Cinco dos países mais ricos do mundo são europeus
A Europa está a perder peso na economia mundial. É um facto difícil de contestar: a União Europeia representava cerca de 28% do PIB global em 1980 e, em 2025, essa fatia tinha descido para 13,8%, de acordo com os dados citados pelo elEconomista.
Mas há uma outra estatística que conta uma história diferente. Quando a comparação é feita pelo PIB per capita nominal, os cinco países mais ricos do mundo em 2026 são europeus: Liechtenstein, Luxemburgo, Irlanda, Suíça e Noruega, segundo as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI). E a Europa coloca oito países entre os dez primeiros.
O contraste é particularmente interessante porque ocorre num momento em que o continente é frequentemente apresentado como uma economia condenada a ficar para trás face aos Estados Unidos. A produtividade cresce menos, as grandes empresas tecnológicas europeias têm pouca expressão à escala global e o investimento em setores como inteligência artificial fica distante do esforço norte-americano.
A fotografia, contudo, é mais complexa.
Uma Europa rica, apesar do menor crescimento
O primeiro lugar pertence ao pequeno Liechtenstein, com um PIB per capita previsto de 230.420 dólares em 2026, segundo o FMI. O valor é muito superior aos 94.430 dólares estimados para os Estados Unidos.
A dimensão do país obriga, naturalmente, a alguma cautela na leitura do indicador. Mas a riqueza de Liechtenstein não resulta apenas dos serviços financeiros. O principado desenvolveu também uma indústria especializada em maquinaria, ferramentas de precisão e componentes industriais de elevado valor acrescentado. A Hilti é um dos exemplos mais conhecidos dessa capacidade exportadora.
Luxemburgo surge em segundo lugar, com 155.730 dólares por habitante. A forte especialização financeira, a presença de instituições internacionais e a capacidade para atrair empresas e trabalhadores qualificados ajudam a explicar uma posição que seria difícil imaginar apenas olhando para a dimensão territorial do país.
A Irlanda aparece em terceiro, com 127.800 dólares. É um dos casos mais impressionantes de transformação económica europeia, depois de décadas em que o país esteve entre os mais pobres da Europa Ocidental.
A adesão ao mercado único, uma força de trabalho qualificada, o uso generalizado do inglês e uma política fiscal favorável ao investimento estrangeiro ajudaram a transformar a Irlanda num dos principais destinos europeus das multinacionais norte-americanas, sobretudo nos setores tecnológico e farmacêutico.
Mas há uma ressalva importante. O PIB irlandês é fortemente influenciado pela atividade das multinacionais, incluindo lucros e propriedade intelectual registados no país. Por isso, a Irlanda utiliza também a RNB modificada (GNI*) como indicador complementar da dimensão da economia doméstica.
Suíça e Noruega completam os cinco primeiros lugares, com 124.480 e 115.000 dólares de PIB per capita, respetivamente.
Na Suíça, a riqueza assenta numa combinação de indústria farmacêutica, maquinaria de precisão, tecnologia médica, relojoaria e serviços financeiros. Na Noruega, os recursos energéticos, sobretudo petróleo e gás, tiveram um papel decisivo, permitindo ao país acumular uma enorme reserva financeira através do seu fundo soberano.
A lista do FMI coloca ainda a Islândia, a Dinamarca e os Países Baixos entre as dez economias com maior PIB per capita. A única economia não europeia nos cinco primeiros lugares é Singapura, enquanto os Estados Unidos surgem em oitavo.
Ou seja, oito dos dez países mais ricos do mundo por habitante são europeus.
O PIB não conta toda a história
É aqui que a discussão fica mais interessante.
O facto de a Europa dominar esta classificação não significa que tenha resolvido os problemas que explicam a perda de peso na economia mundial. Significa apenas que diferentes indicadores contam histórias diferentes.
Uma comparação feita através da paridade do poder de compra (PPA), que ajusta os valores às diferenças de preços entre países, mostra uma distância menor entre algumas das principais economias europeias e os Estados Unidos.
