relações após os anos difíceis do Brexit. Para Costa, Starmer garantiu que o bloco europeu vai continuar totalmente empenhado em manter a cooperação e o trabalho conjunto no mesmo espírito positivo. “Foi um prazer trabalhar contigo, como colega e como amigo. Obrigado, querido Keir”, escreveu nas redes sociais. Costa fez ainda um favor a Andy Burnham: colocou a hipótese de adiar a cimeira entre a União e o Reino Unido, marcada para 22 de julho, para dar tempo ao próximo primeiro-ministro para se preparar. “Certamente precisamos de adiar, estamos a reavaliar a possibilidade”. Mas acrescentou: “o meu desejo é que o sucessor dê continuidade a esse caminho para redefinir o nosso relacionamento com o Reino Unido”.
O presidente francês, Emmanuel Macron, reagiu de forma calorosa à demissão de Keir Starmer, destacando a forte ligação pessoal e a cooperação que mantiveram na Europa. Macron elogiou publicamente o trabalho de Starmer, com quem construiu uma aliança próxima em temas de segurança. Os dois líderes foram responsáveis pela criação da chamada ‘coligação dos disponíveis’ para ajudarem a Ucrânia.
O terceiro elemento desta coligação, o chanceler alemão Friedrich Merz, elogiou Keir Starmer como um “parceiro próximo e de confiança” logo após o anúncio da sua demissão. Através do seu porta-voz, o líder do governo alemão destacou o papel fundamental de Starmer na arena internacional e sublinhou o forte entendimento e o apoio conjunto prestado à Ucrânia face à invasão russa. O chanceler garantiu que a Alemanha espera manter a mesma cooperação estreita com o próximo primeiro-ministro do Reino Unido.
O ‘visado’, Volodymyr Zelensky, publicou uma mensagem de agradecimento nas redes sociais: “Keir, obrigado por toda a nossa cooperação, pelo teu apoio e pelas decisões conjuntas que ajudaram”. O líder ucraniano fez questão de enaltecer o papel que Starmer teve na defesa da Ucrânia ao longo dos seus dois anos no poder em Londres.
Recorde-se que, horas antes do anúncio oficial em Londres, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump escreveu: “Keir Starmer vai demitir-se de primeiro-ministro do Reino Unido”, sobre quem disse que “falhou redondamente em dois temas muito importantes: imigração e energia”. Sendo um crítico das políticas ambientais de Starmer, Trump aproveitou para exigir a reabertura da exploração de combustíveis fósseis, escrevendo em maiúsculas: “ABRAM O PETRÓLEO DO MAR DO NORTE!”. “Desejo-lhe o melhor”, concluiu.
Anthony Albanese , o primeiro-ministro australiano, emitiu uma declaração em que escrevia “Considero Keir Starmer um amigo e estou a pensar nele neste dia que deve ser muito difícil. Servir na vida pública é um enorme privilégio, mas a política também pode ser um negócio implacável”. “Estou grato pelas oportunidades que tivemos de trabalhar juntos para fortalecer a nossa parceria de defesa e segurança, o Aukus, apoiar o corajoso povo da Ucrânia e proteger as crianças dos danos que as redes sociais podem causar”.
Extremistas querem eleições
Longe de tecer qualquer elogio, o líder do partido da extrema-direita britânica, o Reform UK, exigiu eleições antecipadas. Nigel Farage afirmou que é “ridículo fingir que Andy Burnham tem qualquer tipo de mandato significativo para liderar o país”. Burnham é apontado como o mais provável futuro primeiro-ministro britânico em substituição de Keir Starmer.
O sistema britânico prevê que o partido que lidera o governo pode demitir o primeiro-ministro (mediante determinadas regras de proporcionalidade da oposição interna – e apontar o seu sucesso, desde que este seja deputado da Câmara dos Comuns (o que, no caso de Burnham, acontece há poucos dias. Assim, são dispensadas eleições antecipadas. O sistema foi profusamente usado nos últimos anos pelo Partido Conservador – que, como tal, não fez qualquer referência a querer eleições antecipadas por causa da saída de Starmer.
