Um gigante da banca francesa na Lusitânia
O empresário Julien Letartre, de 52 anos e natural de Lille, já trouxe para Lisboa o pão do chef pasteleiro Éric Kayser, é dono de quatro pâtisseries (pastelarias) da marca Maison Luce em Lisboa e conselheiro do comércio exterior francês. Hoje em dia, acompanha com especial interesse a entrada do Banque Populaire Caisse d`Epargne (BPCE) na banca de retalho em Portugal, onde já atua no crédito ao consumo e banca de investimento através do Banco Primus, da Oney e da Natixis. “É um banco que tem uma enorme capacidade de inovação e vai trazer novos serviços para o mercado português. Uma das primeiras preocupações das empresas que pretendem expandir-se é encontrarem um banco de confiança. E, se puderem contar com o banco com o qual já trabalham em França, isso facilita muito o processo”, diz Julien Letartre, empresário e conselheiro do comércio francês, ao Jornal Económico.
Através da aquisição do Novobanco por 6,7 mil milhões de euros, o BPCE, o segundo maior banco francês e o quarto maior da zona euro em termos de capital, chega com o objetivo claro de expandir o apoio às PME e grandes empresas. “É um sinal de confiança na economia portuguesa”, acrescenta o dono da Maison Luce. Em Portugal, o BPCE já empregava mais de três mil pessoas no Banco Primus, na Oney e na Natixis. Agora, após a aquisição do Novobanco, serão cerca de oito mil trabalhadores em Portugal.
“Este investimento desempenha um papel determinante na dinamização do ecossistema tecnológico nacional, na aceleração da transformação digital do setor e no reforço da competitividade da economia portuguesa. Além de aumentar a oferta de soluções de financiamento, pode facilitar projetos de investimento, internacionalização e inovação. Também estimula a concorrência, promove a adoção de novas tecnologias e reforça a atratividade de Portugal como destino para investimento estrangeiro e para o desenvolvimento de serviços de elevado valor acrescentado”, explica Ulugbek Suyumov, Head of Financial Services da Capgemini Portugal ao Jornal Económico.
A França é o segundo maior investidor estrangeiro em Portugal, o terceiro destino das exportações portuguesas e o terceiro fornecedor comercial do país. Com cerca de 18,8 mil milhões de euros em investimento direto estrangeiro, mais de 1.700 filiais e aproximadamente 130 mil postos de trabalho.
“Na altura em que a Comissão Europeia deverá anunciar muito em breve um pacote legislativo com o objetivo de reforçar a competitividade do setor bancário europeu, a presença de grupos transfronteiriços com uma visão europeia será determinante para construir o futuro do setor. Neste contexto, a presença em Portugal de grupos bancários como o BNP Paribas ou o BPCE representa uma verdadeira mais-valia para responder melhor aos desafios europeus, ultrapassando assim uma lógica puramente nacional. No plano bilateral, a presença de bancos franceses em Portugal constitui igualmente um marco estruturante na relação económica entre os nossos dois países e uma alavanca adicional para o desenvolvimento das empresas francesas e portuguesas. Tais parcerias inscrevem-se inteiramente na ambição do Tratado do Porto, o tratado de amizade e cooperação assinado em 2025 e que visa a reforçar os laços entre a França e Portugal, incluindo no plano económico”, diz Hélène Farnaud-Defromont, embaixadora de França em Portugal, ao Jornal Económico.
A importância da presença francesa já não se mede apenas pelo capital investido. Casos como os da Natixis, Euronext ou Airbus mostram essa mudança. As empresas concentram aqui funções de engenharia, decisão, tecnologia e competências que têm relevância estratégica para os seus perímetros europeus. “A relação económica entre França e Portugal tem vindo a intensificar-se ao longo dos últimos anos, com mais volume de trocas comerciais com maior qualidade. Este novo paradigma origina mais investimentos franceses em Portugal, mais investimentos portugueses em França e uma mudança da relação económica”, explica Thierry Ligonnière, presidente dos conselheiros franceses para o comércio externo em Portugal e CEO da ANA Aeroportos à margem da conferência económica franco-portuguesa.
“Nunca esteve tão bem a relação entre os dois países e a influência crescente de empresas francesas em Portugal. A segunda dimensão é a atratividade que Portugal tem hoje para cidadãos estrangeiros, em particular, uma grande comunidade francesa e a oportunidade que isso representa para o País”, acrescenta Sérgio Azinheira Soares, CEO da Transdev Portugal, uma das maiores operadoras globais de transportes públicos fundada em França.
Comunidade
Há cada vez mais franceses a escolher Portugal como destino para viver. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE) são 26.549 e, em Lisboa, optam por viver em bairros como Estrela, Príncipe Real e Campo de Ourique. “Conheci poucos franceses que não se deram bem por cá. A maioria aprecia a qualidade de vida, há tempo para viver”, explica Julien Letartre, o dono da Maison Luce, e que divide os dias entre o aroma dos croissants e as conversas com empresários franceses que procuram oportunidades de investimento em Portugal. Chegou em 1996 numa altura em que só “existiam carcaças ou produtos muito industrializados”.
A procura por uma nova vida em Portugal acompanha também uma tendência de investimento: o capital francês tem vindo a ganhar peso no mercado imobiliário nacional. Na imobiliária Century 21 Le Quartier, na Rua Correia Teles, em Campo de Ourique, são vários os apartamentos para vender e alugar “A maior procura são de casais que querem um T2 com terraço. Desejam conciliar qualidade de vida no bairro e proximidade com o liceu francês para os filhos estudarem”, diz um dos consultores imobiliários.
A poucos metros dali existem pequenos negócios fundados por franceses como a queijaria Maître Renard, a Patisserie-Dacquoise e a loja de produtos biológicos Sabor Mercearia. Fundada por Olivia Kohler e Bryce Lerebours, um casal francês que se mudou para Lisboa. Ambos vinham de áreas ligadas à gestão e comunicação, mas sempre tiveram uma ligação próxima ao campo e à alimentação. Ao chegarem a Portugal, encantaram-se com a riqueza dos produtos locais e decidiram criar um espaço inspirado nas mercearias da Provença. “O conceito é claro: trabalhar apenas com produtos sazonais e frescos, de pequenos produtores portugueses”, diz Bryce, de 30 anos, ao Jornal Económico. Este ano já abriram uma segunda loja no bairro dos Anjos.
A presença francesa em Portugal traduz uma relação económica e social cada vez mais sólida. Pequenos negócios convivem com grandes grupos internacionais, criando uma rede que junta empreendedorismo, emprego e integração empresarial.
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