A carregar agora

Fim da viagem

Fim da viagem

Depois dos Himalaias, veio o regresso por aquelas estradas vertiginosas, numa camioneta apertada. Vinte horas de viagem. Quando parávamos, eram homens para a direita, mulheres para a esquerda e arranjem-se de alguma maneira.
Seguimos até à fronteira oriental com a Índia. Atravessámo-la a pé, entrando no estado de Bengala Ocidental, por aquele estreito corredor de terra que separa o Nepal do Bangladesh e por onde, meses antes, tínhamos iniciado a viagem. Dali apanhámos um táxi para Darjeeling, atravessando plantações de chá até começarmos a subir, sempre a subir, até aos 2200 metros de altitude, bem acima da nossa Serra da Estrela.
À medida que subíamos surgiam os chalés, o célebre expresso de Darjeeling, a humidade fresca da montanha, hotéis com patine. Era uma espécie de Sintra do Raj britânico, cuja capital fora Calcutá, centenas de quilómetros a sul. Em Darjeeling, quando as nuvens se abrem, o horizonte revela picos de oito mil metros. E quando deixamos de olhar para fora, olhamos para dentro, para os chalés, os cafés, as esplanadas, para uma livraria extraordinária onde a literatura de viagens e a espiritualidade convivem nas mesmas estantes. Afinal, a espiritualidade sempre foi uma viagem e a viagem sempre transportou consigo espiritualidade. Aquela livraria, de onde saímos com meia dúzia de livros, exprimia melhor do que qualquer explicação o sentido desta travessia.
Em Darjeeling descansámos. Depois dos Himalaias, depois daquela viagem memorável, mas infernal, houve tempo para não fazer nada. Naqueles dias, um homem acompanhou-nos com uma atenção delicada. Fez-nos lembrar tantos outros que encontráramos antes, em Varanasi e Agra. Homens discretos, íntegros, para quem a hospitalidade era uma questão de honra. Essa hospitalidade é uma das memórias que permanece. Ficávamos com a impressão de que, quando chegassem a casa, contariam felizes como tinham tido sorte em nos encontrar e nos poder ajudar. Que bom para o karma.
Depois seguimos para Calcutá. Vimos os edifícios do antigo Império, uma arquitectura grandiosa, hoje marcada pelo desgaste do tempo. Já não é o tempo dos impérios. Mas permanece uma vida que nasceu dos encontros e das contaminações. A história não desaparece, transforma-se, mistura-se com o presente, continua a viver de outras maneiras. Não é diferente, afinal, das memórias.
Foi a última paragem antes do regresso, via Londres. E foi no metro londrino que sentimos um dos maiores choques da viagem. Na carruagem reinava um silêncio absoluto. Não havia vozes. À primeira vista, parecia serenidade. Mas percebemos depressa que era apenas a outra face do frenesim ocidental, um silêncio fechado sobre si mesmo. Deixávamos para trás a calma ruidosa da Índia.

Share this content:

Publicar comentário