Jorge Rodrigues: “Há uma ameaça existencial em relação à Europa”
Militarmente e/ou enquanto quadro civilizacional, a Europa está no ‘ano zero’ de um período em que terá inevitavelmente de investir para poder defender-se dos seus adversários – mesmo que seja só para os manter quietos nas suas fronteiras. Mas precisa também de o fazer de uma forma inteligente, avisa Jorge Rodrigues, professor na Faculdade de Economia do Porto (Porto Business School).
Licenciado em Ciências Militares pela Academia Militar, mestre em Relações Internacionais pela Universidade do Porto, Oficial na Reserva com vasta experiência em missões internacionais em cenários complexos (África, Ásia, América Latina e Europa), Jorge Rodrigues sabe que ainda falta alguma coisa: a Europa assumir-se como um conjunto coeso, com uma estratégia comum. E sabendo que o centro do mundo é agora a Ásia Pacífico, o que, em nossas vidas, não vai com certeza mudar.
Estamos numa espécie de ano zero da Europa, de uma Europa que não sabemos bem o que vai ser: a União Europeia multiplicou por 25 a despesa prevista para a área da defesa. Que Europa é esta que estamos a criar?
A preocupação maior é o ponto de partida. Estávamos concentramos na ‘paz kantiana’, íamos exportar o nosso liberalismo, a nossa democracia, os nossos valores E isso era totalmente errado. Nós partimos de um ponto de partida em que o mundo verdadeiramente não se preocupa muito com a Europa, não temos o mínimo de autonomia estratégica. Este é o ponto de partida em que a segurança ficou para trás, para nos concentramos no desenvolvimento e no bem-estar. Sabemos o que necessitamos: está perfeitamente identificado. O relatório Draghi é um grande documento que basicamente coliga toda esta informação e a coloca de uma forma estruturada.
Precisávamos de nos concentrar na segurança e na defesa. Vou juntar as duas componentes, mas num sentido lato: não apenas a parte militar, mas algo muito mais abrangente que envolve muitas outras áreas, desde a segurança energética, a supply chain, etc. Nós precisávamos de ter uma grande preocupação nessa área e finalmente parece que está a surgir. Com isto não estou a querer dizer que haja uma paridade entre a segurança e o bem-estar, nunca haverá: obviamente que o bem-estar merecerá sempre uma percentagem bem maior do investimento europeu. No entanto, a componente de segurança precisa também de ter pelo menos duas ou três áreas perfeitamente asseguradas a nível global europeu. Repare que o que surgiu verdadeiramente da cimeira de NATO e consta da declaração de Ancara, mais do que todo aquele fogo de artifício de Donald Trump, foi um comprometimento de uma maior preocupação com o pilar europeu da organização. E é exatamente isso que deve ser defendido dentro de uma arquitetura de segurança euro-atlântica. A defesa externa, a defesa interna e a defesa civil. Os termos segurança e defesa, por vezes, são confundidos, mas há momentos em que se tocam de uma maneira muito próxima.
É isso que resulta dessa declaração?
Foi isso que resultou verdadeiramente daquela declaração: a Europa vai pensar o mundo de uma forma mais pragmática, vai ver o mundo como ele realmente é e vai naturalmente desenvolver um conjunto de ações internas. Isto pode ser uma grande oportunidade para a indústria, mas de uma maneira integrada. Se continuarmos preocupados com os franceses a vender os seus aviões, com os alemães a vender os seus tanques, não vamos conseguir chegar a lado nenhum. É preciso identificar bem em que ponta estamos, quais são os riscos, as nossas vulnerabilidades como europeus e de alguma forma desenvolver as capacidades de maneira a aplacar essas áreas. Naturalmente, considerando os Estados Unidos, mas também, de alguma forma, prevendo uma situação em que a Europa tenha a necessidade de intervir por si. Investimento nestas áreas, mantendo sempre a relação atlântica como prioridade.
Não é isso que está a acontecer. Há uma espécie de pós-nacionalismo que leva a que os franceses queiram vender os seus aviões e que os alemães queiram vender os seus tanques. Como é que os países, que são quase todos os países europeus que não têm uma indústria com tanta capacidade na área da defesa, podem transformar-se em fornecedores dessas grandes indústrias? Portugal quse não empresas Tier 1. Como é que vamos ser fornecedores desses grandes conglomerados industriais?
