“Empresas privadas como a nossa não tiveram apoios do PRR”, afirma diretor da produtora UAU
Um ano depois da aquisição do cineteatro Vale Formoso no Porto a produtora UAU arrancou com a requalificação do espaço, que entre compra e obras deverá custar oito milhões de euros. Um valor todo ele proveniente de investimento privado, dado que a empresa não teve acesso às verbas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Em entrevista ao Jornal Económico (JE), Paulo Dias, diretor-geral da UAU, lamenta a situação e diz que as autarquias apoiam de acordo com aquilo que podem estes projetos. O responsável fala do processo de compra e obras de requalificação do teatro no Porto, que pertencia à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), e de como os preços dos bilhetes não aumentam, o que impede melhores remunerações a atores e técnicos.
Paulo Dias assume ainda a ambição de estrear espetáculos na cidade do Porto no final de 2027, altura em que as obras do cineteatro devem estar concluídas e tal como acontece no teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, que a UAU detém desde 2012, também o anfiteatro no norte do país terá um novo nome e naming associado.
Em que fase estão as obras no cineteatro Vale Formoso?
Está dividido em duas fases. Nós comprámos o teatro faz agora um ano. A Câmara Municipal do Porto aprovou o projeto e arrancámos há cerca de dois meses as limpezas do interior do teatro, mas a obra de demolições e que obriga a legalização essa começou recentemente.
Como foi o processo de compra com a IURD?
Andámos em negociações cinco anos com a Igreja Universal do Reino de Deus. Entretanto, o edifício foi classificado como imóvel de interesse municipal e ficou com menos hipóteses de fazer outro tipo de obras ou utilização. A Igreja Universal do Reino de Deus não pretendia fazer mais nada e achou que era melhor era vender. Foi um negócio muito transparente. O objetivo é devolver o teatro à cidade.
E a cidade aceitou bem este regresso?
Entre o período em que comprámos o teatro e até meio de setembro, fomos muitas vezes visitar o espaço com engenheiros, arquitetos, artistas. E de cada vez que lá íamos apareciam sempre pessoas.
O teatro estava fechado há mais de dez anos e as pessoas achavam que estava destruído. Apesar de não estar nas melhores condições, ele não estava destruído nem estava maltratado. Essa é a verdade.
A dada altura, percebemos que o interesse das pessoas era muito. Vinham ter connosco, a fazer perguntas sobre o teatro, o que ia acontecer. Então decidimos fazer um open day e abrir o teatro à população a meio de setembro do ano passado e recebemos em algumas horas 2.800 pessoas. Algumas não entravam lá há 10, 15, 20 anos e acharam a iniciativa muito louvável, porque no fundo, foi rever o sítio onde tinham ido ver teatro, cinema, às festas de Carnaval.
Nestas obras de reabilitação do teatro. O que vai ser mantido e o que vai ser feito de novo?
O teatro vai levar uma remodelação a 100% no seu todo, desde pavimentos a escadarias. Todo ele vai ser vai ser recuperado. Há uma zona que é 100% nova, que é a zona do palco. A existente não obedecia a nenhuma regra, nem a nenhum padrão de segurança. Fomos mesmo obrigados a demolir o palco na sua totalidade para fazer uma coisa moderna, adaptada aos dias de hoje. A sala em si será recuperada. Há quatro coisas que são muito importantes dentro do património: uma escultura no exterior que nós vamos manter. O torreão e tudo aquilo que as pessoas veem de fora e que tem expressão visto de fora do teatro, nós vamos manter.
Há duas escadarias no interior dos fiéis que vão ser mantidas, mas recuperadas. Há um cuidado também com o aspeto histórico do edifício e em conjunto com a câmara municipal tudo o que é património vai ser preservado.
A previsão é que esteja tudo pronto no último trimestre de 2027. Ainda contam fazer algum espetáculo nesse ano?
Sim, se não acontecer nada que de inesperado. Temos pessoas da nossa produção na equipa de obra para garantir que os prazos se cumprem e neste momento estamos dentro dos prazos. Se tudo correr bem, vamos ter espetáculos na ponta final do ano que vem no Porto.
O teatro Tivoli em Lisboa tem a parceria do BBVA. Estão a procurar algum parceiro para este no Porto?
Estamos a estudar a hipótese de também ter um naming. Não está bem definido qual, mas estamos a trabalhar para isso. É fundamental que isso aconteça nos dias de hoje, porque são formas de fazer também com que os bilhetes tenham preços mais económicos e que as salas consigam recuperar os investimentos que são feitos. O BBVA é um parceiro importantíssimo na nossa vida. Foi aquele que acreditou em nós quando comprámos o teatro Tivoli.
