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A Volkswagen e o preço da energia

A Volkswagen e o preço da energia

Quando a Volkswagen admite que pode encerrar fábricas na Alemanha, não estamos apenas perante uma crise de uma empresa. Estamos perante um sinal de alarme sobre o modelo industrial europeu. Uma das marcas que durante décadas simbolizou a força da indústria alemã está hoje confrontada com uma pressão que vai muito além da gestão interna, dos custos laborais ou das dificuldades que advêm da transição para o veículo elétrico.
Os números ajudam a perceber a dimensão do problema. No primeiro semestre de 2026, o resultado operacional do grupo Volkswagen caiu 11,6%, para 5,9 mil milhões de euros, com uma margem operacional de apenas 3,8%. As vendas de veículos recuaram de 4,36 milhões para cerca de 4 milhões. Para uma empresa desta dimensão, estes dados são mais do que um mero um sinal de pressão financeira, são o retrato de um modelo industrial obrigado a mudar.
O problema é mais profundo, na medida em que a economia alemã, motor da indústria europeia, está a perder capacidade para competir. No primeiro semestre deste ano, a Alemanha cresceu apenas 0,4% no primeiro trimestre e 0,3% no segundo. A Volkswagen é, por isso, o símbolo mais visível de uma dificuldade maior: a Europa passou demasiados anos a discutir a transição energética como se fosse apenas uma agenda ambiental, quando ela é, cada vez mais, uma condição de sobrevivência económica.
Durante anos, a Alemanha beneficiou de energia relativamente barata, de uma indústria exportadora fortíssima e de uma relação comercial profícua com a China. Esse equilíbrio mudou. A energia ficou mais cara, a China passou a ser um concorrente direto, e a indústria europeia percebeu que já não pode competir no mundo de hoje com os instrumentos de ontem.
É aqui que a transição energética deve ser vista com mais realismo. A resposta à crise industrial europeia não passa por abrandar a aposta nas renováveis. Passa por acelerá-la. Quanto mais dependente a Europa estiver de combustíveis fósseis importados, mais vulnerável será aos choques externos, à volatilidade dos preços e à chantagem geopolítica.
A energia é hoje um ativo estratégico na produtividade das economias e já não pode ser vista apenas como um custo na despesa corrente das empresas. Define onde se instala uma fábrica, onde se produz tecnologia, onde se criam empregos qualificados e onde se fixa investimento. Quem for competitivo no fornecimento de energia terá uma vantagem decisiva na nova economia industrial.
Portugal é um bom exemplo neste capítulo. Graças ao investimento feito nas renováveis e às condições naturais de que dispõe, o país conseguiu tornar-se competitivo no contexto europeu. Em 2025, cerca de dois terços da eletricidade produzida em Portugal teve origem renovável. E, num continente em que o preço da energia continua a pesar fortemente sobre a indústria, esta realidade deve ser encarada como uma vantagem estratégica nacional.
No entanto, a transição energética exige redes mais fortes, melhor interligação, armazenamento, licenciamento mais rápido e rigor ambiental. Também exige uma política industrial europeia capaz de ligar energia limpa, produção tecnológica e cadeias de valor. Mas, mesmo perante o imediatismo de responder a uma crise, o caminho não pode ser voltar ao passado. O caminho tem de ser fazer melhor, mais depressa e com maior ambição.
A queda do custo de produção da energia solar e eólica na última década tornou esta escolha ainda mais evidente. Em 2024, a energia solar fotovoltaica foi, em média, 41% mais barata do que a alternativa fóssil mais competitiva, e a eólica terrestre 53% mais barata. As renováveis deixaram de ser apenas uma opção ambientalmente desejável que nos coloca perante um dilema de escolher o futuro do planeta em detrimento do nosso crescimento económico. Na verdade, as energias renováveis são hoje uma infraestrutura essencial para a competitividade.
A crise da Volkswagen deve, por isso, servir de aviso. Porque se a Europa não conseguir garantir energia competitiva, inovação tecnológica e capacidade industrial, continuará a perder terreno face aos EUA e à China. E quando perde indústria, perde também autonomia, emprego, conhecimento e influência.

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