Putin coloca operações da Nestlé e Auchan sob administração russa
O Kremlin passou a ter as mãos no volante de duas das maiores multinacionais ocidentais que ainda mantêm uma presença significativa na Rússia. Vladimir Putin assinou um decreto que coloca as operações russas da Nestlé e da Auchan sob administração temporária, entregando a gestão a uma empresa russa. A informação foi avançada esta sexta-feira pelo Financial Times.
A medida não significa, para já, que Moscovo tenha ficado formalmente com a propriedade dos activos. Os accionistas continuam juridicamente a ser os donos das empresas, mas deixam de controlar directamente as suas operações. A decisão insere-se num mecanismo criado pela Rússia para assumir o controlo de activos pertencentes a empresas de países que considera “hostis”.
O problema para as multinacionais ocidentais é que “temporário” pode ser uma palavra com uma definição bastante flexível em Moscovo. A Rússia já recorreu ao mesmo mecanismo com grupos como a francesa Danone e a dinamarquesa Carlsberg, acabando por facilitar a transferência das respectivas operações para investidores russos.
A dimensão da operação é significativa. A Auchan tinha cerca de 230 lojas e mais de 24 mil trabalhadores na Rússia, enquanto a Nestlé empregava aproximadamente 7.000 pessoas e operava seis fábricas no país. A cadeia francesa manteve uma presença comercial muito mais expressiva desde a invasão da Ucrânia, enquanto o grupo suíço reduziu substancialmente a sua actividade, mantendo sobretudo produtos considerados essenciais.
A Nestlé confirmou em comunicado que está a avaliar a decisão de Moscovo e as opções disponíveis para proteger os seus interesses. A Auchan também pediu esclarecimentos às autoridades russas sobre o alcance da medida.
O decreto não se fica pelas duas empresas. A lista inclui ainda activos ligados à logística e à antiga operação russa da Leroy Merlin, actualmente conhecida como Lemana Pro. No caso desta última, a actividade já tinha passado para uma estrutura local após a saída da gestão francesa.
Para a Nestlé, a Rússia representa actualmente cerca de 1% das vendas globais, segundo estimativas citadas pela Euronews. Para a Auchan, contudo, a exposição operacional é muito maior, dada a dimensão da rede de lojas e do número de trabalhadores no país.
A decisão deixa, por isso, uma questão em aberto: quanto tempo pode uma empresa continuar a ser proprietária dos seus activos quando já não controla quem os administra? Na Rússia, a experiência dos últimos anos sugere que a resposta pode depender menos dos contratos assinados pelas multinacionais e mais das decisões tomadas no Kremlin.
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