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Por que precisamos de conservadoras?

Por que precisamos de conservadoras?

A seguinte reflexão não versa sobre as motivações e objectivos do movimento de Mulheres Conservadoras Portugal. Desde logo porque, caso os meios de comunicação e os apressados caluniadores ainda não tenham percebido, o seu lançamento oficial está previsto apenas para Novembro e, até lá, não existem informações públicas suficientes para conhecer em detalhe a sua visão e missão. Note-se apenas que o rápido repúdio evidenciado pela opinião pública mais vocal acabou por ser caricato, numa época marcada por tantos desequilíbrios emocionais, espirituais, familiares e demográficos. Afinal, vivemos num tempo de dissolução dos relacionamentos, solidão, conflitos familiares, dificuldades em conciliar trabalho e família, crescente hostilidade entre os sexos desde a adolescência e uma natalidade persistentemente baixa.
Ainda assim, parece que temos de acreditar que está tudo bem, que nunca fomos tão felizes e quem se mobiliza na sociedade civil para apresentar visões alternativas sobre estas realidades, recebe hostilidade, intolerância e escárnio. É como se abordar estes assuntos despertasse um incómodo em quem tem pregado a fé secular no progresso inevitável da história, considerando-se qualquer desvio ou inversão de marcha como um ataque à dignidade humana.
Dado que o termo “conservador” é dado a confusões e divergências, vale a pena começar por uma noção (discutível, mas necessária) daquilo que caracteriza uma mulher conservadora. Esta mulher apresenta uma disposição prudente perante grandes mudanças, como a revolução sexual ou a diluição dos papéis familiares; tem consciência das boas e más inclinações humanas e de como todos somos falíveis; trata a família e a maternidade como bens sociais, e não como meras escolhas privadas; não forma identidade invejando as características do homem; não sente a interdependência familiar como forma de opressão; valoriza a sabedoria das instituições; sabe que a realização plena vem da dádiva aos outros, e não dos bens materiais, da beleza ou do trabalho; e reconhece que homens e mulheres não atravessam o tempo da mesma maneira. Lamento desapontar os que esperavam uma alusão aterradora àquela distopia da Netflix, mas aqui não se interpreta a realidade através de obras de ficção nem de espantalhos.
Não deverá ser difícil imaginar os desconfortos que a actual ordem social pode infligir numa mulher conservadora. A provocação que os críticos mais repetem para procurar silenciar opiniões, é a de que as mulheres conservadoras poderão sê-lo recolhidas nos lares, em vez de virem para o espaço público. Ora vejamos: primeiro, qualquer pessoa que lute por ideais sociais tem direito à reunião com os seus pares e a lutar para que vinguem no combate cultural que nunca cessa; segundo, visto que as mulheres sempre tiveram uma influência na formação dos costumes, importa perguntar que visão do homem, da mulher, da família, do casamento, da maternidade e da responsabilidade queremos que seja transmitida; terceiro, não é acessível a qualquer mulher dedicar-se exclusivamente à vida doméstica quando assim o deseja, pois a liberdade de escolha não se mede apenas pela ausência de uma proibição formal, mas também pelas condições reais em que essa escolha pode ser exercida.
Este terceiro ponto é crucial porque responde a uma provocação muito desonesta. Primeiro tornou-se necessário que ambos os cônjuges trabalhassem e, posteriormente, chamou-se a isso emancipação. Dizer a uma mulher que é livre de se dedicar à família quando as próprias condições económicas e sociais tornam essa opção cada vez mais difícil é um pouco como dizer a um liberal que é livre de viver segundo os seus princípios num regime totalitário socialista, ou desafiar alguém a viver da agricultura de subsistência num sistema económico que a torna impraticável.
Existem diferentes sensibilidades dentro da categoria “conservadoras” e as prioridades não serão as mesmas para todas as mulheres, mas podemos esperar contribuições valiosas de consciências empenhadas em revitalizar o sentido da vida, das famílias, da educação e das relações sociais. Por terem uma visão realista da falibilidade humana, as conservadoras não se agarram a promessas de justiça irrealistas nem lançam culpas pelas suas desilusões em estruturas de opressão e nos homens em geral. Então, quando algo vai mal, examinam os desequilíbrios do seu todo para descobrirem um caminho para o reequilíbrio. Por exemplo, se pensarmos na exaustão feminina pela acumulação de “duplo fardo”, por onde passa a mudança? De que forma podemos afastar-nos de um modelo económico que incentiva as carreiras intensivas a tempo inteiro? Será que os avanços da robótica poderão ser um aliado neste processo de alívio de pressão laboral e de aproximação à vida familiar? Incentivos fiscais poderão favorecer que um só provedor sustente a sua família?
Noutro domínio, um dos sinais mais alarmantes do nosso tempo é a “recessão dos relacionamentos”. Conforme explica Anna Rotkirch, investigadora do Population Europe, os jovens europeus começam agora menos relações duradouras e comprometidas do que as gerações anteriores quando tinham a mesma idade. Será que estas dificuldades de relacionamento se devem a falta de competências sociais ou será que rapazes e raparigas estão mais antagonizados e desconfiados do que nunca? Que tipo de expectactivas é que os jovens imaginaram para um relacionamento? Que exemplos apreenderam no seu núcleo familiar? Que tipo de valor associam a um relacionamento amoroso e a um compromisso duradouro? Será que o foco na carreira entorpece os instintos dos jovens?
E no domínio reprodutivo? Que consequências terá uma sociedade que separa cada vez mais sexualidade, amor, compromisso e reprodução? Que significa, afinal, celebrar a “maternidade independente” como se a ausência de um pai fosse uma conquista? Que sinal estamos a dar às mulheres quando apresentamos como emancipação aquilo que, durante séculos, teria sido visto como uma circunstância difícil e indesejável? E que espécie de sociedade estaremos a construir quando a tecnologia permite dissociar cada vez mais a reprodução das relações humanas que tradicionalmente lhe davam ambiente e vínculo? É aqui que a ficção de Huxley permanece perturbadora porque nos revela que, ao procurarmos libertar-nos das limitações impostas pela natureza, desfizemos algumas das relações que davam sentido à própria experiência humana.
E então, perante tantos desafios e interrogações, é aceitável que o espaço público fique dominado por quem acha que a realidade social deve ser terraplanada e que tudo se resume a expandir liberdades individuais, sem arcar com os custos, ou será que há espaço para ouvir as mulheres conservadoras?

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