Como o WRC pretende reinventar-se entre 2027 e 2029
Em 2027, tudo indica que o WRC estará em modo de transição, com a Toyota como o único construtor de fábrica totalmente comprometido. Contudo, o aspeto mais relevante é que o novo regulamento WRC27 foi desenhado precisamente para abrir portas a preparadores e novos fabricantes até 2029. Nesse contexto, é provável que ocorra uma verdadeira revolução nos ralis.
2027: um Ano de transição assumidoÉ notório que os novos líderes do Promotor e da FIA, ao abordarem o WRC, apresentam 2027–2028 como um período de adaptação, e não como o destino final do campeonato. A ideia recorrente é que o WRC passará por um “reset técnico”: menos custos, maior acessibilidade e um modelo que viabilize um futuro distinto. Preveem que a Toyota mantenha a liderança, ao mesmo tempo que se cria espaço para equipas independentes como a M‑Sport e para novos projetos, como o belga Project Rally One e o espanhol Rally1 Team Spain.
Toyota como pilar da nova EraAté ao momento, a Toyota é o único fabricante da atual elite a desenvolver um WRC27 de raiz e mantém um compromisso total com o calendário de 2027. Informações recentes revelam um protótipo já na sua terceira evolução, com a homologação concluída e milhares de quilómetros de testes efetuados. Isto posiciona a marca japonesa como a referência imediata do novo regulamento, tanto em termos de performance como de estrutura de equipa.
Preparadores e novos projetos: Project Rally One e Rally1 Team SpainNo entanto, o grande sinal de que 2027 não será “só Toyota” reside na abertura à entrada dos chamados preparadores.A FIA confirmou que mais de dez estruturas independentes manifestaram interesse em homologar carros WRC27, aproveitando o novo enquadramento que permite a um preparador, e não apenas a um construtor de série, inscrever-se como “Construtor”. Entre estes projetos, destaca-se o Project Rally One, liderado por Lionel Hansen e Yves Matton, que já tem o chassis tubular concluído, a montagem do protótipo terminada e uma longa campanha de testes iniciada antes da homologação.Paralelamente, surge o projeto Rally1 Team Spain, uma colaboração entre a RFEDA e a RMC Motorsport, que ambiciona estrear em 2027, idealmente no Rali da Croácia, com um programa focado em provas ibéricas e sul-americanas. Embora ainda esteja “muito no papel”, já existe um calendário e a escolha de pilotos está em discussão, com contactos estabelecidos tanto com nomes de topo como com jovens talentos espanhóis.
M‑Sport, Ford e o papel dos Rally2 Kit WRCEmbora o futuro da Hyundai no nível Rally1 seja descrito como incerto ou (quase de certeza) como uma retirada, a imprensa aponta a M-Sport/Ford para um papel diferente: mais próximo de um preparador, com a possibilidade de desenvolver Rally2 Kits WRC27 baseados na filosofia de aproveitar as bases dos Rally2 e adaptá-las à nova categoria de topo. Os WRC27 foram concebidos para permitir que fabricantes de Rally2 homologuem um “kit” que os aproxime mais dos novos carros de topo em termos de performance, o que se alinha bem com o perfil da M-Sport enquanto empresa privada habituada a operar com orçamentos mais controlados.
Nível competitivo e impacto da venda do PromotorDesportivamente, o WRC nunca foi tão competitivo como atualmente: o detalhe operacional de cada dupla exige riscos enormes para se conseguir a diferença. Esta atual geração de Rally1 entrará para a história por possuir carros que estão entre os mais rápidos de sempre do WRC. Segundo especialistas que os pilotaram, os WRC de 2021 são considerados os mais rápidos de sempre, seguidos de perto pelos híbridos e, finalmente, pelos modelos atuais, que não se encontram muito distantes dos híbridos de 2022-2024.Ao mesmo tempo, a venda da WRC Promoter à nova estrutura liderada por Eric Boullier é vista como uma fonte de perturbações a curto prazo – resultantes de mudanças de cultura, de produto televisivo e de prioridades – mas também como uma oportunidade para alinhar o campeonato com modelos de promoção mais eficazes, referidos como estando mais próximos da Fórmula 1.
WRC27: Filosofia técnica e corte de custosQuanto ao WRC27, os novos carros inspiraram-se bastante na receita dos Rally2, considerada por vários intervenientes como uma das melhores regulamentações técnicas da história dos ralis, senão a melhor, devido ao seu sucesso nos campeonatos nacionais em todo o mundo e à sua importância comercial para os construtores.A FIA sublinha que o objetivo central é o corte de custos (com um teto de cerca de 345 mil euros por carro pronto para asfalto, o que representa mais de 50% abaixo dos Rally1 atuais). Esta redução inclui tecnologia ao nível Rally2, uma célula de segurança tubular (space frame) e uma performance-alvo semelhante à dos carros Rally2, mas com maior liberdade de conceção.
2029: Abertura de motorizações e nova vaga de ConstrutoresA comunidade do WRC já projeta o seu olhar para além de 2027. O ciclo do WRC27 (cuja denominação final ainda não foi definida) foi concebido para cerca de dez anos, com uma segunda fase a iniciar-se em 2029, quando se prevê a abertura do grupo motopropulsor, permitindo diferentes soluções de ‘powertrain’ (motores), desde que reguladas por sensores de binário, à semelhança do controlo usado no Dakar. Este sistema, o “famoso” Torque Meter. Esta “liberdade vigiada” é encarada como uma oportunidade para atrair construtores interessados em demonstrar novas tecnologias – como híbridos distintos e soluções alternativas – sem transformar o regulamento num caos técnico incontrolável. Ao invés do polémico Balance of Performance, medir o binário “onde verdadeiramente interessa” é consideravelmente mais fiável.
Síntese: Monotonia de curto prazo, aposta de médio prazoEm suma, é reconhecido o risco de um 2027 algo monótono à superfície, com a Toyota como a única estrutura de fábrica claramente à frente e os outros projetos a ganhar ritmo. Contudo, o WRC27 foi concebido como um regulamento de transição e reconstrução, visando: abrir portas a preparadores, reduzir os custos para um patamar próximo dos antigos WRC 2012–2016, preparar a abertura de motorizações em 2029 e dar tempo para que os novos intervenientes – Project Rally One, Rally1 Team Spain e outros – transitem do “papel” para a realidade competitiva.Existe, portanto, um consenso implícito: será necessária paciência para atravessar o período de 2027–2028, mas, se o plano for bem-sucedido, o WRC poderá emergir deste ciclo com uma maior variedade de carros e construtores do que a atual, ainda que o ponto de partida seja um campeonato aparentemente “Toyotacêntrico”.
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