É aí que está a parte mais complexa. Tem toda a razão e eu concordo perfeitamente com o que diz. A grande questão vai exigir uma mentalidade diferente aos europeus, que é particularmente difícil porque os decisores têm eleições. Têm eleições em que têm que agradar.
É a chatice da democracia.
É, o grande problema da democracia. Temos sempre eleições e muitas vezes dois em dois anos porque se não são nacionais, são presidenciais, se não são legislativas, são locais, há sempre uma eleição que está a afetar. E eu até compreendo que existem interesses nacionais dentro do sistema, o que não compreendo é que se sobreponha ao interesse comum. A única forma que eu vejo é conseguir definir prioridades de alguma forma conjunta, combinada e conjunta, conseguindo envolver as pessoas. Como é que, por exemplo, vejo o desenvolvimento da indústria de defesa portuguesa? Exatamente, conseguindo inserir a nossa indústria dentro da cadeia de valor. Temos de conseguir envolver as nossas empresas nessa cadeia de valor. Temos uma ou duas empresas extraordinárias em áreas específicas, como por exemplo ao nível de drones, mas não podemos considerar que vai ser assim o sucesso da nossa indústria. Não, isso serão uma ou duas empresas, não transforma completamente a nossa rede industrial. Julgo que tem que se pensar o que é que temos, o que é que podemos oferecer e assegurar a integração na cadeia de valor. Temos uma metalomecânica extraordinária, temos uma parte que já contribui para a o setor automóvel que pode ser transformada, e temos outras áreas que podem de alguma forma ser interessantes neste período.
Há um problema a montante disso: a enorme dificuldade de interação entre empresas.
Tem razão, embora eu comece a ver alguns setores a alterarem um pouco esse comportamento. O que começamos já a sentir é que, em vez de um empresário ter tudo na sua própria empresa, começa a ter também parcerias, começa a desenvolver projetos comuns. São estes os vetores que vejo e que permite olhar com certa tranquilidade em relação ao futuro. Mas tem que haver um esforço: todos os stakeholders têm que estar envolvidos, públicos e privados. O que não podemos é continuar a ter todos a competir com todos, empresas, centros de investigação, associações. Acho que é uma boa oportunidade para começar a juntar pessoas à mesma mesa e avançar sem competições, e cada um fazendo o seu papel, porque cada um é necessário.
A Europa do ano zero. Que Europa estamos a construir a partir daqui?
A Europa está numa situação bastante complexa, porque ainda não percebeu verdadeiramente que já não é o centro do poder. O mapa já não está centrado na Europa, agora o mapa está na Ásia Pacífico.
Exatamente. Qual é o lugar dos Estados Unidos enquanto parceiro, uma vez que o que os preocupa neste momento é o Pacífico e não o Atlântico?
Essa prioridade não é de agora: vem, no mínimo, desde Barack Obama, de uma forma mais intensa, mas já constava anteriormente. Há uma super-competição entre os Estados Unidos e a China, e temos que compreender que essas são as superpotências. Se víssemos um gráfico de projeção económica, víamos os países, individualmente, a descerem a nível global. Começámos a deixar de ser realmente importantes, a nível global. A questão é que a Europa pode, de facto, unida, ocupar uma posição relevante, mas tem de trazer a sua componente estratégica. Já não vou pedir que se faça como a China – que tem uma visão a 50 anos, com o seu projeto 2049, já lançada há década – é uma impossibilidade, mas, pelo menos, umas referências que permitam saber qual é o caminho que se deve seguir. Mas umas referências pragmáticas. A transição energética, por exemplo. Qualquer um de nós concorda que é necessária uma transição energética, mas essa transição não pode ser feita colocando em causa a nossa economia, que nos coloque na dependência em relação a um ator que é particularmente complexo, como a China. Que domina o 86% da cadeia de valor das terras raras. Não podemos ser inocentes e expormo-nos desta maneira. Claro que, naturalmente, estamos a pagar agora a conta.