Também é certo que o nome do teatro do Porto vai mudar, não vai ficar a chamar-se cineteatro Vale Formoso. Porque, na realidade, o teatro no Porto esteve mais tempo fechado do que aberto e não há uma razão histórica para manter o nome.
Quer o nome, quer o naming, hão de aparecer na altura certa. Acho que vai ser no início do ano que vem. Importa dizer que empresas privadas como a nossa não tiveram acesso aos apoios do Plano de Recuperação e Resiliência e todo o investimento é privado.
Porque não tiveram esse acesso? Que apoios existem das autarquias?
Acho que as câmaras municipais vão apoiando de acordo com aquilo que podem em determinadas alturas e dependendo um pouco da forma como os projetos são feitos.
Por exemplo, o nosso projeto do Tivoli, em Lisboa, foi beneficiado com o apoio para os 100 anos do teatro, mas foi um apoio que ficou muito aquém daquilo que nós tínhamos pedido, nomeadamente para a recuperação de património, que é sempre a parte mais difícil de fazer neste tipo de projetos.
Nós comprámos o teatro Tivoli há 14 anos e o que sai sempre da folha de excel são as manutenções dos edifícios, porque os projetos por si só não têm corrido mal, têm corrido bem. A questão é que o volume de lucro que temos que ter na atividade morre sempre no edifício e não conseguimos fazer crescer a atividade por causa disso. E é aí que acho que há uma diferença muito grande e por isso o PRR devia ter chegado aos equipamentos.
Porquê?
Porque não são muitas as empresas que têm teatros. A UAU é a única empresa que em 50 anos comprou dois teatros. Não há mais ninguém. Portanto, ter feito chegar isto às quatro ou cinco pessoas privadas que têm edifícios para manter tinha sido uma atitude até inteligente. Porque se as salas estiverem a funcionar, nós temos mais cultura e acho que precisamos todos de mais cultura e mais espaços culturais.
De um modo geral como olha para o impacto do teatro na população e nas cidades?
Acho que o teatro mesmo até após a pandemia, esteve sempre a crescer. Mas também o teatro é um espetáculo que tem os preços mais económicos de tudo o que é espetáculos. Por outro lado, é também aquele que anda um bocadinho mais pelo país nos teatros municipais, portanto o teatro está em crescimento. O que não está em crescimento é o valor dos bilhetes. Esses não têm aumentado nos últimos anos, porque não se consegue que os mesmos aumentem.
Como olha para essa situação?
É um problema, porque se queremos aumentar e criar mais valor entre as pessoas que estão a trabalhar nestas produções, precisamos que os bilhetes aumentem um pouco para depois ser em cadeia.
Ora, se os bilhetes não aumentam em cadeia, depois não conseguimos aumentar as pessoas que estão a trabalhar nos determinados projetos. E essa sim é uma dificuldade que nós temos e é uma pena que nós não conseguimos pagar mais e melhor aos atores, mais e melhor, aos técnicos, mais e melhor às equipas de produção.
Isso faz com que seja um desafio trazer artistas internacionais?
Sim. Um bilhete para o teatro em Portugal custa, em média entre 18 euros e 22 euros, às vezes 24 euros. A nível internacional começam em 30 euros e vão até aos 50 euros. Estamos a falar de coisas feitas em teatros. Não estamos a falar dos festivais e de nomes grandes que depois vão aos coliseus ou ao Campo Pequeno. Mas por exemplo, quando trazemos os Stomp ou o ballet de Monte Carlo, não conseguimos fazer preços tão económicos como nos espetáculos portugueses.
Até porque toda a produção é diferente.
Sim, e ainda temos outros problemas associados. Por exemplo, neste momento temos uma dificuldade que são os projetos que vêm de Inglaterra que obrigam a vistos. É um verdadeiro inferno fazer projetos que venham do Reino Unido. É demorado e complicado e estamos sempre até à última, sem saber se os artistas chegam cá ou não.
Nós passamos regularmente por esse tipo de dificuldades, mas até agora ainda não houve nada que não se tenha feito por causa da questão dos vistos. Mas são coisas que nesta história da comunidade económica europeia não ficaram bem tratadas. Já passou imenso tempo desde que se deu o Brexit e o tema continua a não estar resolvido, e em termos culturais é um problema.
E o público vem mais pela peça ou porque reconhece os atores?
É mais fácil promover os projetos quando há pessoas conhecidas. Mas também é um facto que está mais que provado que se os projetos não prestarem as pessoas, não veem. Veem as primeiras vezes porque veem enganadas, mas depois deixam de vir. Ou seja, o número de espetadores vai caindo.
