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Manuel Fernandes: “Em dimensão, Cristiano Ronaldo é maior que Portugal”

Manuel Fernandes: “Em dimensão, Cristiano Ronaldo é maior que Portugal”

Há vários locais de Lisboa que teimam em preservar uma essência intemporal. O Madeirense é um deles, um dos clássicos de Lisboa que não vai em modas. O restaurante, conhecido quase por todos pela sua localização, num canto do Amoreiras desde que o centro comercial abriu, em 1985, é assiduamente frequentado por políticos, jornalistas, artistas e gente do futebol. O segredo de tantos anos de sucesso é fácil de desvendar. Manuel Fernandes, o madeirense natural de Ponta do Sol, vila a 20 quilómetros do Funchal, que, aos 17 anos, ganhou 35 contos no Totobola, uma fortuna na altura, veio para Lisboa saber se a sorte o continuaria a bafejar.
Os 47 anos do restaurante que se tornou um clássico de Lisboa respondem por si. Ao entrar n’O Madeirense, passava pouco das 2h30 da tarde, a única hora disponível para a nossa conversa, Manuel Fernandes pede-me para aguardar um pouco nos sofás junto ao bar apinhado de bebidas e refrigerantes da Madeira. Logo à entrada do restaurante é impossível não olhar para uma camisola da seleção portuguesa do madeirense mais famoso do mundo, Cristiano Ronaldo. Enquadrada no alto de uma parede, logo ao lado de outra do Marítimo, dos anos 1990 com o patrocínio do restaurante, e por debaixo uma coleção de retratos do empresário com figuras públicas: Luís Montenegro, Miguel Albuquerque, Passos Coelho, um assíduo frequentador, sublinha o empresário, e Luís Figo, com 17 anos. Ou outra, com Rui Nabeiro, parceiro de negócios durante muitos anos, como faz questão de acrescentar. E, no meio de outras, uma que se destaca pelo tamanho, com Marcelo Rebelo de Sousa, ambos de máscara, na altura da ressaca da covid-19. Os últimos anos da história do país estão pespegados naquela parede.
O gosto dos políticos
Com o restaurante mais vazio e o serviço de almoço despachado, Manuel Fernandes convida a sentarmo-nos nuns sofás mais recatados perto do mesmo bar. A primeira coisa que faz é tirar um cigarro, o primeiro depois de três horas como mestre das boas-vindas a receber os clientes, e que tanto prazer lhe dá, confessa. É a falar da classe política, que todos os dias se senta à mesa d’O Madeirense, que se lembra imediatamente de várias histórias, como aquela em que disse a António José Seguro, ainda no início da campanha que levou o socialista para o Palácio de Belém, que ia ser Presidente da República. Rapidamente muda o semblante e recorda um dos seus clientes mais frequentes, o também socialista Almeida Santos, que almoçava quase todos os dias n’O Madeirense e que por isso tinha a “sua” mesa sempre reservada. Ali almoçou precisamente no dia da sua morte, 18 de janeiro de 2016.
Pergunto se existe uma razão para que os políticos de várias gerações continuem a preferir o seu restaurante. Manuel Fernandes explica que é pela proximidade dos muitos escritórios de advogados em redor do Amoreiras. O estacionamento à porta fechada e a privacidade do restaurante fazem o resto. Insisto noutra resposta e acaba por dizer que também é pela confiança que os clientes depositam em si. “Consigo perceber quando alguém vem ter reuniões de trabalho ou quer ter conversas mais privadas, sei em que mesas os devo sentar. E temos o cuidado de ser rápidos a servir para não interromper as conversas”. Além disso, a comida também conta, não se esquece de dizer.
Antes de abrir no Amoreiras, O Madeirense, inaugurado em 1979, tinha um espaço mais pequeno em Sete Rios, e desde logo começou a ser muito frequentado por políticos, jogadores do Sporting e do Benfica e gente da televisão. Rapidamente, lembra uma história que o anima, “um dia, num sábado, vim da Madeira depois de um jogo do Marítimo e estavam no restaurante o Joaquim Letria e outras figuras da televisão. Como tinha confiança deixei-os ficar no restaurante no final da noite e vim-me embora, mas estava tão cansado que, sem querer, tranquei a porta ao sair e eles tiveram que dormir lá”, recorda divertido. “Estou a falar dos tempos em que não existiam telemóveis e ninguém tinha o meu número de telefone de casa… Lembro-me de abrir a porta na manhã seguinte e vê-los a acordar.”
Sporting e Marítimo, as duas paixões
A oportunidade de levar o restaurante para o centro comercial das Amoreiras, o maior shopping do país da altura, em 1985, casou com a procura de um espaço maior do que os 40 lugares que tinha na Calçada Palma de Baixo. Inaugurou o espaço no Amoreiras – com a presença de Alberto João Jardim –, só com um piso, e poucos anos depois. “Quando achámos que tínhamos público”, acrescentou um segundo.
Para além de “representar” a gastronomia madeirense em Lisboa, Manuel Fernandes foi também a pessoa do Marítimo no continente. Durante anos esteve ligado o futebol profissional, o que o levava à sua Madeira de 15 em 15 dias. A ligação profissional terminou quando o clube mudou de direção e a sua companheira, Paula, começou a ficar doente. Mas continua atento ao clube. “Sofri bastante quando desceu à segunda divisão [2023], mas, por um lado, até foi bom. Trouxe uma onda de grande apoio para ajudar o clube a voltar à primeira Liga este ano.”
