De novo o foguete e (ainda) a pena
Após a reabertura do estreito de Ormuz não chegou o alívio esperado pelas empresas e famílias. A descida do preço dos combustíveis não chegou às bombas tão depressa como os aumentos que sentiram no bolso após o início da guerra. Com o fim do cessar-fogo entre os EUA e o Irão, permanece a pressão e incerteza. Mas com uma certeza: a nova escalada militar no Golfo Pérsico levará a que os preços cresçam novamente como um foguete e desçam como uma pena, como tem acontecido depois de alcançado o acordo de paz.
Por não estarem a descer ao mesmo ritmo a que subiram, a ministra do Ambiente pediu a análise aprofundada dos preços dos combustíveis ao regulador da energia, a ERSE, e à ENSE.
Maria da Graça Carvalho quer perceber exatamente porque é que quando o preço do crude diminuiu nos mercados internacionais, demora mais a chegar ao bolso de cada um. Os consumidores também anseiam respostas. Urge a clarificação e a transparência necessária sobre a formação dos preços dos combustíveis.
Tem havido explicações para todos os gostos face à resistência a uma rápida descida do preço dos combustíveis. Alguns especialistas do setor defendem que os preços na bomba são baseados em expectativas futuras. Outros dizem que o combustível nos tanques já foi pago antes de o consumidor abastecer o seu carro. Ou que têm uma ideia aproximada sobre a procura e o preço futuros e geralmente mantêm o preço mais alto até que o combustível nos tanques diminua de preço novamente.
Já as petrolíferas recusam irregularidade nos preços dos combustíveis e consideram que a descida mais lenta que as subidas é a perceção errada. Afinal, dizem, estamos todos a olhar para a cotação do Crude/Brent. Não é este barril, é outro. Apontam para o preço dos produtos refinados, cuja redução de preços na cadeia de valor é mais lenta que as reduções de preços da matéria-prima.
Os responsáveis do setor parecem, no entanto, esquecer que aos consumidores não é permitida qualquer margem temporal. Quando os preços sobem, as famílias não têm tempo para ajustar comportamentos e as empresas veem os custos operacionais aumentar sem margem de resposta. Sem falar do lado do Governo, cuja resposta tem sido predominantemente reativa, com medidas pontuais, ajustamentos temporários e intervenções de curto prazo. Embora relevantes, não conseguiram acompanhar a velocidade nem a dimensão dos aumentos verificados.
É cada vez mais evidente o problema recorrente da assimetria na formação dos preços. Os combustíveis sobem quase de imediato quando há tensão internacional, mas descem lentamente quando essa pressão diminui.
Há muitas respostas conhecidas e complexas. A culpa é dos contratos de fornecimento, custos de refinação, logística e mecanismos de mercado, dizem. Estas justificações tornam-se insuficientes e mesmo incompreensíveis quando confrontadas com a evidência de aumentos rápidos e descidas tardias.
A resposta mais sucinta talvez seja a ganância. O preço do crude desce e os consumidores ficam a aguardar que o litro do combustível desça ao mesmo ritmo. A espera poderá ser mais prolongada com o fim do cessar-fogo no Médio Oriente quando os efeitos positivos do acordo de paz ainda tardavam a fazer-se sentir no bolso das empresas e dos consumidores. É o tal efeito foguete e pena na subida e descida do preço dos combustíveis. Sobem à velocidade da guerra, mas descem ao ritmo penoso e lento que a paciência exige.
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