Elétricos: afinal, é a economia, estúpido!
Durante anos discutimos como convencer os europeus a comprar automóveis elétricos. Criámos incentivos, benefícios fiscais, metas de emissões e calendários para abandonar os motores de combustão. A indústria automóvel europeia, pressionada por objetivos regulatórios particularmente exigentes, investiu milhares de milhões de euros em novas plataformas elétricas.
Apesar de tudo, a procura não cresceu ao ritmo que muitos antecipavam, nem ao ritmo necessário para rentabilizar esses investimentos.
Até que a economia começou a fazer aquilo que a regulação e os incentivos, por si só, não tinham conseguido.
A forte subida dos preços dos combustíveis alterou a equação económica da utilização do automóvel e, com ela, as decisões dos consumidores. E talvez seja essa a mudança mais importante: o elétrico começa a ser escolhido não apenas porque é incentivado ou porque responde a uma opção ambiental, mas porque, para um número crescente de consumidores, as contas começam simplesmente a fazer sentido.
Os números são elucidativos. Em Portugal, entre janeiro e agosto, os automóveis 100% elétricos representaram 26,8% das matrículas de ligeiros de passageiros novos, crescendo 43,1% face ao mesmo período do ano passado. Em agosto, a quota atingiu 36,1%.
É certo que uma oferta mais vasta, preços mais competitivos e a fiscalidade das frotas empresariais ajudam a explicar estes números. Mas há um sinal talvez mais revelador: o que está a acontecer no mercado de usados.
Durante bastante tempo, o elétrico usado enfrentou uma procura reduzida. As dúvidas sobre as baterias, a rápida evolução tecnológica, as descidas de preço dos novos e a incerteza quanto aos valores residuais condicionaram este mercado.
Agora, o cenário está a mudar. E aqui é sobretudo o consumidor particular que decide. Não porque Bruxelas definiu uma meta. Não porque existe uma obrigação regulatória. Mas porque faz contas.
A procura aumentou e o mercado responde. Para a satisfazer, muitos operadores portugueses recorrem já à importação de elétricos usados de outros mercados europeus. É um sinal particularmente relevante: a mudança já não acontece apenas no mercado do veículo novo.
Talvez haja aqui uma lição.
Durante demasiado tempo transformámos a eletrificação num debate quase ideológico: elétricos contra combustão, defensores contra opositores, incentivos contra proibições. O consumidor parece ser bastante mais pragmático. Quando a alternativa elétrica oferece custos de utilização mais baixos, autonomia adequada e um preço competitivo, a escolha torna-se mais simples.
Os incentivos foram importantes e a regulação acelerou a transição. Mas nenhuma transformação desta dimensão será sustentável se depender permanentemente de subsídios, benefícios fiscais ou imposições, nem, naturalmente, de combustíveis caros.
A transição consolida-se quando deixa de precisar de ser empurrada e passa a fazer sentido para quem compra.
A campanha presidencial americana de 1992 ficou marcada por uma frase que atravessou décadas: “It’s the economy, stupid.” Mais de trinta anos depois, a transição automóvel parece recordar-nos exatamente o mesmo. É a economia, estúpido!
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