Paquete Funchal à venda: entre uma nova vida e a sucata
No Cais da Pedra, em Santa Apolónia, o paquete Funchal parece suspenso entre duas vidas: a que teve e aquela que ainda poderá ter. Nos corredores, a ferrugem avança sobre o metal, o mobiliário envelheceu e alguns camarotes foram arrancados. O chão de cimento substituiu o brilho de outros tempos. Hoje, quem toma conta dele são dois homens de uma tripulação de dez elementos que se revezam por turnos. Inácio Fernandes, chefe de máquinas, e Tati Sambo, marinheiro, passam a maior parte dos dias a bordo, numa espécie de vigília permanente. Há 25 meses que não recebem salário. Comem e dormem no próprio navio, em camas improvisadas, e têm também a tarefa de impedir que aquilo que ainda resta possa ser roubado.
No dia em que o Jornal Económico entrou no Funchal preparavam o almoço. Pescada cozida com brócolos, feita num forno a gás. É uma refeição simples num navio que já conheceu cozinhas, restaurantes e mesas muito diferentes. À sua volta, sofás, poltronas e cadeiras esperam por um destino incerto. O salão de festas, os bares, os restaurantes e a piscina estão hoje em ruínas. Já o piano permanece intacto, uma das poucas peças que resistem ao abandono. “Este barco já teve muitas vidas, é uma relíquia”, diz Inácio Fernandes, de 75 anos ao JE. Este chefe de máquinas passou décadas no mar e traz memórias de viagens. “A maior tempestade que apanhei foi no Mar do Norte, com ondas de 13 metros”, recorda. Tati Sambo, de 60 anos, também se lembra de outras paisagens. Fala das auroras boreais que viu durante as viagens. Mas não esquece as dificuldades do presente. “Tenho cinco filhos e está a ser muito difícil sobreviver”, diz.
O próximo capítulo da história do navio poderá começar já este mês. No seguimento do processo de insolvência da Teamson, a decorrer no Tribunal Judicial da Comarca da Madeira, foi dado a conhecer que o navio se encontra à venda, na modalidade de ‘Propostas em Carta Fechada’. A 9 de outubro decorre no paquete a abertura das propostas sendo depois iniciada a licitação entre os proponentes. O valor base começa nos 802.354 euros. “Não é aberto ao público. É só para quem apresentou propostas”, sublinha o administrador da insolvência, José Pinto Oliveira ao JE. De acordo com o gestor judicial, os funcionários vão receber os salários em duas partes: a partir do mês de fevereiro deste ano serão pagos com o dinheiro da venda. “O resto que está para trás é quando o juiz der uma sentença e autorizar o pagamento, o que ainda demorará uns meses”, acrescenta. A divida total aos credores neste processo ronda os 550 mil euros. Depois, tudo pode mudar. O navio poderá encontrar quem lhe queira dar uma nova vida ou acabar desmantelado para sucata, num estaleiro em qualquer parte do mundo.
O Funchal foi construído na Dinamarca, por encomenda da Empresa Insulana de Navegação (EIN). Com 10 mil toneladas de peso bruto, capacidade para 400 passageiros e 21 nós de velocidade de cruzeiro e foi considerado a “Joia da Coroa” do transporte marítimo de passageiros em Portugal. A escolha do nome não foi aleatória. A principal missão do novo paquete era assegurar a ligação entre o continente e as ilhas, tendo a Madeira como um dos principais pontos de passagem nas viagens para os Açores e as Canárias. A construção terá custado cerca de 202 mil contos (cerca de um milhão de euros), um valor bastante significativo para a época.
Lançado à água na Dinamarca a 10 de fevereiro de 1961, o navio só teve viagem inaugural nove meses depois, com partida do porto de Lisboa a 4 de novembro, com 206 passageiros, escalando o Funchal, Ponta Delgada e Angra do Heroísmo. No Funchal, recolheu mais 113 viajantes. No dia da chegada ao território madeirense, o Diário de Notícias da região escrevia “O ‘Funchal’ na sua primeira viagem chega hoje ao nosso porto” e o Jornal da Madeira anunciava “’Funchal’ – nova cidade transatlântica visita hoje a Madeira”.
A inauguração foi simples e sem grandes festejos. Na edição do dia anterior o matutino indicava mesmo que, devido ao “momento nacional” criado pela eclosão da guerra colonial em Angola e pela anexação de Dadrá e Nagar Haveli pela União Indiana (territórios que desde 1779 faziam parte do Estado Português da Índia), não se realizaria a bordo “qualquer ato festivo em comemoração da viagem inaugural”.
A história do paquete alterou-se à medida que o transporte aéreo ganhava terreno. A concorrência dos aviões retirou importância às ligações marítimas regulares e obrigou o navio a encontrar um novo rumo. Em 1972, o Funchal foi remodelado para se dedicar a viagens turísticas. Foi pintado de branco e azul e os camarotes foram melhorados, acabando por ficar com uma classe de passageiros. Foi também construída uma piscina.
Nesse mesmo ano transportou para o Brasil os restos mortais de D. Pedro IV, rei de Portugal e Imperador do Brasil. A bordo seguia também o então Presidente da República, Almirante Américo Thomaz. Um ano depois, em 1973, o Funchal passou a ser fretado por operadores turísticos durante as temporadas de férias, iniciando uma nova fase como navio de cruzeiros. O Brasil tornou-se um dos principais destinos, a par de Marrocos, das Canárias e de Inglaterra.
Mais tarde, a Insulana fundiu-se com a Companhia Colonial de Navegação, fusão que deu origem à Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos (CTM), então detentora do Funchal. Durante largos meses, o navio voltou a fazer o transporte de passageiros até às ilhas, mas em 1975 uma nova avaria acabou por o fazer regressar a Lisboa. Nesse mesmo ano, o empresário grego George Potamianos esteve na capital portuguesa para conhecer o navio com o objetivo de fretá-lo para viagens de cruzeiro nos países nórdicos, até que por fim o comprou num leilão da Companhia de Transportes Marítimos em 1985. “Quando o vi, perdi a cabeça. O português que fez este navio espetacular era um génio, o casco é o melhor que há no mundo. Por causa do seu desenho só tem metade do consumo”, explicou Potamianos ao Expresso em 2006.
O navio esteve ao serviço da Classic International Cruises (CIC), a empresa de navegação do armador grego, que viria a encerrar em 2012. No ano seguinte, o navio foi vendido à Pearl Cruises. Com um investimento de mais de 22 milhões de euros em obras, cerca de 300 pessoas trabalharam na remodelação do paquete para que ficasse de acordo com as normas internacionais deste tipo de navios.
Mais tarde, em 2018, foi adquirido pela britânica Signature Living por 3,91 milhões de euros, com o objetivo de ser transformado hum hotel flutuante. A empresa acabaria por falir e o Funchal permaneceu no Tejo.
Em 2020, o destino do Funchal acabaria por ficar nas mãos do milionário norte-americano Brock Pierce, conhecido por rei das criptomoedas e que quis transformar o navio num hotel de cinco estrelas com cerca de 200 quartos. Foi comprado por cerca de 1,6 milhões de euros, através da empresa Teamson, cuja insolvência foi, entretanto, decretada pelo Tribunal Judicial da Madeira.
O projeto não avançou e o Funchal continuou parado no Tejo, à espera de um novo destino. Essa espera prolongou-se também para quem ficou a bordo. Inácio Fernandes e Tati Sambo continuam no navio e, sem salário há mais de dois anos, vivem entre a rotina diária e a incerteza sobre o que virá a seguir.
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