Dívidas soberanas em alvoroço
Voltou a escalada da guerra no Médio Oriente. Sem fim à vista, o conflito está a empurrar os preços do petróleo para perto dos 100 dólares. As notícias não são boas para as famílias e empresas. As novas pressões inflacionistas deixam antever uma subida dos juros em setembro. O impacto pode chegar ao crédito à habitação e às poupanças das famílias. Nas empresas, teme-se impactos gravosos nos custos de produção.
Os efeitos do reacender das tensões não se ficam por aqui. Os juros da dívida soberana estão a disparar na Zona Euro, no Reino Unido e no Japão, pressionados pela subida do petróleo e pela expectativa de novas subidas de taxas do BCE e da Fed. Com a fuga de investidores e venda massiva, as yields da dívida atingiram máximos de 15 anos.
Portugal não é exceção. Os juros da dívida atingiram esta terça-feira o valor mais alto da última década, com a subida de mais de três pontos base. O valor mais elevado desde 2017. Ainda assim, é dos países menos afetados na Zona Euro pela subida do custo da dívida, garante DBRS. A agência de notação diz que, tal como Grécia e Espanha, estamos protegidos por dinâmicas positivas no crescimento económico, no endividamento e nas contas orçamentais. É o lado bom da nova crise de dívidas, já não fazemos parte do grupo de países com risco para o euro. Os famosos PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) que outrora estiveram na mira dos investidores devido ao elevado endividamento.
Agora, estão outros a ser visados, os BIF (Reino Unido, Itália e França), que sentem a pressão dos mercados obrigacionistas, com muitos investidores a querer vender. E não só. Um pouco por todo o mundo, está a ficar mais caro para os Estados financiarem a própria dívida por causa da inflação. A onda de vendas de obrigações à escala global levou, no arranque deste mês de setembro, os custos de financiamento de referência da Alemanha para o nível mais alto em 15 anos, com França, Itália e Países Baixos a registarem subidas igualmente acentuadas. Também o juro da dívida pública japonesa a 10 anos atingiu 3% pela primeira vez desde 1996.
Vem à memória a dolorosa crise das dívidas soberanas da Zona Euro. São traumas regionais que têm agora um padrão diferente: a onda de vendas de obrigações à escala global. É o receio que a subida dos preços da energia alimente a inflação em todo o mundo, o que poderá levar os bancos centrais a aumentarem as taxas de juro.
Os investidores estão, por isso, a exigir uma remuneração maior para deter dívida pública num contexto de inflação mais persistente, petróleo mais caro e contas públicas sob pressão. Um cocktail explosivo. Levou as yields a níveis que, há poucas semanas, pareciam distantes. Acabaram por aliviar ao sétimo dia. Foi posto à prova o papel das obrigações do Estado como ativos de refúgio em períodos de incerteza. Os investidores anteciparam que vão perder dinheiro com as obrigações já compradas a um juro mais baixo. Temem o fantasma da estagflação face aos conflitos à escala global e à subida dos preços da energia. Receiam o pesadelo de qualquer banco central: a combinação de inflação elevada com crescimento económico fraco ou nulo.
Há uma grande agitação nos mercados da dívida de olhos postos numa Casa Branca belicista. O epicentro da pressão sobre a inflação e juros. Soam os alarmes: o mais provável é ter juros altos por muito tempo. O dinheiro barato acabou!
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