Em algum momento, nós temos que conseguir transformar toda esta nossa boa vontade e valores, que são muito importantes. A Europa tem valores, deve manter esses valores, mas transformá-los em algo pragmático que não ponha em causa a nossa segurança, seja ela qual for, inclusivamente a da nossa indústria. Porque a indústria, em última análise, é o que nos faz não perdemos poder a nível global. E é exatamente essa a direção que a Europa precisa de definir. É muito complexo ter uma absoluta certeza se o caminho é o federalismo, mas uma coisa é certa: há necessidade de ter algumas áreas que estejam mais unidas, que estejam mais identificadas com o bem comum, no sentido de assegurar que numa década, em 20 anos, estejamos numa posição diferente daquela em que estamos agora. Porque neste momento a nossa linha é de descida. A Europa poderá vir a ser um ator lateral se não mudar radicalmente de posição.
Parece-lhe que vamos conseguir, enquanto Europa, subtrair-nos a essa posição lateral apostando numa área, a da defesa, onde nunca poderemos ser líderes, uma vez que suponho que os Estados Unidos, por um lado, a China, a Índia, por outro, os países nucleares de fora da Europa não estarão com certeza interessados em perder a predominância. Não lhe parece que o facto de a Europa estar a apostar numa área em que nunca será líder é, de alguma forma, uma perda de tempo?
Não, não. Na minha perspetiva, é obrigatório investir nesta área de segurança e de defesa. Volto a juntar as duas, dada a relevância que lhe dou. Mas concentrando verdadeiramente na área específica de defesa, nós precisamos urgentemente de desenvolver essa dimensão. Tanto a nível de forças armadas como a chamada economia de defesa, envolvendo as indústrias ligadas à área. Agora, não pode ser de uma maneira cega, naturalmente.
Sob que perspetiva? A defesa da Europa, ou sermos um player de mercado, isto é, uma montra para vender armamento a quem tiver a bondade de continuar uma guerra qualquer?
As duas, os dois vetores, porque um alimento ao outro. E até acrescentaria um terceiro que está interligado, o ‘dual use’. Ou seja, qualquer empresa que tenha a capacidade de produzir, de pensar sempre num ‘dual use’, exceto, obviamente, em equipamentos muito específicos. A grande maioria do que se produz permite esta opção. Uma evolução a nível da aviação de combate, por exemplo, naturalmente pode ser trazida para a aviação comercial. Mas o que eu julgo que deve ser determinante é perceber que nós temos de ter capacidade militar própria na Europa. Depois de Donald Trump, seja JD Vance, seja Marco Rubio, seja com quem for, determinar a relação com a Europa, mas uma coisa é certa, seja simpático como o Obama, seja menos simpático como o Donald Trump, em boa verdade a próxima administração, as próximas administrações, manterão a prioridade na Ásia Pacífico.
O que quer dizer que está transmitida a responsabilidade de defesa da Europa aos europeus. Esse é o primeiro ponto. O segundo é uma oportunidade de negócio – e nem tudo tem de ser armamento, toda a gente pode contribuir, a grande maioria das indústrias podem contribuir para a economia de defesa.
Faz lembrar aquela frase que diz que ‘se queres a paz, prepara-te para a guerra’. A história da humanidade explica-nos que um país, quando se arma, acaba sempre por utilizar essas armas. Ou seja, a frase é falsa. Vê essa possibilidade de uma Europa armada acabar inevitavelmente por entrar em conflito com alguém, em princípio com a Rússia?
O contexto é diferente no caso específico da Europa. A Europa precisa de ter dissuasão face à Rússia. A Rússia, atualmente, não sabemos quem virá a seguir a Putin, mas poderá não ser necessariamente melhor. Há uma ameaça existencial em relação à Europa. Não digo tanto física, mas em relação aos valores europeus. A guerra híbrida que está a ser desenvolvida já há décadas pela Rússia está a colocar em causa a nossa maneira de viver, inclusivamente a nossa democracia. Isso é muito preocupante e nós temos de estar preparados. E a Rússia atual só reconhece poder. Se nós não demonstrarmos algum tipo de poder, isso poderá realmente traduzir-se em problemas graves no futuro. O que deve ser sempre pensado – como é aliás a NATO – é uma perspetiva defensiva. Isso traduz-se no tipo de equipamentos que devemos desenvolver como prioritários. Não podemos deixar de considerar algum tipo de armamento ofensivo, mas a prioridade deve ser defensiva. Os países da Europa necessitam uns dos outros: a capacidade desenvolvida pela Alemanha precisa das capacidades da França, que precisa das capacidades da Itália.
Share this content:



Publicar comentário