Fiações, tinturarias e estamparias teriam de subir preços em 30% para absorver custos da energia
O aumento dos custos energéticos está a pressionar as margens das empresas mais intensivas em energia e a ameaçar a competitividade externa do setor. Ricardo Silva, presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), diz ao JE que, nos casos mais expostos, seria necessário repercutir cerca de 30% dos custos nos preços de venda a outras empresas.
“São cerca de 30%, mais ou menos, neste momento”, afirmou Ricardo Silva, quando questionado sobre quanto teriam de aumentar os preços para que as empresas conseguissem equilibrar os custos e a rentabilidade.
O responsável da ATP esclareceu que a estimativa se aplica às empresas “diretamente afetadas”, nomeadamente aos consumidores intensivos de energia, como fiações, tinturarias e estamparias. Nestes casos, o aumento teria de ser refletido nos preços dos produtos ou serviços vendidos a outras empresas, num modelo B2B. A pressão acabaria, contudo, por se transmitir ao longo da cadeia de valor, atingindo a confeção e, posteriormente, o preço da peça final.
Segundo o responsável, a repercussão na peça final seria de cerca de 15%, abrangendo o conjunto dos produtos têxteis, desde o vestuário aos têxteis-lar.
O presidente da ATP alerta que o problema não se limita ao impacto imediato nas contas das empresas. “Margens a contrair rapidamente, muito rapidamente, e empresas a entrarem em prejuízo rápido” são, segundo o responsável, algumas das consequências já sentidas no setor.
A pressão sobre os custos coloca ainda um dilema às empresas. As que conseguirem aumentar os preços poderão proteger as margens, mas arriscam perder quota de mercado. As que optarem por manter os preços para preservar clientes e vendas terão de suportar a deterioração das margens.
“Quem conseguir subir preços vai conseguir equilibrar margens, mas eventualmente perder cota de mercado. Quem tentar manter os preços baixos para equilibrar a cota de mercado vai sofrer muito nas margens”, resumiu.
Ricardo Silva considera que este efeito é particularmente preocupante num setor integrado em cadeias de valor internacionais. Se os custos de produção aumentarem em Portugal e os preços finais tiverem de acompanhar essa evolução, as empresas nacionais poderão perder competitividade face a produtores de mercados onde o aumento dos custos energéticos não teve a mesma dimensão. O responsável apontou, como exemplo, a China.
A situação está a atingir um setor que, apesar da redução do número de empresas e de alguma perda de complexidade e segmentação face ao passado, continua a apresentar ganhos de produtividade. “Estamos a ter menos empresas, mas mais produtivas”, afirmou.
O presidente da ATP destacou, neste contexto, a evolução do valor acrescentado bruto por trabalhador, que, segundo explicou, tem vindo a aumentar. A melhoria da produtividade não impede, contudo, que as empresas atravessem um período de forte instabilidade, à medida que as cadeias de valor se alteram e são necessárias novas rotas e novos produtos.
“Passamos por tumultos”, resumiu Ricardo Silva, considerando que a situação energética está a contribuir para uma transformação das cadeias de valor do setor.
O responsável da ATP considera ainda que a pressão atual começa a assumir um caráter mais duradouro. “Esta situação continuada começa a ser estrutural e não conjuntural”, afirmou, reforçando uma preocupação que, segundo explicou, já tinha transmitido anteriormente.
Sobre as medidas anunciadas pelo Governo para mitigar o impacto do aumento dos combustíveis, Ricardo Silva reconhece a importância do equilíbrio das contas públicas, mas considera que o setor industrial continuará a sofrer nos próximos meses.
“Todos queremos contas públicas equilibradas, até para o futuro, porque não podemos voltar ao passado”, afirmou, considerando que essa mensagem esteve presente no discurso do primeiro-ministro, Luís Montenegro.
O responsável da ATP entende, contudo, que não foi alcançado o equilíbrio que o setor defendia e que o Governo optou por concentrar os apoios diretamente nos combustíveis, nomeadamente nos táxis e transportes.
“Só espero que seja eficaz”, afirmou, acrescentando que, neste momento, pouco mais poderá ser feito em relação às medidas já anunciadas.
A pressão energética surge numa altura em que algumas empresas do setor já enfrentam dificuldades. Ricardo Silva não avançou com um número de empresas em risco de encerramento diretamente por causa dos custos da energia, mas referiu que existem empresas a fechar no contexto da atual conjuntura, sobretudo na área da confeção.
O responsável da ATP deu ainda conta de um caso recente envolvendo uma fiação portuguesa, cuja situação poderá vir a ser resolvida através da entrada de uma entidade nórdica que já era parceira comercial da empresa. Segundo explicou, essa entidade estará disponível para adquirir a fiação e liquidar as respetivas dívidas.
A evolução ilustra, na perspetiva de Ricardo Silva, as dificuldades que o setor enfrenta para preservar capacidade produtiva num contexto de custos energéticos elevados e crescente pressão sobre a competitividade.
Share this content:



Publicar comentário