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Israel e a culpa por associação

Israel e a culpa por associação

A recente polémica em torno de um grupo de influencers portugueses que viajou até Israel, a convite e com despesas suportadas pelas autoridades israelitas, parece-me, em si mesma, profundamente irrelevante. Não porque não devamos saber quem paga uma viagem, quem organiza um programa ou que interesses estão por detrás de determinada iniciativa de comunicação.
Devemos, naturalmente. A transparência é indispensável para podermos avaliar aquilo que vemos e ouvimos. O que me parece estranho é a transformação de uma prática absolutamente comum nas relações internacionais, na diplomacia pública e até na atividade comercial numa espécie de transgressão moral apenas porque, neste caso, o país que fez o convite foi Israel.
A polémica em torno desta viagem, diz provavelmente muito mais sobre Portugal do que sobre Israel.
Estados convidam jornalistas, académicos, empresários, políticos, criadores de conteúdos e líderes de opinião há décadas. Empresas pagam a influencers para conhecerem hotéis, conduzirem automóveis, experimentarem restaurantes ou promoverem destinos turísticos.
Governos fazem exatamente o mesmo quando procuram explicar a sua posição, defender os seus interesses ou apresentar ao exterior uma determinada imagem do país. Israel levou estes portugueses aos locais que quis que eles conhecessem, mostrou-lhes aquilo que considerou importante e apresentou-lhes a sua narrativa sobre o conflito. Evidentemente. Seria extraordinário que tivesse feito o contrário. O Irão organiza iniciativas semelhantes, tal como a Ucrânia, a Rússia, os Estados Unidos e tantos outros países. A diplomacia pública não nasceu com o Instagram e muito menos em Telavive.
Por isso, o problema interessante desta polémica não está na viagem. Está na reação à viagem e na extraordinária facilidade com que uma parte do debate público português e europeu passou há já muito tempo, da crítica ao Governo de Israel para uma espécie de suspeição moral sobre tudo aquilo que seja israelita.
É uma mudança aparentemente ignorada por muitos, mas politicamente muito mais importante do que parece, porque uma democracia deve poder discutir duramente as decisões de um governo sem transformar a população governada por ele numa extensão desse governo.
Há muito para discutir e criticar na política israelita. Podemos discutir a condução da guerra em Gaza, os colonatos na Cisjordânia, a proporcionalidade de determinadas operações militares, as opções de Benjamin Netanyahu, o comportamento de ministros do seu Governo ou a estratégia israelita para o futuro dos territórios palestinianos.
Podemos considerar algumas dessas decisões politicamente erradas, moralmente indefensáveis ou juridicamente questionáveis. Podemos defender a criação de um Estado palestiniano e considerar que a segurança de Israel exige precisamente uma solução política para a questão palestiniana. Nada disso coloca em causa Israel enquanto país nem transforma quem o defende num inimigo dos palestinianos, pelo menos deveria ser assim.
O problema surge quando desaparecem estas distinções. Netanyahu passa a ser Israel, Israel passa a ser os israelitas e, num salto ainda mais perigoso, todos os israelitas confundem-se com os judeus, numa associação pejorativa. É assim que uma crítica política legítima pode começar a transformar-se numa lógica de responsabilidade coletiva. E é precisamente aí que devemos ser muito cuidadosos.
Durante os últimos anos falou-se, justificadamente, sobre a desumanização dos palestinianos. Houve discursos em que a fronteira entre o Hamas e a população de Gaza praticamente desapareceu, como se uma criança palestiniana pudesse ser responsabilizada pelo massacre de 7 de outubro ou como se dois milhões de pessoas partilhassem necessariamente os objetivos de uma organização terrorista. Essa generalização é moralmente inaceitável. Mas um princípio moral só merece esse nome se continuar válido quando aplicado àqueles de quem politicamente não gostamos. Não podemos rejeitar a culpa coletiva dos palestinianos e, simultaneamente, aceitar uma forma diferente de culpa coletiva quando falamos dos israelitas.
É precisamente isso que começa a inquietar-me em algum discurso e comentário. Uma família de Telavive não tomou as decisões do Governo Netanyahu. Um jovem israelita não é responsável pela política de colonatos. Uma criança israelita que perdeu os pais no massacre do dia 7 de outubro não tem qualquer responsabilidade pela destruição de Gaza. E um judeu que vive em Lisboa, Paris ou Londres não deveria sequer ter de explicar as decisões de um primeiro-ministro israelita. Quando estas diferenças começam a desaparecer, já não estamos apenas perante uma discussão sobre política externa.
