O Portugal dos Pequenitos
“Scale, and with it capital and skills are going to matter more and more to face rising global competition – who are all scaling up. Here at JP Morgan we are prepared – we have huge economies of scale, a fortress balance sheet and a great, trusted brand”
Jamie Dimon, JP Morgan Chase CEO, 2025
Escala empresarial, a raiz da debilidade da economia portuguesa
Portugal tem um número extraordinário de empresas, mas a larga maioria não tem dimensão, a sua competitividade é limitada e a produtividade do país está cada vez mais na cauda da UE.
A UE tem desde logo um problema sério de falta de escala, mas a situação em Portugal é mais grave: nas quatro maiores economias europeias bastam 26 empresas para criar 10 M€ de PIB e em Portugal são necessárias 36. Este simples indicador coloca-nos na 16ª posição da UE-27, abaixo da média e muito atrás de países com população próxima ou inferior à nossa, como Bélgica (17,5), Grécia (19,3), Dinamarca (22,8), Chipre (32,7) ou Estónia (34). Isto demonstra que a nossa economia assenta numa estrutura empresarial subdimensionada, sem os gigantes multinacionais que Irlanda ou Holanda criaram ou atraíram de fora.
É incontestável que a competitividade e a produtividade vivem de mãos dadas e são o gold standard para apreciar o desempenho de uma economia. E na sua raiz está, de forma incontornável, a escala do tecido empresarial. É aqui que se tem de agir… mas não é fácil alterar um paradigma de aversão á dimensão tão enraizado como o nosso.
Este artigo não pretende fazer mais diagnósticos. Quero entrar no pântano e entender como se pode navegar nas águas que nos atolam, oferecendo um contributo para um novo modelo que crie mais escala empresarial, um plano de ação exequível que faça com que nossa economia comece a convergir de forma substancial para a média da UE. E que a seguir nos permita ombrear com o topo do ranking europeu.
A produtividade não é senão uma consequência da escala
Representada pelo PIB por hora trabalhada, a produtividade mede o valor que uma economia consegue gerar por unidade de trabalho, incorporando capital, tecnologia, organização e outros fatores produtivos. Em Portugal, tornou-se quase uma obsessão, com décadas de estudos de académicos de renome, sobretudo grandes nomes estrangeiros que enchem auditórios, mas nem sempre com um conteúdo à altura das expetativas. Em geral, todos tentam explicar o fosso da produtividade em Portugal: 68,2% da média europeia em PPC, e uma medíocre 23ª posição no ranking da UE-27. Pior – ano após ano afastamo-nos cada vez mais da UE, mais um triste fado que nos embala no comodismo de nada se poder fazer.
Menos evidente é responder ao grande dilema do homem da rua — se os trabalhadores portugueses lá fora são dos melhores e mais produtivos, por que se arrasta Portugal tão abaixo da Europa? O trabalhador português trabalha mais e melhor fora de Portugal? A cultura e o músculo das empresas alemãs, francesas ou suíças são superiores, mas só porque têm mais escala e sabem retirar mais valor das horas de cada trabalhador. E por isso pagam melhores salários, porque têm afinal a escala que Portugal não tem.
A relação entre escala e produtividade está límpida nos números da OCDE: em 2024, a produtividade média nas PME valia apenas 65% da das grandes empresas. É verdade que nem todas as grandes empresas são melhores e o cemitério está cheio delas. Mas a escala é essencial: uma economia sem uma base forte de empresas de dimensão nunca será produtiva ou competitiva.
As empresas portuguesas reconhecem as vantagens da escala mas congelam em vez de agir, há uma estranha e poderosa relutância em crescer
Na economia de um país, a escala é decisiva porque a capacidade financeira, tecnológica, comercial, negocial, humana e traz capacidade de investimento para atrair os melhores, oferecer salários estimulantes, reduzir custos, ter um superior conhecimento e domínio do mercado e incentivar crescimento endógeno ou exógeno… Numa palavra, quem tem escala tem tudo – e, quem não tem, ou atua num nicho muito protegido como a Nelo Kayaks, a Polisport, a AMOB ou a Fravizel, ou então está condenado à extinção, daqui a um ano ou daqui a uma geração.
