Brasil é dos brasileiros, diz senador democrata dos EUA que critica tarifas de Trump
Em entrevista à Folha de S. Paulo, Kaine afirma que Trump tem um “favorito muito claro” na disputa brasileira e faz “tudo o que pode” para deixar essa preferência evidente. O senador pelo estado da Virgínia condena essa postura e diz que “o Brasil é dos brasileiros”. “Devemos deixar que o Brasil faça as suas próprias escolhas nas eleições”, resume.
Vice-presidente da subcomissão para o Hemisfério Ocidental da Comissão de Relações Externas do Senado, Kaine, 68 anos, é uma das principais vozes democratas sobre a política dos Estados Unidos para a América Latina.
Critica também as tarifas impostas por Trump ao Brasil, classificando-as de “completamente ilógicas” e sugerindo que possam ter sido motivadas “por razões potencialmente até corruptas”. Para ele, a taxação prejudica consumidores e empresas americanas e acaba por empurrar parceiros comerciais dos EUA para mais perto da China.
Autor de uma das iniciativas no Senado para tentar travar as tarifas impostas ao Brasil ao abrigo da Lei de Poderes Económicos de Emergência Internacional (IEEPA ) — usada para sobretaxar o Brasil em 40% no ano passado —, Kaine lamenta que Trump tenha recorrido a outro instrumento legal para restabelecer as sobretaxas ao abrigo da secção 301. A nova base jurídica reduz significativamente a capacidade do Congresso de contestar as medidas, avalia.
O senador comenta ainda a indicação do político republicano Daniel Perez para novo embaixador dos EUA no Brasil. Embora tenha votado a favor da nomeação na Comissão de Relações Externas, Kaine diz que a sua posição não representa apoio à política externa do governo Trump. Para o democrata, porém, é melhor que haja um embaixador em Brasília do que o posto continue vago, como está desde janeiro de 2025.
Folha de S.Paulo: No final do ano passado, tivemos a sensação de que a relação entre os EUA e o Brasil estava melhor, mas, com os últimos acontecimentos, a sensação é de regresso à instabilidade.
Tim Kaine: E por razões verdadeiramente lamentáveis. Donald Trump tem uma obsessão por tarifas que é muito imprudente em relação aos efeitos sobre os consumidores americanos e as empresas americanas. E tem uma obsessão adicional específica com o Brasil porque é próximo dos Bolsonaro e não gosta que o Brasil exerça o seu próprio sistema jurídico para responsabilizar pessoas pelos seus atos.
Então temos o Brasil, um país com o qual temos superavit comercial. A maior parte dos argumentos de Trump sobre tarifas é de que os EUA estão a ser explorados por países com os quais temos défice comercial.
Mas aqui temos um parceiro comercial, e Trump está a usar tarifas não apenas por razões completamente ilógicas, mas talvez até por razões corruptas. Essas tarifas prejudicam basicamente as famílias e as empresas americanas.
O senhor teme que as novas tarifas prejudiquem mais essas famílias e empresas, além do que aconteceu no ano passado?
Mesmo que as tarifas tenham algumas exceções, tarifas são impostos. Fazem com que as famílias e empresas americanas paguem mais pelos produtos.
Nunca existiu uma guerra comercial unilateral. Se se impõem tarifas, o outro país responde sempre com tarifas recíprocas. Isso gera um peso adicional e, normalmente, prejudica as empresas americanas que exportam para o Brasil.
Li uma reportagem que dizia que o Brasil está a procurar, junto ao Mercosul, um aumento significativo das negociações comerciais com a China.
Então, por que razão está exatamente Trump a fazer isto? Está a prejudicar consumidores, a prejudicar empresas e a empurrar países que deveriam ser os nossos aliados para os braços da China no comércio. Como é que isto ajuda alguém nos EUA?
O senhor liderou um esforço para travar o uso da IEEPA no Brasil. Como correu?
Conseguimos que cinco republicanos se juntassem aos democratas para repreender o presidente pelas tarifas. Depois, o Supremo Tribunal derrubou as tarifas baseadas na IEEPA, e o presidente está a reimpo-las com base noutro dispositivo legal, em relação ao qual não tenho a mesma possibilidade de as contestar imediatamente.
Com as tarifas da IEEPA, eu podia apresentar uma contestação e forçar uma votação. Com as tarifas baseadas na outra secção da lei — a secção 301 —, isso não é possível imediatamente.
Não existe um mecanismo garantido para que eu as possa contestar. Posso tentar mudar a legislação para criar um mecanismo ou alterar a lei para limitar o uso dessas tarifas. Mas isso exige um projeto de lei que vai para uma comissão e, pela minha experiência, o presidente republicano dessa comissão não o vai colocar em votação.
Ainda sobre as tarifas, durante a audição de Daniel Perez, indicado pelo governo Trump para ser o novo embaixador no Brasil, o senhor levantou preocupações…
Ele reconheceu que temos um superavit comercial. Mas, como alguém que não fazia parte do Departamento de Estado e também não participou da decisão de impor tarifas — afinal, era um legislador estadual [na Florida] —, ele realmente não estava em posição de explicar a política do governo.
O senhor votou a favor da sua indicação na comissão de Relações Externas. Porquê?
Conheço várias pessoas na Florida, dos dois partidos, que me disseram acreditar que ele será um bom embaixador no Brasil. Liguei para alguns líderes legislativos democratas que conheço e perguntei: “É equilibrado? Razoável?”
A minha visão geral é a seguinte: quando um presidente é eleito, precisa de ser capaz de montar a sua equipa. E, desde que considere que alguém é uma pessoa responsável, mesmo que tenha uma orientação política diferente da minha, isso pesa a favor. Além disso, considero muito melhor que o Brasil tenha um embaixador confirmado do que não tenha nenhum. Veja onde estamos, 18 meses após o início da administração.
