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Certificados de Aforro pagam 2,5% com a EURIBOR semestral nos 3,1%

Certificados de Aforro pagam 2,5% com a EURIBOR semestral nos 3,1%

A taxa de juro base dos Certificados de Aforro da série F mantém-se em outubro no máximo permitido pelo produto, 2,5%, apesar de a média da EURIBOR a três meses usada no seu cálculo ter chegado a 2,634%. O produto tem um teto e a fórmula já o ultrapassou, o que significa que o principal instrumento de poupança sem risco à disposição das famílias portuguesas deixou de acompanhar o mercado monetário.
No mesmo dia em que isto se verificava, a EURIBOR a seis meses fixou-se em 3,103%, o valor mais alto desde setembro de 2024, e a de 12 meses nos 3,362%. Somando um spread de 1%, que é o valor de referência usado nas comparações de mercado, um empréstimo à habitação indexado ao prazo de seis meses custa hoje cerca de 4,1% ao ano. O mesmo agregado que paga esse juro pela dívida recebe 2,5% pela poupança. A distância entre as duas pontas ultrapassou um ponto e meio percentual.
Esta inversão é recente e é estrutural, não conjuntural. Durante o período de taxas negativas, a poupança sem risco rendia praticamente zero e o crédito era barato, pelo que o diferencial era pequeno e a decisão de amortizar ou poupar tinha pouca consequência aritmética. Quando as taxas subiram em 2022 e 2023, os Certificados de Aforro acompanharam o movimento e houve meses em que remuneraram acima do custo de muitos créditos antigos com spreads baixos. O teto de 2,5% da série atual fecha essa porta: a partir daqui, cada subida da EURIBOR alarga o diferencial em vez de o manter.
Do ponto de vista de gestão de orçamento familiar, isto altera a ordem de preferência entre duas decisões que habitualmente são tratadas como independentes. Colocar mil euros em poupança sem risco rende, em termos brutos, cerca de 25 euros por ano. Aplicar os mesmos mil euros na amortização de um empréstimo a 4,1% evita cerca de 41 euros de juros no mesmo período. A diferença é de aproximadamente 16 euros por cada mil euros, e é uma diferença que existe todos os anos até ao fim do contrato.
Seria um erro transformar esta aritmética numa recomendação automática, e há três razões concretas para isso. A primeira é a liquidez: dinheiro amortizado num empréstimo não volta a estar disponível, e um fundo de emergência não se substitui por menos dívida. A segunda é que a amortização antecipada pode ter comissão contratual, o que reduz o ganho no primeiro ano. A terceira é que o juro do crédito é dedutível em algumas situações e a comparação correta é sempre feita depois de impostos. O que os números mostram não é qual a decisão certa, é que a decisão passou a ter consequência material, quando durante anos não tinha.
Há ainda um elemento de desenho do produto que vale a pena sublinhar. Os Certificados de Aforro somam à taxa base um prémio de permanência, que começa em 0,25% a partir do segundo ano e cresce com a antiguidade da subscrição. Ou seja, a remuneração efetiva de quem subscreveu há mais tempo é superior à de quem subscrever agora, mesmo com a taxa base igual. O produto recompensa a antiguidade, tal como o mercado de arrendamento, e penaliza a entrada nova.
O contraste com o comportamento agregado das famílias é notório. A carteira de crédito à habitação cresceu 11,2% em agosto, para um máximo histórico de 119.062 milhões de euros, e o crédito ao consumo 9,8%. Não é um retrato de famílias a reduzir dívida num contexto de juros a subir: é o oposto. O juro médio do conjunto dos créditos à habitação já contratados chegou a 3,162% em agosto, na quarta subida mensal consecutiva, e a taxa média das novas operações intermediadas no mesmo mês ficou em 2,77%, o que dá a medida da distância entre os contratos antigos e os novos.
A leitura que se retira deste conjunto é sobre onde está o retorno marginal do dinheiro de uma família portuguesa em outubro de 2026. Não está nos produtos de poupança sem risco, que estão limitados por desenho. Está na redução do custo do passivo, seja por amortização, seja por renegociação do spread, seja pela comparação de contratos de serviços recorrentes. É uma inversão relativamente ao que foi verdade durante a última década, e a maior parte dos hábitos financeiros das famílias foi formada nessa década.

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