MAAT: a onda à beira-Tejo celebra 10 anos a desafiar convenções
No princípio era o rio. O Tejo, identidade líquida de Lisboa que se declina em estuário. Logo depois, a malha urbana, que ganhou, em outubro de 2016, uma onda pousada, com elegância e leveza, na margem da zona ribeirinha de Belém, em Lisboa: o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT). No topo da onda, um terraço panorâmico sobre o Tejo. Um marco arquitetónico e um desafio museográfico, sim, mas que não estava só. Por companhia tinha outro edifício emblemático da capital, a Central Tejo, património industrial que passou a dialogar com esta espacialidade de linhas curvas que leva a assinatura da arquiteta britânica Amanda Levete. Ainda no terraço, qual janela panorâmica sobre a onda, a luz que acaricia a superfície do rio enche-nos a retina, mas também convida, como realçou Amanda Levete antes da sua abertura, a virarmos “as costas ao rio para contemplar a cidade.”
No total, o campus da Fundação EDP abrange uma área de 38 mil metros quadrados. Os dois edifícios estão ligados por um jardim projetado pelo arquiteto paisagista libanês Vladimir Djurovic. Só no dia da inauguração, a 5 de outubro de 2016, mais de 60 mil pessoas passaram pelo MAAT, fruto de um investimento de 20 milhões de euros da Fundação EDP. Os números desta década são expressivos: 1500 exposições envolvendo mil artistas e mais de 3 milhões de visitantes.
Em 2026, em plena contagem decrescente para o 10º aniversário – com entrada e atividades gratuitas a 4 e 5 de outubro –, o MAAT escolheu celebrar esta data redonda apontando os holofotes a artistas portugueses contemporâneos.
Começou com “Turn Around. Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP”. Uma seleção de cerca de 90 obras de 58 artistas nacionais, desde a década de 60 do século XX até à data, feita a partir de um acervo que conta com mais de 2500 obras e que pode ser visitada até janeiro de 2027, no MAAT Central. Ana Jotta, António Palolo, Fernanda Fragateiro, Helena Almeida, Jorge Molder, Julião Sarmento, Paulo Nozolino, Rui Sanches, Sara Bichão, entre muitos outros. Alguns dos quais, parte integrante da coleção de arte de Pedro Cabrita Reis, que a EDP adquiriu ao artista português por 1,5 milhões de euros, no ano da abertura do MAAT.
Não é um pormenor de somenos importância, pois permitiu à Coleção de Arte Fundação EDP ampliar o leque de artistas nela representados. Desde o seu arranque, em 2000, que tem vindo a incorporar sistematicamente jovens artistas, nomeadamente no período contemporâneo pós-1968.
Pedro Cabrita Reis não esteve apenas ligado ao MAAT nesse momento fundacional. Há muito que se encontra representado na Coleção. Mas faltava ainda acontecer uma erupção vulcânica. Por outras palavras, faltava Cabrita Reis explodir no MAAT. Trazer a sua energia criativa à Sala Oval, confrontar-se com o pé direito imenso que desaparece entre o negro e o branco das linhas de luz, e a ampla rampa curva que nos permite fluir por esta elipse “com o coração livre de cuidados” – título da primeira exposição individual de Cabrita Reis no MAAT.
© Tiago Petinga, Lusa
Ironia e história da arte
Seguimos viagem. Primeiro, na companhia de Ridi Paglaccio, que nos devolve o artista em exercícios jocosos, qual funâmbulo sobre um fio de fina ironia, sem esquecer que, em toda a série, se autorretrata. Como sempre tem feito desde que, aos 14 anos, se descobriu artista. Celebrou 70 nas vésperas da montagem desta exposição, feita em tempo recorde, um dia e meio, em sintonia com o seu ritmo criativo, qualidade das equipas envolvidas e, frisa o próprio, por resultar de um trabalho feito “com um amigo, um cúmplice de longa data”, mais do que com um curador. E por que razão faz o artista esta ressalva em relação a João Pinharanda, diretor do MAAT?
Porque “é público, já foi publicado várias vezes nos media, a minha relação conflituosa com o lugar da curadoria. Neste caso, não”, sublinhou. “Neste caso foi pura cumplicidade. E começa logo aqui, nesta primeira série, porque o João anteviu uma coisa que eu próprio, confesso, não tinha ainda vislumbrado. Ou seja, esta série autoirónica é, na verdade, o prenúncio dos autorretratos que eu venho a fazer.”