Existe ainda outra simplificação que empobrece profundamente este debate. Uma determinada esquerda europeia, mais folclórica do que intelectualmente curiosa, parece ter construído uma interpretação do Médio Oriente em que quase toda a violência é explicada a partir de Israel. O Hamas aparece como consequência da ocupação, o Hezbollah como resistência, os Houthis como expressão de uma causa regional e o Irão quase desaparece da fotografia. É uma interpretação ideologicamente confortável, mas historicamente falsa, ideologicamente conveniente, politicamente insuficiente e geopoliticamente difícil de sustentar.
O Hamas não é simplesmente uma reação espontânea às políticas de Netanyahu. Existe desde 1987. O Hezbollah nasceu no contexto da guerra civil libanesa e da revolução iraniana propositadamente para infligir Israel, décadas antes de Netanyahu chegar ao poder.
A República Islâmica construiu ao longo de anos uma rede regional de organizações armadas terroristas e proxies que inclui o Hezbollah, a Jihad Islâmica Palestiniana, os Houthis e diferentes milícias no Iraque. A Europa conhece também há décadas operações, conspirações, atentados e atividades clandestinas associadas a diferentes organizações jihadistas e a estruturas apoiadas por Estados. Ignorar esta arquitetura porque perturba uma narrativa simples de opressor e oprimido não ajuda os palestinianos e certamente não ajuda a compreender o Médio Oriente.
Também não significa que todos os que defendem a Palestina apoiem o Hamas, evidentemente. Essa seria precisamente a mesma generalização que estou a criticar. A esmagadora maioria das pessoas que se manifesta em defesa dos palestinianos fá-lo por razões humanitárias perfeitamente legítimas. O direito dos palestinianos à dignidade, à segurança e a um futuro político não depende daquilo que pensamos sobre o Hamas, da mesma forma que o direito dos israelitas à segurança e à existência do seu país não depende daquilo que pensamos sobre Netanyahu.
É esta capacidade de manter duas ideias na cabeça ao mesmo tempo que parece estar a desaparecer. Podemos reconhecer o sofrimento indescritível de Gaza sem relativizar o 7 de outubro. Podemos recordar as vítimas israelitas sem ignorar as crianças palestinianas mortas. Podemos condenar o Hamas sem transformar os palestinianos em terroristas e podemos criticar Netanyahu sem transformar os israelitas em criminosos. Não deveria ser particularmente difícil. Tornou-se, infelizmente, quase revolucionário.
É também por isso que a indignação com os influencers me interessa tão pouco. Naturalmente que Israel pretendia influenciá-los. Essa é a razão pela qual os convidou. Quem acompanha uma visita organizada pelo Governo iraniano também verá o Irão que Teerão pretende mostrar. Quem visita a Ucrânia a convite das autoridades ucranianas verá determinados lugares e ouvirá determinadas histórias. A resposta de uma sociedade adulta não é proibir estas viagens nem tratar quem nelas participa como moralmente contaminado. É saber quem as financiou, conhecer o contexto, ouvir outras versões e depois formar uma opinião.
O que deveria preocupar-nos muito mais é a progressiva incapacidade de separar governos de países, países de populações e populações de identidades religiosas ou étnicas. Porque é precisamente nesse processo que os indivíduos deixam de ser indivíduos e passam a ser representantes de uma categoria à qual atribuímos uma responsabilidade coletiva. Foi assim em demasiados momentos da história europeia para que possamos tratar esta linguagem com leviandade.
Israel pode e deve ser criticado. Netanyahu pode e deve responder politicamente pelas suas decisões. Os palestinianos têm o direito de não ser confundidos com o Hamas. Mas os israelitas têm exatamente o mesmo direito de não serem confundidos com Netanyahu, onde quer que vivam, não têm de responder pelas decisões do Estado de Israel.
No meio de tanta certeza ideológica talvez valha a pena regressarmos a uma ideia extraordinariamente simples: não existem povos coletivamente culpados. Existem governos, organizações, exércitos, terroristas, decisões políticas, crimes, responsabilidades individuais e responsabilidades institucionais. E depois existem pessoas. Quando deixamos de conseguir fazer essa distinção, o problema já não é Israel nem a Palestina. O problema passa a ser nosso.

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