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Thinking Heads Portugal: “O nosso talento português tem aqui uma janela para o mundo”

Thinking Heads Portugal: “O nosso talento português tem aqui uma janela para o mundo”

O talento português entrou oficialmente na rota dos oradores internacionais com uma parceria realizada entre a consultora global Thinking Heads e a portuguesa AMP Associates. São 50 os especialistas portugueses, entre os quais José Manuel Durão Barroso, Marta Temido, Ângela Lucas e Paulo Portas, que se juntam ao leque de cinco mil oradores internacionais da Thinking Heads Global.
Ao Jornal Económico (JE), Rita Serrabulho, a cara e a voz da Thinking Heads Portugal, fala das oportunidades e desafios deste mercado em Portugal, alertando para aquele que será um traço cultural que distingue Portugal dos demais países neste setor: “Temos consciência de que é um desafio valorizar o pagamento de um orador. É uma mudança de paradigma. Tenho plena consciência que seremos vanguardistas e que teremos um desafio enorme nessa sensibilização”.
Os fees variam entre 2.500 euros e um milhão de euros, conforme o grau de experiência, sendo as áreas da política e da economia as mais requisitadas, com destaque para o crescimento da área da defesa, segundo a cofundadora e CEO da AMP Associates.
Numa conversa dividida em duas, Rita Serrabulho aborda o propósito e metas daquele que é o primeiro speakers bureau nacional, que, em estreita articulação com a equipa de Espanha, abre caminho e cria condições para o talento português ter melhores condições para ser “competitivo com o talento internacional”, isto numa altura em que Portugal já se assume como um hub de eventos.
Como é que esta parceria se proporcionou?
Surgiu por uma necessidade orgânica no âmbito da AMP. O nosso propósito tem como como principal motivação dar voz aos líderes e às empresas portuguesas em Portugal e no mundo. No fundo, esta missão da Thinking Heads acaba por se encaixar neste sentido. A Thinking Heads tem cinco mil oradores especialistas de todo o mundo, das mais diferentes áreas. Não existia em Portugal um palco desta dimensão internacional do ponto de vista de oradores. Os oradores são muito requisitados para conferências, fóruns e eventos dos nossos clientes de comunicação e das empresas portuguesas. Faltava aqui este complemento de dar uma dimensão estratégica e mais global aos eventos. Também é a nossa missão neste projeto da Thinking Heads colocar na rede internacional oradores portugueses. Foi um pouco essa esse o desafio: escolher, dentro do que existe em Portugal, o melhor talento que representa as suas diferentes áreas de especialização.
E de que áreas?
Estamos a falar, naturalmente, da cultura, da política, da economia, da gestão, da ciência, da inovação. E foi um desafio muito interessante. Colocámos já 50 portugueses junto de pares internacionais. E estamos a falar de nomes muito conhecidos mundialmente nestas diferentes áreas. Este projeto vem complementar aquilo que já fazíamos também na AMP.
E como é que funciona este recrutamento, digamos assim?
Convidamos e vamos continuar a convidar um conjunto de talentos portugueses de várias áreas para se juntarem a esta rede, de forma a que possam ser convidados e consultados por qualquer organização que decida organizar um determinado evento.
Estamos em mais de 40 países e, portanto, o nosso talento português tem aqui uma janela para o mundo, onde poderá também levar aquilo que é o seu conhecimento e as suas áreas de especialização a outras geografias.
Começaram com 50 nomes. Quais é que são as expectativas de alargamento deste leque de oradores?
Nós queremos manter o critério da especialização, do conhecimento; pessoas que sejam reconhecidas pelo seu trajeto, o seu track record e notoriedade. De forma alguma queremos encher a rede só porque sim. Procuramos dar resposta, sempre que se justificar e a existir uma necessidade maior ou porque há uma procura maior de determinado especialista para determinado evento. Se não tivermos na rede, tentamos perceber em Portugal quem está a trabalhar dentro dessas matérias e é especialista com provas dadas.
Naturalmente que as áreas da inteligência artificial (IA), liderança e motivação são aquelas que estão, digamos, no top da procura. Energia e geopolítica, por razões óbvias, têm sido também bastante procuradas, quer a nível de oradores portugueses, quer internacionais.
Quanto aos políticos, é mais difícil convencê-los a aceitar o convite, comparando com outros setores?
Não, de todo. Foram convites que até agora têm sido muito bem recebidos. Veem com muito interesse a oportunidade de serem mais participativos naquilo que são os eventos e as oportunidades em Portugal, mas também partilhar as suas experiências e as suas áreas de especialização e o seu conhecimento com outros pares de qualquer parte do mundo.
Em relação ao consenso na forma como tomam estas decisões no âmbito da parceria com a Thinking Heads, como tem sido?
É uma parceria de enorme confiança. A Thinking Heads Global confia nos critérios de gestão e de liderança da Thinking Heads Portugal e, portanto, deixa ao nosso critério aquela que é a seleção dos portugueses que entendemos fazerem sentido integrar a rede. Nunca foi um tema. A necessidade nasceu de uma forma orgânica. Nós na AMP já tínhamos muitos pedidos de oradores para eventos que os nossos próprios clientes organizavam (políticos, empresários, escritores…).