Mas há outro clube de futebol que disputa, e até lidera, as preferências de Manuel Fernandes. “Torço sempre pelo Sporting, menos no tempo em que trabalhava para o Marítimo, claro”, diz com ar sério, enquanto puxa do segundo cigarro. A ligação ao clube de Alvalade dá-se já em Lisboa. “Quando abri o restaurante, a minha ex-mulher trabalhava com a mulher de um vice-presidente do Sporting e comecei a trabalhar muito com o clube. Fiz publicidade nos bancos do estádio, tive camarote, entre outras coisas, e começou a haver uma relação. Além disso, os jogadores do Sporting vinham muitas vezes almoçar ao meu restaurante depois dos treinos”.
Manuel Fernandes, hoje com 74 anos, começou a trabalhar aos dez. “Mal acabei de fazer a primeira classe fui para trás de um balcão”. A sorte deu uma ajuda, com o tal dinheiro ganho no Totobola pediu licença à mãe de uma rapariga pelo qual estava apaixonado, e vieram os dois para Lisboa, sem conhecer ninguém e em busca da tal sorte.
Por Lisboa, e depois por trabalhar em vários restaurantes, vai parar ao Convés, gerido pelo empresário Vasco Morgado, um dos locais mais frequentados na altura pelos artistas na ribalta. “Conheci-os a todos”, faz questão de dizer. Por essa altura, farto de ganhar pouco, decide ir tentar a vida na Venezuela, como tantos outros da sua terra. Contudo, Vasco Morgado troca-lhe as voltas ao fazer-lhe a proposta para explorar um bar do teatro Villaret, onde conheceu tantas outras figuras da cultura portuguesa.
E, tal como as cerejas, conta logo outra história. “Surgiu a hipótese de alugar um restaurante na zona do Rego, onde testei a gastronomia da Madeira”, recorda. Dias depois, o jornalista Fernando Assis Pacheco escreve uma página no “Diário de Lisboa” a elogiar os pratos, entre os quais o peixe-espada. Aí, Manuel Fernandes teve a confirmação do caminho a seguir. “Depois disso troquei o bar do Villaret pelo pequeno restaurante na Calçada Palma de Baixo, onde abri com comida madeirense”. “Mas foi muito duro”, recorda. Já com Paula Fernandes como companheira, trabalhavam de manhã à noite, “íamos à praça de manhã, servíamos no restaurante, mas depois ainda tínhamos energia para ir beber uns copos ao Xafarix. A parceria continua, “ainda hoje. Doente em casa, gere os pagamentos e ajuda no negócio.”
Para além d’OMadeirense, Manuel Fernandes e Paula têm outro espaço no Amoreiras e outro em Oeiras, os cafés “Português”, e ainda o restaurante “Casa Madeirense”, no Almada Fórum. Atualmente. trabalham na empresa 65 pessoas, e já foram 200 quando Fernandes tinha outros negócios. Agora já não se quer meter em mais nenhum. “Quero segurar este e conviver com as pessoas que aqui vêm. Costumo dizer que recebo os meus amigos e ainda me pagam”.
O dia de Manuel Fernandes começa no restaurante, claro, onde vai todos os dias tomar o pequeno-almoço pelas 9h e aproveita para ler jornais. Depois almoça com a equipa, “para que ao meio-dia estejamos todos a sorrir para os clientes”. “Esta é a minha casa, basicamente só vou dormir à outra. É um trabalho maravilhoso… para quem gosta”, sublinha.
Na véspera de um jogo da seleção (decorreu esta madrugada, contra a Croácia), Cristiano Ronaldo vem à conversa. “É o maior”, diz antes de lhe fazer qualquer pergunta. E acrescenta que “em dimensão, o Cristiano Ronaldo é maior que Portugal”. Por isso mesmo acha muito injustas as críticas que fazem atualmente ao jogador veterano. “Percebo um pouco de futebol, e mesmo que ele não marque golos leva sempre vários jogadores atrás de si deixando espaço para outros marcarem. Há de ser um ídolo sempre”, sublinha. E remata com mais uma história. “O Ronaldo foi contratado pelo Manchester United, mas o combinado era ficar a jogar mais um ano no Sporting. Mas no jogo de inauguração do novo estádio de Alvalade, o Alex Ferguson viu a exibição do Cristiano e disse: ´vai já para Manchester!´. Estive por dentro disso na altura, sou compadre do Carlos Queirós, que estava no Manchester”. Ainda sobre futebol explica que tem hoje uma visão menos apaixonada. “Quando se anda muito tempo por lá, as coisas tornam-se diferentes, perde-se um pouco a paixão, é-se mais objetivo e percebemos aquilo que o público não entende. Mas quero sempre que o Sporting ganhe”, remata.
Enquanto acende o terceiro cigarro, e justifica o vício dizendo que não trava o fumo, pergunto sobre a “sua” Madeira. “Recebemos como ninguém”, afirma logo, e confessa que já esteve mais ligado à ilha na altura em que era dirigente do Marítimo o seu amigo Alberto João Jardim, então Presidente da Região Autónoma. “Agora estou muito concentrado na minha Madeira aqui de Lisboa”.
As histórias são mais do que muitas, tantas que nem demos pelas quase duas horas de conversa. A vontade de almoçar passou e acabámos este encontro a beber uma poncha de maracujá e cafés. Enquanto nos despedimos com a promessa de regressar para comer as famosas espetadas madeirenses, o prato mais pedido d’O Madeirense, relembro que daqui a três anos o restaurante completará 50 anos. Manuel Fernandes diz que já está a pensar a festa. “Quero comemorar o meio século”.

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