Enviar um embaixador confirmado é um sinal de respeito. Não ter um embaixador confirmado pode levar um país a pensar: “Será que não somos importantes o suficiente para merecer um embaixador?”
Votei a favor dele na comissão e, se fosse uma votação apenas sobre ele no plenário, voltaria a votar a favor. Mas acredito que será incluído num grande pacote de nomeações que contém também pessoas nas quais realmente não quero votar. Talvez me veja a votar “não” no plenário. Não seria um voto contra ele, mas porque faz parte de um pacote único que inclui outras pessoas.
O Brasil recusou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que deveriam viajar ao país. O governo brasileiro afirmou que havia risco de a viagem fomentar uma tentativa de intervenção no processo eleitoral. Como o senhor analisa o sucedido?
O Brasil tem uma razão legítima para acreditar que os Estados Unidos poderiam tentar interferir nas suas eleições? Sim.
Quero dizer, Trump, ao impor as tarifas ao Brasil com base na IEEPA, fundamentou especificamente essas tarifas — que, em teoria, deveriam ser justificadas por uma emergência nacional que afete os Estados Unidos — no facto de o Brasil estar a processar o ex-presidente [Jair] Bolsonaro.
Como é que isso representa uma emergência para os Estados Unidos que justificaria impor tarifas e aumentar os custos para os consumidores americanos? Então, quando se olha para isto, consigo perceber por que razão o Brasil ficou preocupado com o facto de pessoas enviadas ao país poderem ter alguma intenção inadequada.
Isso não significa que isso fosse realmente acontecer ou que aqueles funcionários do Departamento de Estado a quem foram recusados os vistos fossem fazer isso.
O Trump é muito próximo do presidente da Argentina, Javier Milei, que recentemente tomou uma medida altamente incomum, sem precedentes, na minha opinião [a participação no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, quando Milei atacou o presidente Lula, o ministro Alexandre de Moraes e abriu uma crise diplomática entre o Brasil e a Argentina].
Não deveríamos estar a expressar preferência sobre quem outros países escolhem como seus líderes. Devemos deixar que cada país escolha a sua liderança e, depois de essa escolha ser feita, trabalhar com o governo eleito.
O senhor sente que esse episódio, somado às tarifas, mostra que o governo Trump está a tentar interferir nas eleições brasileiras? Ou é cedo para dizer isso?
Dizer que está “a tentar interferir” talvez seja uma expressão demasiado forte. Têm um favorito muito claro, e o presidente está a fazer tudo o que pode para deixar isso muito evidente. Considero isso inadequado. O Brasil é dos brasileiros. Devemos deixar que o Brasil faça as suas próprias escolhas nas eleições.
Se não queremos que ninguém tente influenciar as nossas eleições, por que razão deveríamos influenciar as eleições dos outros? O presidente apareceu na televisão há duas semanas a queixar-se de pessoas que tentaram interferir nas eleições americanas de 2020.
Não sei se os Estados Unidos estão prestes a tomar alguma medida que seria, de facto, inadequada, mas até mesmo expressar preferência da forma como Trump o fez, adotando medidas oficiais e mencionando o ex-presidente Bolsonaro, criticando o sistema de Justiça brasileiro e aquele processo específico… Na minha opinião, isso ultrapassa a linha do aceitável.
Existe alguma ação que a comissão de Relações Exteriores possa fazer em casos como o dos funcionários que tentaram ir ao Brasil?
Nós não temos autoridade de supervisão sobre quem o Poder Executivo decide enviar para outro país, a menos que seja um embaixador cuja nomeação precise da confirmação do Senado. Nós podemos fazer questionamentos.
Tivemos uma audiência sobre as Américas pouco antes desse episódio acontecer. Na próxima vez em que tivermos uma audiência relacionada às Américas, essa pergunta será feita: “Expliquem essa situação. O que estamos fazendo para eliminar qualquer mal-entendido?”.
O senhor apresentou uma legislação relacionada com a Amazónia, tentando torná-la mais segura e dando aos Estados Unidos mais instrumentos para ajudar o Brasil. Porquê?
Na verdade, a única vez que estive no Brasil foi há alguns anos, e fui a Manaus. Acredito que o mundo inteiro tem muito em jogo quando se trata de preservar a Amazónia. E os Estados Unidos também.
Se pudermos ser úteis nesse esforço, seria excelente. Há muito tempo penso que a proteção da Amazónia poderia, inclusive, servir como um terreno fértil para uma cooperação internacional mais ampla.
A China pode ter algumas ferramentas que ajudem nisso, nós podemos ter outras. Acho que o presidente Lula poderia exercer um papel de articulador internacional, reunindo especialistas de todo o mundo em torno da Amazónia.
Sempre esperei que algo assim pudesse acontecer. Mas a Amazónia é também uma região onde existe muita ausência do Estado e muita ilegalidade. Então, se houver coisas que possamos fazer em conjunto com o governo brasileiro — não contra ele ou sem o seu apoio.
Mas, se pudermos fazer coisas que protejam a Amazónia tanto do ponto de vista da segurança como do ponto de vista ambiental, respeitando sempre a soberania dos países onde está localizada, acho que isso seria positivo.
Perfil
Tim Kaine, 68 anos
Senador pela Virgínia, foi candidato a vice-presidente na chapa com Hillary Clinton em 2016. É vice-presidente da subcomissão que inclui o chamado Hemisfério Ocidental (Américas). No ano passado, liderou um movimento contra as tarifas aplicadas ao Brasil com um projeto de lei e propôs também um texto sobre a segurança na Amazónia.
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