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Três distritos concentram 58,5% das mudanças de comercializadora de energia

Três distritos concentram 58,5% das mudanças de comercializadora de energia

Mudar de comercializadora de eletricidade é, de todas as decisões financeiras domésticas em Portugal, aquela com menos barreiras à entrada. Não exige aprovação de crédito, não depende de rendimento, não implica avaliação de nada, não tem custo e faz-se sem interrupção de fornecimento. É, teoricamente, a decisão mais democrática do mercado de consumo português. Os dados dizem que não se comporta assim.
Segundo a análise de mercado de energia do ComparaJá, Lisboa concentra 30,97% das adesões, o Porto 18,24% e Setúbal 9,30%. Somados, três distritos valem 58,51% de todas as mudanças de fornecedor registadas. Seguem-se Aveiro com 6,87%, Braga com 5,36% e Leiria com 5,22%. O restante território divide o que sobra.
A comparação com o crédito à habitação torna o número mais interessante do que parece à primeira vista. No crédito, a concentração no litoral tem explicações materiais evidentes: é onde estão os imóveis mais caros, os rendimentos mais altos e o mercado de transações mais ativo. Comprar casa em Lisboa exige mais crédito do que comprar casa em Bragança, e a geografia do financiamento reflete a geografia dos preços. Na energia, nada disso se aplica. Uma família em Beja paga a mesma tarifa que uma família em Cascais para o mesmo consumo e a mesma potência, e tem exatamente o mesmo direito a mudar de comercializadora com um telefonema.
Se a barreira não é financeira, a concentração mede outra coisa. Mede exposição à informação. A decisão de comparar tarifários depende de alguém perceber que os preços variam entre comercializadoras, de saber que a mudança não corta a luz e de encontrar onde fazer a comparação. Essas três condições distribuem-se de forma desigual pelo território, e não por razões de rendimento: por densidade de publicidade, por presença de lojas físicas, por circulação de informação em conversas de trabalho e por hábito de tratar contratos domésticos como decisões revisáveis.
O custo dessa assimetria é quantificável. Para uma família com dois filhos, consumo de 400 quilowatt-hora por mês e potência de 6,9 kVA, a diferença entre a tarifa mais económica do mês e a tarifa indexada foi de 25,45 euros mensais, mais de trezentos euros por ano. Para uma família numerosa, com 908 quilowatt-hora e 13,8 kVA, a distância entre a oferta mais barata e a mais cara chegou aos 58,53 euros por mês. São valores que não dependem da região onde a família vive, mas cuja captura depende inteiramente de a família saber que eles existem.
Há um dado que reforça a leitura de que o problema é informativo e não económico. Quando os consumidores portugueses mudam, mudam quase sempre só a eletricidade: 74,54% das alterações de contrato envolveram apenas esse serviço, contra 19,81% de contratos duais com gás natural e 5,65% de gás isolado. E, na escolha do tipo de tarifa, 94,88% optam pela tarifa simples, com um preço único ao longo do dia, contra 5,05% de bi-horária. Este é o comportamento de quem faz uma alteração de cada vez, na componente mais visível da fatura, sem entrar em otimizações que exigem conhecer o próprio perfil de consumo. É um mercado de decisões parciais.
A implicação prática é que o potencial por captar está concentrado exatamente onde a adesão é baixa. Um distrito com pouca representação nas mudanças de comercializadora não é um distrito onde não compense mudar: é um distrito onde a poupança disponível continua por reclamar. O caminho para a estimar passa por comparar o próprio perfil de consumo com as ofertas do mês, exercício que a análise de mercado de energia atualiza mensalmente com os valores de cada escalão.
Fica por explicar por que motivo uma decisão sem custo, sem risco e sem requisitos continua a distribuir-se pelo país como se tivesse todos os três. A resposta mais provável é que a fatura da luz continua a ser tratada como uma despesa fixa e não como um contrato negociável, e essa perceção muda-se mais devagar do que qualquer preço.

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