Um estudo da Reserva Federal de Richmond, citado pelo elEconomista, analisou precisamente esta questão. Entre 2001 e 2023, o PIB per capita da Alemanha, medido em PPA, passou de cerca de 74% do nível norte-americano para aproximadamente 80%. França manteve-se perto dos 70%, enquanto Itália recuou de 74% para 68%.
Não existe, portanto, uma única história económica europeia. Há países que ganharam terreno, outros que ficaram praticamente no mesmo lugar e outros que perderam posição.
A diferença entre PIB nominal e PPA também ajuda a perceber por que razão o debate sobre a suposta divergência entre Europa e Estados Unidos é mais complexo do que parece.
Os Estados Unidos têm uma vantagem clara: dominam uma parte significativa das tecnologias que mais transformaram a economia nas últimas décadas.
Quando um produto tecnológico aumenta muito a sua capacidade sem que o preço suba na mesma proporção, as contas nacionais podem registar esse ganho como crescimento real. Uma economia que produz tecnologia de ponta beneficia, assim, diretamente desse aumento de qualidade e produtividade.
A Europa, pelo contrário, é sobretudo consumidora de uma parte significativa dessa tecnologia. Os consumidores europeus beneficiam dos mesmos avanços — computadores mais rápidos, melhores equipamentos, software e serviços digitais — mas esse ganho não aparece necessariamente como produção europeia.
É uma das razões pelas quais olhar apenas para o crescimento do PIB pode dar uma imagem incompleta da evolução do bem-estar.
Há ainda uma diferença fundamental entre produzir e beneficiar de uma inovação. Uma tecnologia pode ser desenvolvida por uma empresa norte-americana, gerar lucros e propriedade intelectual nos Estados Unidos e ser utilizada diariamente por milhões de europeus.
A riqueza criada pela inovação é então contabilizada de forma diferente da melhoria que essa inovação proporciona aos consumidores.
Mais riqueza não significa necessariamente mais bem-estar
Há outro elemento que ajuda a explicar a diferença entre as duas economias: o tempo de trabalho. Os norte-americanos trabalham, em média, mais horas do que os europeus. Isso contribui para uma produção económica superior por habitante, mas também significa menos tempo livre.
A comparação entre Europa e Estados Unidos torna-se, por isso, menos simples quando se introduzem indicadores como esperança de vida, desigualdade, segurança económica ou tempo disponível fora do trabalho.
A Europa pode crescer menos e, simultaneamente, oferecer aos seus cidadãos determinadas condições de vida que não são captadas pelo PIB. Mais férias, maior proteção social, menor desigualdade em muitos países e uma esperança de vida elevada são alguns dos elementos que ficam de fora daquela métrica. Isso não elimina o problema do crescimento. Mas muda a pergunta.
A Europa não é pobre. Está é a crescer menos
O verdadeiro problema europeu talvez esteja menos na riqueza que o continente ainda possui do que na sua capacidade para a renovar.
Envelhecimento demográfico, menor investimento em tecnologia, fragmentação dos mercados de capitais e dificuldades em transformar inovação em grandes empresas globais são desafios concretos. E tornam-se particularmente relevantes numa economia mundial em que inteligência artificial, semicondutores, energia e tecnologia estão a ganhar peso.
A Europa continua, contudo, a possuir empresas altamente produtivas, mão de obra qualificada, infraestruturas desenvolvidas, instituições estáveis e sistemas de saúde e proteção social que continuam a garantir níveis elevados de qualidade de vida.
Os números do FMI mostram, por isso, um paradoxo que vale a pena não ignorar. A Europa perdeu peso na economia mundial, mas continua a concentrar uma parte extraordinária da riqueza por habitante.
A questão para as próximas décadas não será apenas saber se o continente continua rico. Será perceber se consegue continuar a sê-lo enquanto outras regiões crescem mais depressa.
Porque perder peso relativo não é o mesmo que empobrecer. Mas, se a perda de dinamismo se prolongar durante demasiado tempo, a riqueza acumulada hoje poderá deixar de ser suficiente para garantir amanhã o mesmo nível de prosperidade.
Share this content:



Publicar comentário