Pensei “se já fazemos isto, por que não aproveitar este crescimento dos eventos em Portugal?”. Em 2022, Portugal ocupou a sexta posição, do ponto de vista dos congressos, como o país mais apetecível para a organização de eventos.
Como se explica? Também pelo efeito Web Summit? O setor dos eventos valia 443 milhões em 2021.
Naturalmente que a Web Summit contribui em termos de visibilidade e posicionamento para isso. Mas não só. Do ponto de vista das infraestruturas,  temos tido uma melhoria, uma modernização e uma versatilidade que permite logisticamente oferecer essas condições. O parque hoteleiro também tem constantemente aumentado. Depois, temos uma excelente relação custo-benefício, e uma localização estratégica e conectividade com o mundo. Estamos aqui na ponta da Europa e do ponto de vista geográfico estamos num local que torna tudo mais fácil. E há algum apoio institucional dado pelo próprio Governo, nomeadamente com o programa Portugal Events, do Turismo de Portugal, que apoia muito a chegada de eventos ao nosso país. Todas estas variáveis contribuem para que Portugal se tenha tornado num hub para a realização de eventos.
Já tínhamos efetivamente a infraestrutura, a logística e as condições para o fazer, por que não juntar-lhes agora também o conteúdo? A tendência é continuar a aproveitar esse parque de eventos que está instalado e, portanto, o que nós viemos aqui fazer é complementar o conteúdo desses eventos e permitir que haja um melhor acesso ao conteúdo desses eventos, quer do ponto de vista de speakers portugueses, quer internacionais. Nós estamos a tentar aproveitar uma tendência de mercado que é absolutamente óbvia. Portanto, acreditamos que, como é natural, esse mercado continuará a crescer e que nós, também à boleia desse crescimento, possamos ter o nosso espaço.
Já chegamos com algum atraso a este mercado?
Nós temos talento muito bom há muito tempo. O que temos é muito talento disperso pelo mundo. Talvez fizesse falta uma agregação e uma sistematização deste talento e, depois, gerar as condições para que eles possam estar mais expostos à partilha desse mesmo talento. Creio que é isso que a Thinking Heads vem acrescentar. Portanto, agregar, sistematizar e gerar as oportunidades para que o nosso talento possa ser competitivo com o talento internacional, digamos assim.
O selo Portugal vale muito? A nacionalidade portuguesa?
Acho que o valor está nas pessoas e naquilo que são as suas capacidades, conhecimento, trajeto, experiência, a sua capacidade de influência e de liderança e as suas vidas dedicadas a determinadas áreas. A oportunidade está nas pessoas, não está em Portugal. Naturalmente, Portugal beneficia por estar representado noutras geografias, em matérias às vezes tão relevantes para o desenvolvimento das sociedades em estar representado por portugueses. E isso é algo que me motiva bastante e que me enche de orgulho. As oportunidades que possam vir a ser ocupadas noutras geografias por portugueses são naturalmente uma representação de Portugal. E isso contribuirá, obviamente, para o nosso posicionamento.
Voltando aos convites, há linhas vermelhas?
A Thinking Heads tem um posicionamento, tem uma cultura própria, e sabe com que tipo de conhecimento é que quer contar na sua rede. Eu diria que as balizas são essas. Não nos interessa ter uma rede extensa só porque sim. Interessa-nos ter a melhor rede, com o melhor talento, para que as pessoas possam encontrar a resposta àquelas que são as suas necessidades. A ideia é acrescentar os melhores portugueses.
E na questão da paridade? Que regras/critérios têm?
Tivemos a preocupação, naturalmente, de ter homens e mulheres. Confesso que tem sido mais desafiante do ponto de vista das mulheres. Há menos mulheres líderes, políticas, gestoras. A quota aumenta quando passamos mais para as áreas da sustentabilidade e da cultura. Mas do ponto de vista quer da liderança, quer político, quer empresarial, apesar de a rede estar estar muito equilibrada, foi mais difícil para estas áreas. Mas faz parte da realidade que conhecemos. Os cargos de liderança são ocupados maioritariamente por homens, como todos sabemos, portanto é natural que haja mais figuras de destaque nessa área. Mas na ciência, por exemplo, está bastante equilibrado.
Têm o cuidado de ir buscar pessoas de diferentes cores políticas. 
Não de todos, mas de diferentes quadrantes políticos. Isto é uma organização apartidária. E, naturalmente, se queremos ter diferentes visões, temos que ter diferentes especialistas, não apenas na política, mas em qualquer área. Tivemos, como é óbvio, esse cuidado e basta olhar aqui para a nossa lista. Temos um equilíbrio que nos parece bastante bem conseguido desse ponto de vista.
Pretendem expandir na lusofonia? 
Acabámos de abrir em Portugal. Neste momento, estamos focados em consolidar a nossa rede. Mas sim, estrategicamente estamos já a trabalhar para aqueles que são os países lusófonos, de forma a permitir-lhes também um mais fácil acesso a oradores internacionais.