O líder do Reform UK, que ainda recupera da derrota do seu partido na eleição suplementar de Makerfield na semana passada, disse que Burnham é considerado primeiro-ministro “com base em menos de 25 mil votos”. Foi ali que Burnham conseguiu regressar à Câmara dos Comuns, condição obrigatória para desafiar Starmer. Burnham venceu com 54% dos votos (24.927 votos), derrotando o principal adversário, Robert Kenyon, do Reform UK, que teve 35% (15.696).
“Não tenho medo de Andy Burnham nem de nenhum dos outros fantoches do Partido Trabalhista”, escreveu Farage, que afirmou que o “partido único” formado por trabalhistas e conservadores tinha medo do partido reformista. Ele acrescentou: “é por isso que eles se unem em todas as eleições suplementares para tentar impedir-nos de vencer, é por isso que tentaram cancelar as eleições locais e é por isso que farão o possível para adiar as eleições gerais o máximo possível”.
“Andy Burnham tem bons motivos para nos temer. O Reform UK é o único que ouve os anseios da classe trabalhadora e oferece soluções, em vez de bajulação e paternalismo”, escreveu ainda. Se se esquecer de mencionar que, apesar de liderar as sondagens o ‘seu’ partido – que, tal como muitas das formações europeias de extrema-direita, é muito concentrado em si próprio – tem vindo a descer em termos de intenções de voto.
Curiosamente, Andy Burnham pediu eleições antecipadas quando o conservador Rishi Sunak assumiu o cargo de primeiro-ministro depois da desistência da sua antecessora, a também conservadora Liz Truss sem que para isso os conservadores se tivessem dado ao trabalho de auscultarem antecipadamente os britânicos. A imprensa britânica não deixou de o questionar sobre o assunto, mas o próximo primeiro-ministro preferiu rodear a questão.
Uma sondagem radical
Na semana passada, a Deltapoll publicou uma sondagem que confirmava quase todas as anteriores mais recentes: o Reform UK estava 18 pontos à frente do Partido Trabalhista em intenções de voto (35% contra 17%). Os conservadores seguiam logo atrás, com 16% e uma grande bloco de 32% dos eleitores não conseguia decidir-se sobre em quem votar.
Esta segunda-feira, outra empresa de sondagens, a JL Partners, divulgou um novo estudo que sugere que a substituição de Starmer por Burnham transformaria a vantagem de 18 pontos do Reform UK numa desvantagem de 2 pontos. Assim, segundo o novo estudo de opinião, os ‘novos’ trabalhistas sairiam vencedores com 31%, acima dos 29% do partido liderado por Nigel Farage. Os conservadores descem para os 13% – mas os indecisos seriam agora apenas 27%.
Quem é Andy Burnham?
Autarca da Grande Manchester de 2017 a 2026 e deputado 2001 a 2017 – voltou agora – ocupou diversos cargos de governo, o mais recente dos quais foi o de secretário de Estado da Saúde (2009-10), durante o governo de Gordon Brown, antes da vaga conservadora que esteve no poder mais de uma década. Pertence à ala moderada do Partido Trabalhista, mas identifica-se como um socialista. Nascido em 1970 em Aintree é licenciado em Literatura Inglesa pela Universidade de Cambridge. Consta do seu cirrículo que se filiou no partido aos 15 anos.
De 1998 a 2001, foi assessor especial do secretário de Cultura, Chris Smith, antes de, nas eleições gerais de 2001, ter sido eleito deputado por Leigh, na região metropolitana de Manchester. Durante os governos de Tony Blair e Gordon Brown, ocupou diversos cargos, incluindo secretário parlamentar particular, subsecretário de Estado parlamentar do Ministério do Interior; ministro de Estado da Saúde; secretário do Tesouro; e secretário da Cultura
Depois das eleições gerais de 2010, Burnham foi pela primeira vez candidato à liderança do Partido Trabalhista. Era um dos cinco candidatos e ficou em quarto lugar. Voltou em 2015 e dessa vez ficou em segundo lugar (eram quatro), apenas atrás de Jeremy Corbyn. De 2015 a 2016, Burnham foi Secretário do Interior Sombra sob a gestão de Corbyn.
Como autarca de Manchester, o seu trabalho foi reconhecido como genericamente positivo. Isto sem esquecer que um dos ‘chavões’ da sua campanha era a de resolver o problema dos sem-abrigo da cidade até 2020, plano que suspendeu em 2019 ao reconhecer que não o conseguiria cumprir.
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