Não terá sido inconsciente a escolha de completar a elipse/rampa com outra série, intitulada Ecce Homo – “interpretada por mais de uma pessoa como uma forma de autorretrato”, refere o artista. “E onde é que eu o vou buscar? À pintura belíssima e famosíssima do Dürer, em que ele se representa a si próprio como Cristo. Eu não propus claramente essa ambição, mas há quem veja este Ecce Homo, como um autorretrato. Mas numa abordagem autoirónica”. Alguém arriscou dizer ‘sarcástica’, ao que Cabrita Reis retorquiu, de imediato, que “as pessoas estúpidas, porque também as há, são capazes de sarcasmo e de mordacidade. As pessoas inteligentes, como eu, usam a ironia que é uma forma de inteligência.”
É com panache que prossegue, esclarecendo que não se reconhece como crente. Ultimamente, tem sido confrontado com essa pergunta. E a todos confessa: “Não me reconheço como um crente com uma estrutura de fé organizada, como aquela que assiste aos católicos e às outras confissões. O que eu acredito, verdadeiramente, é no poder de transformação da arte.” O que faz, afinal, é debruçar-se sobre a forma como, “ao longo da história, os que me precederam abordaram esses temas”. Ou seja, interrogações que decorrem “da análise dos textos da liturgia, narrativas que vão desde a mitologia do Adão e Eva até à Pietá.” E conclui dizendo que não faz daqui um exercício de devoção. “Faço uma transformação daquilo que é, para mim, a origem. No princípio era o verbo, diz-se no começo dos textos litúrgicos; no princípio era a pintura, era a história da arte.”
Das esfregonas ao epitáfio
Chegamos à madeira, ao aroma “maravilhoso” das tintas de óleo. Tal como a sua primeira relação com um livro passa por sentir a fragrância do papel, antes de se adentrar no texto, é também o aroma das tintas que lhe “enche a alma.” E como não sabe pintar a não ser depressa e “com alguma força, agressividade”, encontra na madeira “um encanto incontornável.” O tom é sério. Entretanto, já navegamos dos nenúfares by Cabrita Reis – onde existe um certo eco do pintor francês, mas que “recusa a ambição de alinhar a citação direta à fonte” – para a ironia do método. Ou melhor, da técnica usada na série das ninfas, toda pintada no chão do ateliê. Para não correr o risco de alguém o confundir “com o Pollock, por causa do dripping”, devido à liquefação da tinta utilizada.
Aqui chegados, o artista revela um detalhe que pode ser muito apetecível para os media. “Estes quadros foram pintados com tintas nobres, em madeiras tratadas, e todo o exercício do ato de pintar é feito com esfregonas”, exclama. Se fosse esgrima, seria touché. “O Cabrita Reis iniciou, já na passagem para o século XXI, o ‘esfregonismo’, o momento em que as lojas de belas-artes tiveram uma franca quebra nas receitas, porque deixou de comprar pincéis de pelo de marta.”
A boutade, indissociável do discurso do artista, também se plasma no título desta exposição: “com o coração livre de cuidados”. O mesmo remete para uma passagem de Hesíodo, em Trabalhos e Dias, dedicada à “Idade de Ouro”, tempo primordial em que os homens viviam “como deuses”, sem sofrimento, fadiga ou inquietação. Ora, Pedro Cabrita Reis fez questão de sublinhar que sempre fez o que lhe apeteceu e que “estava muito preparado para chegar à sétima década.” Pelo que resolveu deixar esse statement registado no catálogo da exposição.
“Se quisesse um epitáfio, seria: «Aqui está um gajo que se fartou de viver e bem, e viveu sempre com o Coração Livre de Cuidados.» E graceja: “Não quero que este catálogo e esta exposição sejam premonitórios, mas se for necessário, já está feito, não é preciso encomendar [um epitáfio] a ninguém.”
Feita a ressalva, ainda há tempo para discorrer sobre o prazer que lhe enche a alma e que o leva a fazer exposições como esta. “É apenas o acreditar que há coisas que não se podem deixar de fazer. Não se pode deixar de continuar a fazer exposições porque não se pode deixar de continuar a acreditar que os museus têm que ter pessoas, porque não se pode deixar de acreditar que, um dia, haverá neste país um plano de educação nacional que englobe, a partir do jardim-escola, visitas a exposições, idas a concertos, ao cinema.” Cabrita Reis, o artista, dá palco ao cidadão: “Vivemos num deserto de ideias porque, lamentavelmente, há demasiadas pessoas inadequadas em sítios onde não deveriam estar.”
A exposição Pedro Cabrita Reis – “com o coração livre de cuidados” pode ser visitada no MAAT até 15 de fevereiro de 2027.
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