EDP: Futuro no investimento em redes e na aposta nos Estados Unidos
A EDP – Energias de Portugal que hoje existe tem muito pouco a ver com a que nasceu há 50 anos – que se completam a 30 de junho – da fusão de 13 empresas regionais, entretanto nacionalizadas, em Portugal Continental. É uma empresa global, com quase 70% do negócio gerado lá fora. E a base são as energias renováveis, recentes, e não a hídrica e a térmica dos primeiros tempos.
Miguel Stilwell d’Andrade, CEO da maior empresa portuguesa, diz que a empresa é hoje o resultado de décadas de decisões difíceis e, muitas vezes, contraintuitivas. “É uma história de sucesso, feita de coragem, resiliência e excelência técnica”, afirma, sublinhando a ambição contínua do grupo em “fazer mais”. Ao longo do seu percurso, cerca de 48 mil pessoas passaram pela empresa, que, apesar das adversidades, se manteve “autónoma e a crescer”, apoiada numa forte capacidade técnica desenvolvida em Portugal e projetada para o exterior.
A internacionalização começou no Brasil, em 1996, com a compra da Escelsa, distribuidora de eletricidade do Espírito Santo, no processo de privatização do setor elétrico brasileiro. Depois seguiu-se Espanha em, 2001, através da aquisição da Hidrocantábrico, num passo ambicioso. Era, então, a quarta maior elétrica espanhola. Foi nesse contexto que surgiu um ativo inicialmente subvalorizado, mas que viria a estar na origem do negócio das energias eólicas.
O terceiro grande salto deu-se nos Estados Unidos, em 2007. A operação foi, na altura, considerada cara e pressionou o balanço, mas revelou-se estratégica. A América Norte representa 59% dos resultados antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (EBITDA, no acrónimo inglês) recorrente da EDP Renováveis (EDPR).
“O IPO [da EDPR] de 2007 permitiu-nos ultrapassar o subprime e, mais tarde, a troika”, recorda Miguel Stilwell d’Andrade.
Desde então, a EDP transformou profundamente o seu perfil. De uma empresa centrada, totalmente, na produção térmica e hídrica, passou a integrar gás, solar e baterias, num movimento que o CEO descreve como essencial. “Para não ficarmos agarrados ao que éramos”, diz. Atualmente, mais de 90% da produção é renovável. “Impressionante”, diz. E cerca de 80% dos equipamentos não têm origem chinesa.
Nos últimos seis anos, o grupo levantou 4,5 mil milhões de euros em capital e reforçou significativamente o balanço, depois de um período em que, durante a troika, este se encontrava sob forte pressão. “Hoje temos um balanço sólido”, garante, apesar de continuar a apontar, no mercado português, às “rendas excessivas”, contribuições extraordinárias e a uma “carga fiscal pesadíssima”.
Olhando para o futuro, Stilwell coloca a energia no centro das transformações económicas globais. “A energia está no centro do mundo. É uma questão de competitividade e de sustentabilidade”, afirma, defendendo que a transição energética representa uma externalidade positiva ao reforçar a independência e a eficiência económica. Portugal, acrescenta, é atualmente o país onde a procura elétrica mais cresce, impulsionada, entre outros fatores, pelos data centers, cujo impacto deverá intensificar-se nos próximos cinco anos.
Redes como prioridade
Esse crescimento levanta desafios. A EDP prevê investir cerca de três mil milhões de euros nas redes elétricas até ao final da década, elevando o investimento anual para 600 milhões de euros. Ainda assim, o CEO alerta para o risco de desequilíbrio entre oferta e procura. “A procura continua a aumentar e o ritmo de crescimento da geração tem sido inferior. É preciso tratar dos licenciamentos”, diz, admitindo o risco de rotura caso não haja resposta atempada. “Não faço ideia de como será 2076, mas sei que vamos precisar de energia. Vamos usar sol, água e vento — e precisamos de melhores redes. A forma mais segura é por cabos. Laser não serve.”
Sobre o recente blackout na Península Ibérica, Stilwell foi claro: “Não tem precedentes em Portugal. Não ter energia em toda a Península é impensável.” O gestor alertou que, caso a reposição não tivesse sido rápida, poderiam ter surgido problemas graves, incluindo em hospitais. Como resposta, a EDP vai reforçar a capacidade de arranque autónomo do sistema elétrico, aumentando para quatro as centrais com capacidade de “blackstart” — infraestruturas capazes de reiniciar a produção de energia sem depender da rede elétrica.
A expansão dos data centers levanta também questões de política energética. O CEO defende que estes investimentos são positivos, mas deixa um aviso: “Não pode haver socialização dos custos da energia.” Acrescenta que é necessário avaliar o valor acrescentado para a economia e garantir que as decisões são tomadas de forma estruturada. “Isto tem de ser pensado à cabeça.”
No plano internacional, a EDP mantém uma abordagem cautelosa. Os Estados Unidos continuam a ser uma aposta, grande. A empresa está focada no solar e nas baterias, enquanto adota prudência no eólico onshore devido ao enquadramento regulatório. No offshore, apesar de ter ganho leilões, enfrenta resistência da atual administração. Ainda assim, Stilwell sublinha a capacidade do grupo para operar em contextos complexos. “O facto de termos crescido nos EUA com um acionista chinês diz muito sobre a nossa capacidade”, afirmou, apontando também a expansão bem-sucedida em mercados exigentes como Austrália e Reino Unido.
Quanto à China, reconhece tensões, mas destaca a capacidade de navegação da empresa. Já sobre a eventual criação de um fundo soberano em Portugal, recusa comentar diretamente, lembrando apenas que “este é um mercado livre” e que “todos são bem-vindos”.
Futuro com rendibilidade
A celebrar 50 anos de vida, a EDP promoveu um evento eterno para olhar para o futuro e projetar os próximos 50 anos. Debalde, que a velocidade de mudança é demasiado grande. Está muito a acontecer. “Sabemos que vai ser necessário energia, haverá empresas e pessoas”, diz Miguel Stilwell. “Serão necessárias redes e os elementos – o vento, o sol – estarão aí”, acrescenta. “As renováveis vão crescer”, afiança.
A estratégia futura, no que se consegue projetar, passa por reforçar o investimento onde há melhores condições de rentabilidade, nomeadamente em Portugal e Espanha, sobretudo ao nível das redes. Na geração, a EDP exclui o carvão e mostra-se pouco interessada no nuclear. “Não tenho nada contra, mas é uma tecnologia cara e exige garantias do Estado”, diz, questionando a viabilidade de licenciar uma central nuclear em Portugal.
O foco continuará, assim, nas renováveis: mais eólica, solar e baterias, complementadas pelo gás. A bombagem, as baterias naturais que criadas com o reaproveitamento de águas nas barragens é uma aposta. “Faz imenso sentido”, diz.
A hídrica poderá avançar se houver concursos, embora Stilwell reconheça os entraves: “Os licenciamentos demoram e há muita imprevisibilidade. São investimentos mais pesados e menos competitivos”, aponta. A empresa terá de fazer contas.
Com forte aposta nas redes e na inovação, o CEO vê uma EDP que se posiciona como uma das empresas portuguesas com maior relevância internacional, preparada para responder ao aumento estrutural da procura energética. E, voltando ao início, mantém a matriz portuguesa, a presença no mercado que lhe deu origem e de onde não arreda pé. Nisso, mantém-se igual.
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