Domingos Silva: “Marcas europeias ensinaram muito à indústria automóvel”
Eletrificação, eletrificação, eletrificação. São estas as palavras de ordem da Volvo para o mercado nacional nos próximos anos.
As vendas da Volvo subiram 10% nos primeiros sete meses do ano para quase 4,1 mil unidades. Entre as 50 unidades mais vendidas no mercado nacional, surgem o EX30 e o XC40, com 1,4 mil e mais de mil unidades vendidas, respetivamente.
No mercado de 100% elétricos, a Volvo disparou mais de 37% este ano, com 2,1 mil unidades. Nos híbridos plug-in, recuou 25% para 970 unidades, enquanto que nos híbridos elétricos subiu 15% para mais de mil unidades.
A Volvo Car Portugal é liderada por Domingos Silva desde julho de 2025, tendo sucedido ao brasileiro Edson Ishikawa que esteve um ano no cargo (antes tinha ocupado o cargo entre 2014 e 2012). Entre 2021 e 2024, foi liderada pela sueca Susanne Hagglund.
Em entrevista ao JE, Domingos Silva garante que a marca premium sueca (com ADN chinês) não quer imitar ninguém e que quer continuar a fazer o seu caminho de forma “mais humana e menos ostentativa”.
As vendas da Volvo estão a crescer a dois dígitos este ano. A que se deve esta subida?
Atribuímos este crescimento a uma combinação de fatores muito claros: a força da marca, a qualidade da gama atual e um alinhamento cada vez maior entre aquilo que a Volvo representa e aquilo que muitos clientes procuram hoje. Existe uma valorização crescente de marcas com identidade forte, visão clara e propostas consistentes, e sentimos que a Volvo está muito bem posicionada nesse contexto.
A nossa proposta é bastante distinta no universo premium. Falamos de segurança, tecnologia útil, sustentabilidade e uma experiência premium mais humana e menos ostentativa. Há também uma procura crescente por modelos eletrificados, em particular 100% elétricos, em que a Volvo construiu uma posição muito sólida ao longo dos últimos anos. Fomos uma das primeiras marcas premium com legado automóvel a assumir de forma clara o caminho da eletrificação e isso está, naturalmente, a refletir-se no mercado.
O Volvo EX30 continua a ser um caso muito relevante. Apesar de já não ser uma novidade absoluta, mantém uma procura muito forte e continua entre os modelos 100% elétricos mais vendidos em Portugal. Este resultado reflete igualmente o trabalho da nossa rede de concessionários, que tem acompanhado toda a transformação da marca com enorme profissionalismo e consistência.
Por segmentos, no mercado de elétricos (BEV) e híbridos elétricos, a Volvo registou subidas a dois dígitos. A que atribuem esta evolução?
No caso dos BEV, é claramente o resultado de uma maior maturidade do mercado e de uma oferta Volvo cada vez mais competitiva. O cliente português está hoje mais informado, mais disponível para considerar um automóvel 100% elétrico e mais atento ao custo total de utilização.
A Volvo beneficia de uma gama elétrica com argumentos muito fortes: design, segurança, autonomia, tecnologia e uma experiência de condução muito alinhada com o posicionamento premium da marca. O EX30 tem tido um papel muito importante nesta performance, mas não é o único exemplo. Modelos como o EX90 demonstram também que conseguimos competir com grande consistência em segmentos superiores.
No caso dos híbridos, falamos de uma oferta mais específica, mas ainda assim muito sólida, assente em modelos reconhecidos, com forte valor de produto e uma experiência de utilização em permanente evolução. A introdução da nova experiência digital Volvo, com melhor interface, maior conectividade e atualizações remotas, também ajuda a reforçar a atratividade dos nossos modelos.
No mercado de híbridos plug-in (PHEV), registaram uma queda este ano. Qual o motivo?
O mercado está a mover-se de forma cada vez mais clara para soluções 100% elétricas, sobretudo nos segmentos onde a infraestrutura e os perfis de utilização já permitem uma transição mais natural. Para muitos clientes, o BEV deixou de ser uma alternativa distante e passou a ser a escolha mais lógica.
