Carros cada vez maiores, cidades cada vez menores: o paradoxo que está a engolir a europa
Há uma transformação silenciosa — mas profundamente impactante — a acontecer nas ruas europeias. Não se trata de mais carros, mas de carros maiores. Centímetro a centímetro, ano após ano, os automóveis estão a crescer e, com eles, cresce também um problema que já não pode ser ignorado. Como descreve o estudo Ever-bigger? Car size at a crossroads, publicado pela Transport & Environment e pela Clean Cities Campaign, os veículos novos aumentam em média 1,2 centímetros por ano em comprimento e cerca de 0,5 centímetros em altura e largura. À primeira vista, parece um detalhe técnico. Na prática, é uma tendência acumulativa com impactos profundos no espaço urbano, na segurança e na sustentabilidade.
O chamado carspreading está a redesenhar as cidades sem que muitas vezes nos apercebamos. Até 2040, entre 8,5% e 14% dos lugares de estacionamento nas cidades europeias poderão desaparecer simplesmente porque os carros deixarão de caber nos espaços existentes. Este efeito já é visível no quotidiano urbano, onde estacionar se torna progressivamente mais difícil e onde os veículos invadem passeios e ciclovias, comprimindo o espaço público disponível.
Mas o impacto mais preocupante é humano. O mesmo estudo sublinha que condutores de veículos com capots mais elevados, como muitos SUVs, podem não conseguir ver uma criança de até nove anos à sua frente. Este dado ajuda a explicar uma projeção alarmante do estudo: se a tendência atual continuar, poderão ocorrer mais 400 mortes por ano nas estradas europeias até 2040, sobretudo entre peões, ciclistas e outros utilizadores vulneráveis. A segurança dos ocupantes dos veículos melhora, mas à custa de quem está fora deles, criando um desequilíbrio que desafia diretamente metas como a Visão Zero da União Europeia.
A dimensão energética acrescenta outra camada de preocupação. Carros maiores são, inevitavelmente, mais exigentes em termos de energia. “Até 2040, a tendência atual exigiria 22,5 TWh adicionais por ano, o equivalente a mais 1.500 turbinas eólicas terrestres (em comparação com o dimensionamento correto), aumentando as contas anuais de energia das residências em € 7 bilhões”, diz o estudo.
Mesmo com a eletrificação em curso, o estudo estima que esta tendência poderá implicar o consumo adicional de cerca de 100 milhões de barris de petróleo importado até 2040. Num contexto de instabilidade geopolítica e dependência energética europeia, este número representa não apenas um custo económico significativo, mas também um risco estratégico.
E Portugal?
Em Portugal, esta tendência ganha contornos particularmente críticos, porque o crescimento dos automóveis colide diretamente com a realidade física das cidades. Os lugares de estacionamento, muitas vezes com cerca de 2,30 metros de largura e pensados há décadas para veículos bem mais pequenos, tornaram-se apertados para carros que hoje se aproximam dos dois metros de largura. O resultado é visível no dia a dia: portas que mal abrem, manobras cada vez mais difíceis e uma ocupação desproporcionada do espaço público.
Ao contrário de algumas cidades europeias, onde já se discutem taxas ajustadas ao tamanho dos veículos, em Portugal continua a não existir um desincentivo claro à compra de carros maiores. Isto cria um desalinhamento evidente entre o parque automóvel e a infraestrutura disponível, transformando o país num exemplo claro de como o aumento silencioso das dimensões dos carros pode amplificar problemas urbanos já existentes.
O estudo não se limita a diagnosticar o problema e aponta caminhos concretos, desde a inclusão obrigatória das dimensões dos veículos nos certificados de matrícula até à regulação da altura dos capots e à aplicação de políticas fiscais que considerem o tamanho e o peso dos automóveis. São propostas que não eliminam a liberdade de escolha, mas que procuram tornar mais visíveis os custos coletivos dessas escolhas.
No fundo, o crescimento dos carros deixou de ser apenas uma questão de design ou preferência de mercado. Tornou-se uma questão de cidade, de უსაფრთხurança e de futuro coletivo. E a pergunta impõe-se com cada vez mais urgência: até que ponto estamos dispostos a aceitar carros maiores, se isso significar cidades cada vez menores.
Para quem quiser explorar a análise completa, o estudo pode ser consultado aqui:
Ever-bigger? Car size at a crossroads (Transport & Environment)
Share this content:



Publicar comentário