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Setor dos lacticínios enfrenta nova era de incerteza, mas vê na proteína e na inovação oportunidade estratégica

Setor dos lacticínios enfrenta nova era de incerteza, mas vê na proteína e na inovação oportunidade estratégica

O setor dos lacticínios em Portugal entra numa fase de transformação profunda, pressionado por custos crescentes, instabilidade geopolítica e exigências regulatórias mais apertadas, mas também impulsionado por novas oportunidades de consumo e inovação. A reflexão será aprofundada no Enlácteos 2026, o principal encontro nacional da fileira, promovido pela Associação Nacional dos Industriais de Laticínios (ANIL), que se realiza hoje, dia 26 de junho.
“É fundamental entendermos como as mudanças globais afetam a nossa indústria e como podemos adaptar-nos para continuar a prosperar”, sublinha a diretora-geral da ANIL, Maria Cândida Marramaque. “Temos de valorizar os nossos produtos, investir em inovação e promover uma indústria sustentável e autêntica.”
Os números ajudam a dimensionar o peso do setor. Em Portugal, de acordo com o INE existem 315 empresas dedicadas ao fabrico de produtos lácteos, responsáveis por um volume de negócios de 2.172 milhões de euros — cerca de 10% da indústria alimentar — e por 6.800 postos de trabalho, o equivalente a 7% do emprego do setor.
A produção também mostra sinais positivos: em 2025, atingiu 1.900 toneladas de leite, mais 1,7% face a 2024. Os dados preliminares apontam ainda para um aumento da recolha anual de leite em 1,1% e um crescimento de 0,8% na transformação industrial. Destacam-se os leites acidificados, com 135 mil toneladas (+7,7%), a nata para consumo (+4,5%) e o queijo de vaca, que ultrapassou as 68 mil toneladas (+4,9%).
Apesar desta evolução, persistem fragilidades estruturais. “Continua a verificar-se uma forte dependência das importações, sobretudo de queijo e leites fermentados”, alerta Maria Cândida Marramaque, lembrando que este desequilíbrio contribuiu para um défice da balança comercial superior a 470 milhões de euros.
Num setor onde cada litro de leite resulta de uma cadeia complexa — que envolve energia, alimentação e bem-estar animal, água, tecnologia, processamento industrial, embalagem, logística, regulamentação e comércio — a pressão sobre custos e margens é crescente. Mesmo que produzido localmente, está profundamente ligado a cadeias de abastecimento internacionais. “Os custos de contexto e o cumprimento da crescente regulamentação, aliados às incertezas geopolíticas, são motores de imprevisibilidade”, afirma a responsável.
Os desafios e as oportunidades para o setor lácteo centram-se na necessidade de considerar o setor como estratégico em termos de segurança alimentar, bem como em fortalecer a competitividade e a criação de valor da indústria de laticínios, sem nunca deixar de considerar os interesses dos consumidores.
Perante este cenário, a mudança de paradigma é inevitável. “Há a necessidade de passar da eficiência à resiliência, da disponibilidade à importância estratégica, da nutrição à confiança do consumidor”, defende Maria Cândida Marramaque.
O Enlácteos 2026 surge precisamente como palco para esta reflexão. O encontro reúne especialistas nacionais e internacionais para discutir geopolítica, mercados, tendências de consumo e o impacto da inteligência artificial na indústria. A intervenção de Miguel Monjardino traz uma leitura sobre as dinâmicas geoeconómicas globais, enquanto painéis com analistas de mercado abordam a evolução das preferências dos consumidores.
Na vertente da inovação, o destaque vai para o papel crescente da tecnologia e da inteligência artificial na otimização de processos e na tomada de decisão. “O setor terá de ser simultaneamente competitivo, sustentável, seguro, rastreável e acessível — um equilíbrio cada vez mais exigente”, nota a diretora-geral da ANIL.
Entre os sinais positivos, destaca-se o crescente interesse dos consumidores por alimentos ricos em proteína. “O leite e os produtos lácteos são uma fonte natural de proteína de alta qualidade, o que representa uma oportunidade clara para o setor”, afirma Maria Cândida Marramaque.
O encontro marca ainda o arranque das comemorações dos 70 anos da ANIL, num momento que é simultaneamente de celebração e de redefinição estratégica. “Mais do que assinalar o passado, trata-se de reforçar o compromisso com o futuro e com os desafios que as empresas enfrentam”, conclui.
Num contexto global volátil, a indústria dos lacticínios portuguesa procura assim afirmar-se como um setor estratégico para a segurança alimentar, apostando na criação de valor, na inovação e na confiança do consumidor como pilares para o crescimento sustentável.

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