A nossa leitura é positiva, porque mesmo com alguma correção nos PHEV, a performance global da Volvo cresce precisamente na direção estratégica que definimos há vários anos. Dito isto, os híbridos plug-in continuam a ter um papel importante para muitos clientes e empresas, especialmente em ciclos de transição ou em perfis de utilização específicos. Por isso, vamos continuar a manter uma oferta plug-in hybrid competitiva, atualizada e com maior autonomia elétrica, acompanhando as diferentes necessidades do mercado.
Tesla, Mercedes-Benz ou Peugeot dominam as vendas nos carros eletrificados. Como combater este domínio?
Não olhamos para este tema apenas numa lógica de volume absoluto, porque estamos a falar de marcas com posicionamentos, gamas e segmentos muito diferentes. No segmento premium, a Volvo está hoje muito bem posicionada e tem vindo a conquistar uma relevância crescente.
Estamos entre as marcas premium mais fortes no mercado eletrificado e muito próximos dos principais concorrentes diretos. O nosso foco é competir com uma proposta diferenciadora: segurança, design escandinavo, tecnologia centrada nas pessoas, sustentabilidade e confiança.
O EX30 é um excelente exemplo dessa capacidade de conquista, porque trouxe novos clientes para a marca e tornou a Volvo muito mais visível no mercado elétrico. Também em segmentos superiores temos sinais muito positivos. O EX90, por exemplo, tem tido uma performance muito interessante no segmento E BEV.
A nossa ambição não é imitar ninguém. É crescer com uma proposta Volvo: premium, segura, sustentável e relevante para a vida real das pessoas.
A Volvo é uma marca premium. Os seus rivais naturais são a Mercedes, BMW ou Audi. Como concorrer com estas marcas?
Concorremos com clareza de posicionamento. A Volvo não tenta ser uma versão alternativa de outras marcas premium, tem uma identidade própria muito clara e isto não é de agora. É desde sempre.
Entre as marcas referidas, a Volvo tem hoje uma posição bastante competitiva em Portugal, mesmo com uma gama mais concentrada. Quando analisamos apenas os segmentos onde estamos presentes, a nossa performance é particularmente interessante e acreditamos que a aceleração da eletrificação tornará isso ainda mais evidente nos próximos meses.
A Volvo tem uma vantagem distintiva: é uma marca premium com um enorme legado em segurança, mas simultaneamente muito atual nos temas da sustentabilidade, tecnologia e bem-estar. A nossa tecnologia não existe para impressionar por si só. Existe para tornar a vida das pessoas mais simples, segura e confortável.
O novo Volvo EX60 será um modelo muito importante para a marca. É um produto central para o nosso posicionamento e sentimos já uma procura muito forte também em Portugal. Acreditamos que irá reforçar ainda mais a nossa presença no coração do segmento premium eletrificado, já que elimina todas as barreiras à eletrificação.
Qual vai ser a estratégia da marca para os próximos anos?
A estratégia passa por continuar a avançar na eletrificação, com uma gama cada vez mais forte, competitiva e relevante para os clientes portugueses.
Vamos reforçar a oferta 100% elétrica, mas mantendo também uma gama plug-in hybrid atualizada, com maior autonomia elétrica e ajustada às necessidades reais de transição. Ao mesmo tempo, continuaremos a apostar em novos modelos, melhor software, maior eficiência e numa experiência digital mais simples e intuitiva.
A segurança continuará a ser um elemento central da marca, mas numa perspetiva moderna: segurança física, digital, emocional e ambiental. Queremos também aprofundar a regionalização da produção, aproximando a produção dos mercados onde os automóveis são vendidos, sempre que isso fizer sentido.
Outro ponto fundamental será continuar a trabalhar muito próximo da rede de concessionários para garantir competitividade em todos os pontos: produto, oferta comercial, financiamento, serviço e experiência de cliente. Queremos crescer de forma sustentável, sem perder aquilo que torna a Volvo diferente.
Quais os objetivos para este ano?
