História Baja de Portalegre: a estreia meteórica de Armindo Araújo nas ‘quatro rodas’ em 2005
Portalegre, 2005. O ar do Alentejo, em pleno outono, não transportava apenas o cheiro da terra molhada, mas também a eletricidade da antecipação. Enquanto os holofotes se viravam para a estreia de Carlos Sainz no Todo-o-Terreno, outro nome, já sobejamente conhecido e acarinhado pelos entusiastas do desporto motorizado em Portrugal, preparava-se para um batismo singular. Armindo Araújo, o Campeão Nacional de Ralis, trocava o rugir familiar do motor do Mitsubishi Lancer de ralis pelo ronco também potente de uma Mitsubishi Strakar, regressando a um palco que já conhecia, do tempos das duas rodas, mas sob uma perspetiva completamente nova. Desenhava-se uma mudança circunstancial de cenário.
Do guiador ao volante no Todo-o-Terreno: uma transição audaciosaArmindo Araújo já era uma figura incontornável no panorama do desporto motorizado nacional, com um palmarés invejável nos ralis, e também já conhecia Portalegre ‘doutras vidas’. Contudo, a Baja Portalegre 500 de 2005 marcava um ponto de viragem, a sua incursão oficial e competitiva nas quatro rodas. A nova Mitsubishi Strakar, do importador nacional da marca, era a máquina escolhida para esta audaciosa transição, prometendo um espetáculo de velocidade e adaptação.
A promessa que brilhou na lamaA aventura de Armindo não começou sem um percalço. Um Prólogo infeliz, culminando num 12.º lugar devido a uma avaria no limpa para-brisas, não abalou o espírito guerreiro do piloto. O verdadeiro espetáculo começou nos primeiros quilómetros do setor seletivo inaugural. Armindo, “perfeitamente adaptado às difíceis condições do terreno, foi deixando para trás os pilotos que o precediam na estrada.” O cronómetro, implacável e justo, revelava a surpresa: ao quilómetro 35, o piloto português liderava a corrida com uns impressionantes 42 segundos de vantagem sobre a experiente Jutta Kleinschmidt. A sua alegria era palpável, um reflexo puro da paixão pela condução: “É realmente divertido conduzir na lama. Assim, nem se notam as diferenças de potência”, recordava.
O fim prematuro e a semente de um legadoMas o destino, por vezes, escreve enredos agridoce. Apenas uma dezena de quilómetros mais à frente, a promissora prestação de Armindo teve um fim abrupto. “Estava a correr tudo bem, mas de forma inesperada, a embraiagem começou a patinar, falhando por completo no espaço de apenas um quilómetro.” A frustração era evidente, após um mês e meio de preparação intensa. Contudo, a resiliência falou mais alto, e o Campeão Nacional de Ralis soube extrair o positivo: “Custa pensar que andei mês e meio a preparar-me para esta prova e nem sequer consegui chegar ao fim do primeiro setor. A parte positiva é que estive no comando quando todas as equipas oficiais estavam em prova”, rematou, transformando a desilusão em orgulho.
Apesar do desfecho prematuro, a estreia de Armindo deixou uma marca indelével. Dominique Serieys, o diretor desportivo da MMMS, expressou a sua surpresa e admiração, num testemunho inequívoco do talento natural e da velocidade de Armindo, mesmo num terreno e num veículo que lhe eram novos: “se fosse meu piloto, só lhe pedia para andar mais devagar!”
A Baja Portalegre 500 de 2005 pode ter sido uma estreia agridoce para Armindo Araújo nas quatro rodas do TT, mas foi, sem dúvida, um vislumbre do que viria e continua a ser uma carreira brilhante. Um momento que, apesar do final inesperado, ecoa a paixão, a velocidade e a promessa de um campeão que ousou reinventar-se, em Portalegre não apenas memórias de lama e velocidade, mas o primeiro capítulo de uma lenda que continuaria a ser escrita. E ainda se escreve 21 anos depois!
FOTO AIFA
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