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A TAP ou o custo de andar para trás e para a frente

A TAP ou o custo de andar para trás e para a frente

A Lufthansa foi escolhida para adquirir 44,9% da TAP, podendo chegar aos 49,9% se os trabalhadores não comprarem as ações que lhes estão reservadas. O encaixe máximo nesta fase será de 1.201 milhões de euros. Numa eventual segunda fase, a valorização direta total poderá atingir 2.552 milhões. O Governo admite recuperar os 3.200 milhões injetados na companhia, mas essa conta depende de operações futuras, dividendos e valorização de participações. Não é dinheiro garantido. São números importantes. Há, porém, outro menos vistoso: o dos anos que Portugal perdeu a discutir o que fazer à TAP.
Em 2015, o Governo de Passos Coelho vendeu 61% da TAP. António Costa, a reboque da geringonça, renegociou o negócio em 2016, assegurando ao Estado 50% do capital. A pandemia levou o Estado a aumentar a participação para 72,5% em 2020, seguindo-se o controlo integral da companhia. Pelo caminho, os contribuintes injetaram 3.200 milhões de euros. Agora voltamos a vender. Não se pode atribuir tudo à alternância política, nem ignorar o impacto da pandemia na aviação. Ainda assim, tantas mudanças de rumo tiveram custos.
A proposta alemã prevê preservar a marca, a sede e o centro de operações em Lisboa, reforçar o Porto e investir na frota. É importante. Será vital garantir que os compromissos passem do papel à realidade.
A TAP é um exemplo, entre muitos.
O novo aeroporto de Lisboa foi discutido durante décadas, entre localizações, estudos e decisões sucessivamente revistas, até à escolha de Alcochete em 2024. A alta velocidade ferroviária também conheceu anúncios, adiamentos e recomeços. São investimentos que atravessam governos e legislaturas. Não podem ficar reféns de cada alternância política.
É por isso que os apelos recentes a grandes entendimentos merecem atenção. No Expresso, antigos ministros e empresários defenderam acordos entre PS e PSD para reformas duradouras. No 5 de Outubro, António José Seguro apelou ao entendimento político. Passos Coelho, na entrevista à SIC, apontou para uma alternativa à direita.
São caminhos políticos diferentes. Qualquer um deles exige, contudo, capacidade de decidir e manter um rumo. E isso é ainda mais importante nas grandes obras do que nas políticas públicas. Uma política pode ser corrigida. Um aeroporto, uma ferrovia, um hospital ou uma empresa estratégica não podem mudar de destino a cada quatro anos sem que o país pague a fatura.
Não é preciso um bloco central ou um entendimento à direita para cada decisão, nem unanimidade sobre tudo. É preciso que os grandes investimentos sejam estudados, discutidos, escrutinados e, uma vez decididos, tenham continuidade. Com fiscalização, naturalmente. E com a possibilidade de corrigir erros, não com a tentação permanente de começar de novo.
A TAP lembra-nos que a falta de continuidade tem um preço. E que os entendimentos de que agora tanto se fala não devem servir apenas para aprovar Orçamentos ou sustentar governos. Devem servir, sobretudo, para construir o país.
Portugal não tem de concordar sempre. Não pode é estar sempre a começar de novo.

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