O objetivo é continuar o bom caminho que estamos a fazer no mercado português, crescendo face ao ano anterior, mas de forma sustentável e saudável para a marca. Queremos reforçar a nossa posição no mercado eletrificado, em particular no segmento premium, e preparar muito bem a chegada de novos modelos estratégicos, com destaque para o Volvo EX60.
Ao mesmo tempo, continuaremos focados em melhorar a experiência de cliente, desde o primeiro contacto com a marca até ao pós-venda, trabalhando em estreita articulação com a rede para garantir uma execução consistente em todo o país. Mais do que perseguir volume pelo volume, queremos crescer com valor, relevância e qualidade de relação com os nossos clientes.
Nos carros eletrificados, as marcas europeias aprenderam com a Tesla e as marcas chinesas?
Todas as marcas aprendem com a concorrência. Isso faz parte da evolução natural da indústria automóvel. A Tesla teve um papel muito relevante na aceleração da mobilidade elétrica e na forma como o mercado passou a olhar para software, carregamento e experiência digital. As marcas chinesas trouxeram velocidade de desenvolvimento, eficiência industrial e uma abordagem muito competitiva à tecnologia.
Mas as marcas europeias também ensinaram muito à indústria: segurança, qualidade, design, engenharia, experiência de cliente e construção de marca a longo prazo.
No caso da Volvo, temos uma posição particularmente interessante porque beneficiamos do ecossistema Geely, o que nos dá acesso à tecnologia, à escala e a uma capacidade de desenvolvimento muito ágil. Ao mesmo tempo, mantemos intacta a nossa identidade: design escandinavo, segurança, sustentabilidade e uma visão premium centrada nas pessoas. Diria que temos hoje o melhor de dois mundos: a agilidade tecnológica de um grupo global muito forte e o ADN de uma marca europeia com quase 100 anos de história.
Qual o apelo que deixaria às autoridades portuguesas em termos de apoios à compra de carros elétricos? Devem ser mantidos? Alargados?
O mais importante é estabilidade e previsibilidade. O setor automóvel trabalha com ciclos longos e as famílias e empresas também precisam de confiança para tomar decisões de investimento.
Os apoios à mobilidade elétrica devem ser mantidos, mas sobretudo devem ser claros, consistentes e fáceis de compreender. Mais do que medidas pontuais ou intermitentes, precisamos de uma estratégia nacional estável para acelerar a transição.
Essa estratégia deve olhar não apenas para a compra do automóvel, mas também para o carregamento, a fiscalidade, os condomínios, as empresas e a infraestrutura pública. O incentivo à compra é importante, mas não resolve tudo. A confiança no carregamento é absolutamente crítica.
Portugal tem condições para acelerar ainda mais esta transformação, mas precisa de remover algumas barreiras práticas que continuam a criar hesitação nos clientes. O objetivo deve ser simples: tornar a escolha elétrica mais fácil, mais racional e mais acessível.
Deveria haver mais apoios à compra de carros eletrificados pelas famílias e empresas?
Sim, desde que sejam apoios bem desenhados, previsíveis e orientados para acelerar a transição energética.
Para as famílias, os apoios continuam a ser importantes porque ajudam a reduzir a barreira inicial de entrada no automóvel elétrico. Para as empresas, têm igualmente um papel decisivo, porque as frotas são fundamentais na renovação do parque automóvel e, mais tarde, no mercado de usados.
Apoiar empresas hoje é também garantir uma oferta mais forte de elétricos usados para famílias daqui a alguns anos. Mas o apoio não deve limitar-se ao momento da compra. Deve também facilitar o carregamento em casa, no trabalho e em espaços partilhados.
No caso dos híbridos plug-in, devem continuar a existir condições que reconheçam o seu papel de transição, sobretudo para perfis de utilização onde o 100% elétrico ainda não é a solução ideal. Mas a prioridade estratégica deve ser clara: acelerar a adoção de veículos de emissões zero. Porque a transição não se faz apenas com produto. Faz-se com produto, infraestrutura, fiscalidade, confiança e visão de longo prazo.
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