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Portugal está preparado para envelhecer?

Portugal está preparado para envelhecer?

Portugal conseguiu uma das grandes conquistas do último século: vivemos mais. A questão que se coloca agora é outra e talvez mais difícil: estaremos preparados para viver melhor durante esses anos adicionais?
O envelhecimento da população portuguesa deixou há muito de ser uma previsão demográfica. É uma transformação estrutural do país. Em 2025, o índice de envelhecimento atingiu 188,8 pessoas com 65 ou mais anos por cada 100 jovens, segundo o Instituto Nacional de Estatística. Ao mesmo tempo, quem chega hoje aos 65 anos pode esperar viver, em média, mais de duas décadas.
Isto significa que os 65 anos deixaram de representar, para uma parte crescente da população, o início de um curto período final da vida. Podem significar o começo de vinte anos ou mais de participação social, consumo, conhecimento, cuidado, trabalho, aprendizagem e novas necessidades.
É exatamente aqui que Portugal precisa de mudar a pergunta. Em vez de perguntarmos apenas quanto vai custar o envelhecimento, deveríamos perguntar também que economia queremos construir para uma sociedade que vive mais tempo.
Porque envelhecer não é apenas uma questão de pensões. É uma questão de saúde, habitação, mobilidade, mercado de trabalho, tecnologia, urbanismo, cuidados de longa duração, apoio às famílias, formação e qualidade de vida.
O custo de não preparar o futuro
O desafio económico é considerável. A OCDE estima que as despesas relacionadas com o envelhecimento em Portugal possam passar de 23,5% do PIB em 2025 para 27,3% em 2045, considerando pensões, saúde, cuidados de longa duração e outras componentes associadas. Estamos, portanto, perante uma das grandes questões económicas das próximas décadas.
Mas existe um risco na forma como fazemos esta discussão. Se reduzirmos o envelhecimento a uma folha de cálculo onde aparecem pensões, internamentos, medicamentos e prestações sociais, estaremos a olhar apenas para metade do problema.
Uma pessoa que envelhece com autonomia, permanece socialmente integrada, vive numa habitação adequada, pratica atividade física, mantém relações sociais, acede precocemente a cuidados de saúde e consegue permanecer ativa representa uma realidade económica e social muito diferente de alguém que entra precocemente num percurso de dependência.
É por isso que a prevenção da dependência também é política económica. Cada ano adicional vivido com autonomia tem valor para a pessoa, para a família, para o sistema de saúde, para a Segurança Social e para a economia.
Precisamos de uma economia da longevidade
Portugal deveria assumir uma verdadeira estratégia para a economia da longevidade. Não se trata de criar mais uma expressão política. Trata-se de reconhecer que milhões de portugueses viverão durante muito mais tempo e terão necessidades, capacidades, conhecimento e poder económico que não podem continuar a ser tratados como marginais.
Uma sociedade longeva precisa de novas respostas habitacionais, casas adaptáveis às diferentes fases da vida, cidades acessíveis, transportes adequados e soluções tecnológicas que permitam permanecer em casa com segurança durante mais tempo.
Precisa também de um mercado de trabalho capaz de compreender que uma pessoa com 60 ou 65 anos não perde subitamente o seu conhecimento, experiência ou capacidade de contribuir. Num país confrontado simultaneamente com envelhecimento e escassez de trabalhadores, desperdiçar sistematicamente o conhecimento dos profissionais mais experientes é uma contradição económica.
Teremos de discutir modelos mais flexíveis de transição para a reforma, aprendizagem ao longo da vida e novas formas de participação profissional e social. Envelhecer não pode significar passar, de um dia para o outro, de cidadão economicamente ativo a destinatário passivo de políticas públicas.
E quem vai cuidar?
Existe, contudo, uma dimensão que Portugal não pode continuar a adiar: os cuidados de longa duração. Quanto maior for a longevidade, maior será também o número absoluto de pessoas que, em algum momento, necessitarão de apoio para atividades da vida diária.
A resposta não pode continuar excessivamente dependente da capacidade das famílias. Durante décadas, Portugal beneficiou de uma enorme infraestrutura invisível de cuidados: filhos que cuidaram de pais, cônjuges que cuidaram uns dos outros e famílias que reorganizaram a vida profissional e pessoal para responder à dependência.
Esse modelo está sob pressão. As famílias são menores, a mobilidade geográfica aumentou, as mulheres participam plenamente no mercado de trabalho e cresce o número de pessoas que vivem sozinhas.
Precisaremos de uma combinação muito mais robusta entre apoio domiciliário, cuidados continuados, respostas residenciais, tecnologia, teleassistência, saúde de proximidade e apoio efetivo aos cuidadores. Essa rede deverá ser entendida não apenas como despesa social, mas como infraestrutura essencial de uma economia de longevidade.
Viver mais não chega
Durante muitos anos utilizámos a esperança de vida como um dos grandes indicadores de progresso. Devemos continuar a fazê-lo, mas já não chega. O próximo grande indicador deveria ser quantos desses anos são vividos com autonomia, participação, segurança, relações sociais e qualidade de vida.
Podemos acrescentar anos à vida sem necessariamente acrescentar vida aos anos. Portugal precisa, por isso, de começar a medir o sucesso das suas políticas de envelhecimento não apenas pelo número de respostas criadas ou pelo montante gasto, mas pelo impacto dessas políticas na vida das pessoas.
É aqui que saúde, economia e política social deixam de poder trabalhar separadamente.
Uma oportunidade para Portugal
O envelhecimento é frequentemente apresentado como uma ameaça. Não tem obrigatoriamente de o ser. Uma população mais velha gera também novas necessidades, novos mercados, novas tecnologias, novas profissões e novas oportunidades de investimento.
Habitação assistida, dispositivos de saúde, inteligência artificial aplicada à prevenção, turismo sénior, atividade física, serviços domiciliários, formação ao longo da vida, alimentação, mobilidade e tecnologias de apoio são apenas algumas das áreas que constituirão uma crescente economia da longevidade.
Portugal pode limitar-se a reagir às consequências do envelhecimento. Ou pode antecipá-las e transformar esta mudança demográfica numa oportunidade de inovação económica e social.
Para isso precisamos de uma estratégia de longo prazo que sobreviva aos ciclos políticos e que coloque na mesma mesa saúde, Segurança Social, economia, municípios, universidades, setor social, empresas e cidadãos.
O grande desafio não será impedir Portugal de envelhecer. Isso seria negar uma das maiores conquistas da nossa sociedade. O verdadeiro desafio será garantir que um país que conseguiu acrescentar anos à vida das pessoas consegue agora acrescentar qualidade de vida a esses anos.
Portugal está preparado para envelhecer — ou estamos apenas a ficar mais velhos?
Dados de referência: Instituto Nacional de Estatística (indicadores demográficos, 2025) e OECD Economic Surveys: Portugal 202c.

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