E então por que não crescem as empresas portuguesas? A maior parte das empresas nasce com um excelente modelo e um empresário fundador entusiasmado e comprometido, mas, a dada altura, a empresa vai deixando de crescer e acaba por estagnar. Até podem ser muito rentáveis, mas os acionistas parecem mais confortáveis a jogar no pó dos campos pelados da segunda divisão distrital do que a tentar montar uma equipa para ganhar a Primeira Liga. Têm a estabilidade de dividendos que permite à família uma vida desafogada e crescer mais tem risco, dá trabalho, é incómodo e pode causar atritos na boa relação no seio da Família. Esta atitude é terrível, os acionistas têm de evoluir ou ceder o controlo da empresa.
É possível lançar Portugal num trajeto irreversível de conquista de mais escala? E se sim como?
Quando analisamos o que se tem feito em Portugal vs. outros países de dimensão populacional similar, emerge uma série de medidas que ainda não foram executadas ou avançaram pequeninas e tímidas, sem expressão e sem impacto. Ou se ignora ou se foge da evidência de que um esforço desta natureza é hercúleo e só resulta com um consenso social, político e empresarial alargado. Para se ter uma ideia do esforço e do âmbito dum programa destes, há seis medidas que considero essenciais para o programa:
Gerar e respeitar o sentido de prioridade e de urgência
A escala empresarial e a produtividade nunca poderão crescer enquanto estiverem afetadas pelo medo, pela resignação, pela falta de garra e pelo comodismo. Precisamos de autoconfiança e ambição e dum líder da empresa que crie um batalhão de guerreiros capaz de atacar o adversário com garra e ganhar por seis a zero. E o governo e as associações empresariais têm de dar o exemplo e liderar o programa com o entusiasmo necessário… senão para que servem?
Parar de nos enganarmos a nós próprios
Temos de parar de fingir que certas ações nos fazem crescer. Internacionalizar, por exemplo, não é exportar contentores, é conquistar mercados com uma base local greenfield ou comprada. Impõe-se uma atitude realista doa a quem doer, senão nada disto é sério, muito menos sustentável.
III. Não vacilar no espírito pragmático
Já chega de fazer planos a longo prazo, tantas vezes a melhor desculpa para mostrar trabalho sem ter de fazer nada nos próximos anos. É essencial um quadro de medidas simples e eficazes de curto prazo com incentivos agressivos e estimulantes.
Incentivos públicos canalizados para a excelência de desempenho empresarial
A missão do Estado não é intervir no capital de empresas privadas seja qual for o motivo, o seu foco está em estimular as empresas de maior potencial de ganho de escala e de construção de valor. Falamos muito de escala mas um EBITDA saudável é fundamental: é o combustível para o próximo ciclo de investimento, para a produtividade e para o nível salarial. E os rácios-chave, como EBITDA/Vendas, Dívida/EBITDA e o múltiplo de EBITDA na valorização duma empresa devem ser as métricas-chave para a atribuição de subsídios e dos prémios das noites de gala.
Atração de investimento estrangeiro estrutural e de escala criando condições
para competir com os melhores destinos – e vencer
Tão óbvio e estamos a tentar – mas não chega, temos de tentar com mais força.
Potenciar o crescimento exógeno das empresas de maior potencial
Apoiar operações de M&A em que as empresas atraiam os maiores grupos setoriais, mas, ao mesmo tempo, promover a integração de concorrentes locais. E fortalecer a ainda frágil expressão de Private Equity em Portugal publicitando os benefícios e eliminando os estigmas.
Haverá seguramente outras medidas, mas estas já deixam uma ideia do nível de disrupção que este programa vai inevitavelmente implicar. É uma autêntica revolução, mas é essencial.E demora tempo – “nada disto se faz em 90 dias; ter uma base empresarial globalmente competitiva é um trabalho hercúleo de décadas que exige uma intensa mobilização nacional pública e privada. Mas que se comece já com o inevitável sentido de urgência.” (Robinson e Palma, 2026)
Haja determinação, vontade e pragmatismo de todos, Portugal pode mudar.
Portugal tem um défice de escala cada vez maior que provoca menor produtividade, menor capacidade de investimento, menor penetração estrutural nos mercados externos ou menor capacidade para pagar salários decentes. Podemos continuar a ser um país de pequenas e médias empresas onde umas poucas até têm boas posições em nichos ou presença marginal em mercados grandes. Ou pode tornar-se um país de empresas grandes que dominam posições de relevo em mercados grandes e atrativos. A diferença entre os dois modelos poderá determinar o lugar de Portugal na Europa durante as próximas décadas. A escolha é de todos nós: contribuintes, eleitores, trabalhadores públicos e privados ou empresários.
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