França e Alemanha admitem incluir Reino Unido nas regras automóveis da UE, mas exigem alinhamento com tarifas à China
França e Alemanha estão a negociar um compromisso que poderá permitir aos fabricantes de automóveis britânicos beneficiar das futuras regras europeias de preferência industrial, desde que o Reino Unido alinhe as suas medidas comerciais com as da União Europeia (UE), incluindo as tarifas aplicadas aos veículos elétricos chineses. A proposta, revelada pelo Financial Times (FT) esta quinta-feira, 15 de outubro, prevê ainda condições mais restritivas ao investimento estrangeiro no setor.
O entendimento procura conciliar duas posições: a defesa da indústria automóvel europeia, que Paris pretende proteger da concorrência internacional, e a intenção alemã de alargar o regime ao Reino Unido, cuja indústria está fortemente ligada às cadeias de produção europeias.
Em causa está o programa «Made in Europe», que pretende dar prioridade aos fabricantes europeus no acesso a subsídios e contratos públicos. Segundo o projeto de acordo consultado pelo FT, o regime abrangeria os fabricantes dos 27 Estados-membros e os do Reino Unido, através de uma disposição relativa a parceiros europeus que integravam o mercado interno comunitário em 1 de janeiro de 2020.
A inclusão britânica teria, contudo, uma contrapartida: Londres teria de aderir às medidas de defesa comercial da UE, nomeadamente às tarifas sobre os automóveis elétricos chineses. O projeto prevê também condições mais exigentes para o investimento direto estrangeiro.
O compromisso não abrange, nesta fase, outros países que pretendiam beneficiar de tratamento semelhante, como o Japão, a Coreia do Sul e a Turquia.
Londres pressionada a rever política comercial
O Reino Unido tem resistido a aplicar tarifas semelhantes às da UE aos automóveis chineses, cuja presença no mercado britânico é significativa. A exigência franco-alemã coloca, assim, o Governo britânico perante uma escolha entre preservar a atual margem de decisão comercial e garantir melhores condições de acesso às futuras regras industriais europeias.
A pressão não é nova. A 5 de outubro, o The Guardian noticiou que Londres estava a avaliar a possibilidade de aplicar tarifas aos automóveis chineses, uma medida que poderia reforçar a candidatura britânica ao regime «Made in Europe». O jornal britânico indicou então que a questão estava a ser discutida no contexto das negociações sobre a futura legislação industrial europeia.
A 12 de outubro, o mesmo jornal divulgou que os responsáveis da Stellantis e da Renault defendiam a inclusão do Reino Unido nas regras de proteção da indústria automóvel europeia. Os dois fabricantes consideram que a integração das cadeias de produção britânicas no mercado europeu justifica um tratamento equivalente ao dos Estados-membros, embora tenham também defendido que Londres deve ponderar medidas para limitar as importações chinesas.
A posição dos fabricantes evidencia o peso das relações industriais entre o Reino Unido e a UE, num setor que exige investimentos elevados e depende de cadeias de fornecimento transfronteiriças.
Acordo inclui flexibilização das regras ambientais
O projeto franco-alemão prevê igualmente alterações à legislação europeia sobre emissões automóveis, respondendo a exigências da Alemanha e dos fabricantes do setor.
A Comissão Europeia propôs uma meta para 2035 que prevê uma redução de 90% das emissões de CO₂ dos automóveis novos, face aos níveis de 2021, permitindo compensar os restantes 10% através da utilização de aço de baixo carbono produzido na UE ou de combustíveis sustentáveis. Segundo o FT, o compromisso em negociação eliminaria esse mecanismo de compensação.
A proposta contempla ainda regras menos exigentes para os veículos híbridos plug-in, um regime mais favorável aos combustíveis renováveis e maior flexibilidade nas exigências de eletrificação das frotas empresariais.
Estas alterações refletem a pressão exercida pela indústria automóvel, que procura conciliar os objetivos climáticos europeus com os custos da transição tecnológica e a concorrência dos fabricantes chineses.
O entendimento entre França e Alemanha não constitui ainda um acordo definitivo. De acordo com o FT, as negociações continuam e qualquer compromisso terá de obter o apoio dos restantes Estados-membros e do Parlamento Europeu antes de entrar em vigor.
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