Com a chegada a Portugal, a Thinking Heads sabe que abre também uma via para chegar a esses mercados.
Temos uma proximidade da língua, temos uma proximidade institucional, e até alguma proximidade empresarial em algumas dessas geografias. E, portanto, são barreiras mais facilmente ultrapassáveis a partir do momento em que sejam construídas pontes a partir do nosso país.
Estrategicamente, já estamos a trabalhar para que a Thinking Heads se instale nessas geografias, não apenas abrindo a janela de oportunidade para que estejam presentes mais oradores internacionais – e portugueses – nesses países, mas também encontrar talento nessas geografias que possa estar disponível para o mundo.
E já há convites feitos?
Há conversações, mas neste momento estamos focados na consolidação da rede portuguesa.
De que valores falamos por orador? Como se categorizam os fees?
Os fees vão desde 2.500 euros a um milhão de euros. Não se categorizam por setor, mas pelo grau de experiência.
Temos consciência de que é um desafio em Portugal valorizar o pagamento de um orador. É uma mudança de paradigma. Diria quase cultural, fazer as empresas e as organizações perceberem que o facto de terem um determinado especialista nos seus eventos, ele tem o direito e merece ser remunerado pela partilha daquilo que construiu ao longo da sua vida. Tenho plena consciência que seremos vanguardistas e que teremos um desafio enorme nessa sensibilização. Mas é o mercado a trabalhar. Estas pessoas investiram muito nas suas vidas e nas suas especializações e, portanto, estão aqui porque acham que também merecem ser remuneradas por essas participações. Claro que vai haver uma estranheza inicial, porque muitas das organizações não estão habituadas a pagar pela participação dos speakers.
Sobretudo em Portugal.
Sim. Em Espanha isto já não acontece. Noutras geografias isto não acontece. É uma prática natural as empresas pagarem para determinados especialistas locais ou internacionais participarem nos seus eventos. Vamos ver como é que reage o mercado português. Eu estou otimista, mas acho que essa sensibilização e essa compreensão acontecerá. É verdade que teremos desafios; não há muitas organizações que possam pagar meio milhão de euros para um orador de altíssimo nível internacional.
Há flexibilidade ou são rígidos nos valores?
Não somos nós que estabelecemos os valores. Os oradores é que é que definem aquilo que valem. Mas estamos em crer que esta partilha de conhecimento, quando se vive num mundo global, também vai enriquecer muito o país. Ou seja, abrir as portas e ter um acesso mais facilitado a outros pontos de vista, outras visões, outra amplitude de conhecimentos e que possamos partilhá-lo localmente é uma valorização para as pessoas que cá estão. Estou plenamente convencida que isso também vai ser valorizado e que essa troca, fluidez e partilha de conhecimento será nos dois sentidos, e será muito bom também Portugal abrir-se a esta realidade. Se tem um preço? Naturalmente. Mas também tem um retorno muito interessante.
 
A Thinking Heads Portugal apresentou-se oficialmente ao mercado no final de setembro, no novo espaço BUGIO, em Oeiras, com uma amostra de oradores portugueses convidada a partilhar a sua visão e a sua leitura sobre “o poder do conhecimento numa nova ordem mundial”.
Nas palavras de Rita Serrabulho, trata-se de uma “nova era deste setor em Portugal”.” É um mercado que, de facto, não está ainda profissionalizado. Começamos da melhor maneira, acrescentando aos cinco oradores que já existem os primeiros 50 portugueses especialistas nas suas áreas”.
Como é que esta parceria faz mexer este mercado dos oradores?
Nós temos uma missão de mudar um pouco aquilo que era o paradigma do mercado. Normalmente funcionava muito por contactos de pessoas. Queremos, no fundo, acrescentar valor ao mercado, não apenas de colaboradores nacionais, mas internacionais, para trazer mais conhecimento. Por outro lado, dar também palco internacional aos oradores portugueses, ao talento português.
É essa a nossa ambição. Portugal está muito bem posicionado nos eventos. Tem estado a crescer imenso na última década. Esta é uma oportunidade para um player como este entrar e trazer não apenas conhecimento através de oradores internacionais – e a nossa rede abrange tudo o que é o mundo do espetáculo, da Academia, Prémios Nobel, ex-Presidentes da República e primeiros ministros – que podem trazer outras pontos de vista aos imensos temas que povoam a sociedade.
Quais é que são os temas que estão a marcar a agenda e, nesse sentido, os oradores mais requisitados?
Na área da motivação, são sempre muito solicitados, mas naturalmente a geopolítica e a inteligência artificial. E a defesa passou a ser um tema também muito solicitado. São preocupações que as sociedades neste momento têm e querem respostas, não apenas para saber como se prepararem e como lidarem com estas tendências, mas para que possam também preparar as suas organizações para melhor lidar com elas.
Na defesa, então, o leque de speakers disponíveis deverá aumentar?
Sem perdermos o nosso posicionamento, ou seja, o posicionamento da Thinking Heads Global, a ideia é continuar a fazer crescer este leque de oradores, não apenas com o talento que já existe e que está instalado, mas também fazendo uma auscultação àquilo que é o novo talento emergente em Portugal.

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