Cuidar da saúde ou cuidarem-nos da saúde? Eis a questão
Recentemente, numa reunião com profissionais do setor da saúde, surgiu uma pergunta simples: qual é hoje o maior problema da saúde em Portugal? Durante anos a resposta parecia óbvia. Falávamos das listas de espera do SNS. Das dificuldades de acesso. Das urgências congestionadas. Mas algo mudou.
Hoje, os mesmos problemas começam a refletir-se também no setor privado. Consultas que demoram meses. Especialidades com capacidade esgotada. Dificuldade crescente em encontrar resposta rápida mesmo para quem dispõe de seguro de saúde.
A situação levanta uma questão desconfortável. Se até profissionais de saúde, gestores hospitalares e pessoas com acesso privilegiado ao sistema enfrentam dificuldades de acesso, será que o problema se resume à falta de médicos?
A resposta merece uma reflexão mais profunda. Em teoria, Portugal não apresenta uma escassez de médicos quando comparado com muitos países europeus. No entanto, a experiência dos cidadãos aponta noutra direção. Há mais procura do que capacidade de resposta. E isso obriga-nos a colocar hipóteses menos populares.
Talvez uma parte do problema resida na organização dos recursos disponíveis. Talvez tenhamos profissionais altamente qualificados a dedicar uma parte excessiva do seu tempo a tarefas administrativas e burocráticas. Talvez os modelos de gestão das organizações de saúde continuem demasiado centrados em estruturas e demasiado pouco centrados em fluxos, produtividade e experiência do doente. Mas talvez seja também necessário discutir uma questão ainda mais sensível: o comportamento dos próprios utilizadores.
Nos últimos anos assistimos a uma democratização extraordinária do acesso aos cuidados de saúde privados. Isso é, naturalmente, positivo. Mas também observamos um fenómeno curioso. Quando algo se torna mais acessível, tende a ser mais utilizado. Nem sempre porque é necessário. Muitas vezes simplesmente porque está disponível.
Todos conhecemos exemplos. Recorrer a uma urgência para obter um documento administrativo. Solicitar uma consulta domiciliária para situações ligeiras que poderiam esperar ou ser resolvidas de forma mais simples. Procurar várias opiniões médicas para o mesmo problema sem que exista uma necessidade clínica evidente.
O tema é incómodo porque ninguém gosta de ouvir que pode fazer parte do problema. Mas talvez seja precisamente por isso que importa discuti-lo.
A saúde enfrenta um fenómeno que os gestores conhecem bem: quando um recurso parece abundante ou de baixo custo para o utilizador final, a procura tende a crescer de forma desproporcionada. O desafio torna-se ainda mais complexo porque este aumento de procura ocorre simultaneamente com outras tendências estruturais.
Vivemos mais anos. Temos mais doenças crónicas. Temos expectativas mais elevadas. Aceitamos menos incerteza.
E a relação tradicional entre médico e doente mudou profundamente. Felizmente, o cidadão é hoje mais informado e mais participativo. Mas, por vezes, também mais ansioso, mais exigente e menos tolerante à espera ou à dúvida.
Nenhuma destas realidades, isoladamente, explica a pressão sobre o sistema. Juntas, talvez expliquem uma boa parte dela. Os desafios complexos raramente resultam de uma única variável. São normalmente consequência da convergência de múltiplos fatores. A saúde não é exceção.
Precisamos de melhor gestão. Precisamos de mais literacia em saúde. Precisamos de usar melhor os profissionais altamente qualificados. Precisamos de processos mais eficientes. E precisamos também de uma maior responsabilidade individual.
Porque existe uma verdade simples que tendemos a esquecer. Todos queremos ter acesso imediato a cuidados de saúde quando deles precisamos. Mas a melhor estratégia continua a ser precisar deles o menos possível.
Há alguns dias esbocei uma campanha de prevenção cuja mensagem era deliberadamente provocadora: “Cuida da tua saúde. Ou então cuidamos nós.” A frase pode parecer humorística, mas encerra uma realidade séria.
Os hospitais são fundamentais. Salvam vidas todos os dias. Mas ninguém quer realmente passar tempo num hospital. Ninguém deseja estar internado, rodeado por máquinas, horários, ruído, exames e limitações.
Por isso talvez devêssemos olhar para os cuidados de saúde da mesma forma que olhamos para um seguro. Reconhecemos o seu valor. Queremos que existam. Queremos poder contar com eles. Mas esperamos sinceramente nunca ter de os utilizar.
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