O faroeste americano e as infantilidades lusas
É cada vez mais difícil não suspeitar que o caos global que vivemos não serve também o propósito de enriquecer Donald Trump, o especulador mor. O inquilino da Casa Branca talvez não faça um segundo mandato, mas está a tirar todo o proveito que pode do impacto que tem no mundo. O recomeço da guerra no Irão mexeu logo com o preço do petróleo (mais 10%) – quem soubesse que, em poucos minutos, haveria esta valorização faturou como se não houvesse amanhã. No negócio das criptomoedas não há nada a imaginar ou presumir. No World Liberty Financial, projeto cripto fundado pelo presidente com os filhos, Trump ganhou quase 800 milhões de dólares. Na meme coin $TRUMP somou mais 635 milhões em vendas. Na Stablecoin USD1 registou outros 196 milhões. Nos campos de golfe e resorts, deu-se o mesmo milagre da multiplicação dos pães a partir da Casa Branca — mais de 500 milhões em receita, uma subida de 15% face ao ano anterior. Nos acordos de licenciamento de marca, novo jackpot: faturou 52 milhões.
Como se vê, o crescimento do património do Donald é expressivo e chocante: em 2024 Trump declarara mais de 600 milhões de dólares em rendimento total; um ano depois, ultrapassou os 2 mil milhões. Políticos assim não os há nas democracias ocidentais: seriam afastados, julgados e condenados. Na América de hoje já não é assim, o país regressou ao faroeste, embora seja justo referir que Trump apenas aprofundou o que outros políticos dos EUA, embora não presidentes, fazem sem embaraço. É o caso da democrata Nancy Pelosi, uma maravilhosa investidora com faro para trufas empresariais. A principal novidade no património de Trump é claramente o peso da cripto, setor quase inexistente na sua declaração de 2024 e que passou a maior fonte (declarada) de rendimento. Serão as políticas favoráveis da sua administração em relação aos ativos digitais uma das forças motrizes deste súbito enriquecimento? Não sobram dúvidas de que há um flagrante conflito de interesses que, incrivelmente, tem zero consequências.
No meio destas grandes negociatas, as ações da Galp, Jerónimo Martins, Nestlé e Navigator – empresas não-financeiras – compradas por Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, apresentam-se apenas como uma péssima decisão pessoal, um grosseiro e infantil disparate, mas não a utilização de informação privilegiada. O governador assumiu o erro e doou logo as mais-valias – 3.361 euros. O assunto merece, portanto, ficar por aqui, apesar dos danos reputacionais. Tudo o resto que se diga é guerrilha partidária entre PS e PSD.
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