Como o contrário também acontece. Quando um projeto tem muita qualidade, ele também tem tendência para crescer, mesmo que as pessoas que lá estão não sejam muito conhecidas. Portanto, as duas coisas são verdade. E nessa lógica, isto é positivo. Nós primamos muito por tentar fazer coisas de qualidade e com pessoas conhecidas para termos o melhor dos dois mundos.
E há projetos que se repetem todos os anos.
Há projetos que são importantes, porque já têm um histórico e é sempre mais fácil fazê-los crescer. O ‘Impossível ao Vivo’, do Luís de Matos é um desses exemplos. Todos os anos, a nossa equipa com a equipa do Luís de Matos tentam fazer crescer esse projeto. Uns anos é mais fácil, outros anos é mais difícil. Mas costumo dizer que aquilo que nós fazemos sofre com o futebol, com o sol, com a chuva, com pandemias, com guerras, sofre com tudo.
Portanto, nós estamos habituados sempre a trabalhar no meio de qualquer coisa menos positiva. O que é mesmo bom é tentar fazer projetos com qualidade para as pessoas manterem o seu caminho. O Tivoli é um caso de sucesso, porque no último ano ultrapassámos a marca dos 250 mil espetadores, é talvez a sala que tenha tido mais pessoas nesta dimensão nas 1.100 em Lisboa.
Estes espetáculos têm contratos definidos com o Tivoli?
O teatro Tivoli tem uma parceria com duas ou três empresas. Temos a empresa do Luís de Matos, temos a Plano 6, com quem temos feito os espetáculos com artistas brasileiros e no caso dos ‘Comedia à La Carte’, é a empresa do César Mourão.
São as três entidades que passam mais tempo no Tivoli. É o sucesso destes espetáculos, com o sucesso daquilo que nós fazemos na UAU, que no fundo juntamos ao calendário, que fazem o sucesso daquilo que é o projeto do Tivoli. Nós acreditamos muito que no Porto a nossa capacidade vai aumentar entre 20% a 30%, se não mais, a capacidade cultural daquilo que se faz no Porto.
Vamos levar muita coisa ao Porto e isso para nós é importantíssimo. Queremos usar a A1 para ligar o teatro de Lisboa ao do Porto. Nestas duas salas hão de vir coisas para o Porto e no Porto hão de ser criados projetos que também hão de vir para Lisboa. O objetivo é criar este conceito de autoestrada entre as duas salas.
E dentro da UAU quais são os objetivos para este ano?
Acho que os nossos valores vão ser iguais aos de 2025, não há um crescimento, há uma estabilização pensada, porque estamos a caminho da criação de uma casa gémea de Lisboa e obriga a alguma contenção de risco. Estamos a fazer uma aposta financeira muito grande no Porto e não podemos ter nada a correr mal na nossa casa-mãe.
Por outro lado, as obras e os orçamentos, têm sido uma coisa muito complexa, porque que cada vez que adjudicamos um orçamento, ele já não é o orçamento que tínhamos visto há duas ou três semanas. Nós planeamos com muita antecedência e sabemos tudo o que vamos fazer no próximo ano e meio.
Eu sei que este ano tenho o ‘Impossível’ do Luís de Matos, mas também sei que tenho este espetáculo para o ano no dia 23 de dezembro, às 21h00. Não posso chegar agora no caso do Porto, no dia 20 de dezembro, e dizer “desculpem, mas afinal a obra não está pronta”. Isso não é possível.
Que balanço faz destes 14 anos de Tivoli BBVA?
Desde que comprámos o teatro estivemos sempre a crescer. Mas já temos uma experiência de 36 anos de atividade e a dada altura já conseguimos medir um bocadinho os sucessos. Os insucessos maioritariamente acontecem não porque o projeto não seja bom, mas porque o projeto está numa altura em que não vive só por ele.
Ou seja, chega a uma pandemia, o projeto corre mal. Não havia nada a fazer. Começou uma guerra, os combustíveis sobem como estão a subir, as vendas caem porque as pessoas não têm tanto dinheiro e nós sofremos com estes efeitos colaterais.
Além do teatro de Vale Formoso há mais algum edifício no horizonte para ser adquirido?
Infelizmente não, porque não é fácil. Ou seja, sair da grande cidade que é Lisboa para a grande cidade que é o Porto, já é difícil com alguns espetáculos, porque apesar de serem duas grandes cidades, o número da população é bastante diferente. E quando saímos do Porto é ainda mais difícil de fazer. Por outro lado, temos também os papéis concorrenciais dos municípios mais pequenos, o que torna a vida de um privado mais difícil.
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